Quem não arrisca, não petisca

Não há ação que não traga risco implícito. Mas ninguém alcança o sucesso sem enfrentar o desafio que é viver

por Eugênio Mussak

Nem todos os presidentes americanos são lembrados por guerras ou por escândalos. Theodore Roosevelt, que habitou a Casa Branca entre 1901 e 1908, costuma ser lembrado especialmente por três coisas: pelo combate à distribuição de cargos públicos como favores políticos (prática que muito nos atormenta); pelo prêmio Nobel da Paz que ganhou em 1906 em função de seu empenho como conciliador entre a Rússia e o Japão (empenho que falta hoje em vários cantos do mundo); e pela viagem que empreendeu em companhia do marechal Rondon pelo rio Amazonas, cujas anotações se transformaram em um livro minucioso chamado Through the Brazilian Wilderness.

Entretanto, apesar desse currículo,Roosevelt é conhecido mesmo por ser autor de uma frase que, em qualquer circunstância que seja proferida, ainda hoje causa impacto, inquietação e reflexão. Disse ele: “Prefiro arriscar coisas grandiosas para alcançar triunfo e glória,mesmo expondo-me à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que não gozam nem sofrem muito, porque vivem numa penumbra cinzenta na qual não conhecem derrotas nem vitórias”.

Dita por alguém com o histórico desse homem, essa frase faz sentido e ganha legitimidade.Mas ninguém precisa ser presidente, nem explorador, nem prêmio Nobel, para perceber que, da vida, pode-se receber muito ou receber pouco, e contribuir mais ou contribuir menos, sempre a depender dos riscos que se deseja aceitar. Theodore afirma que ele é do tipo que prefere enfrentar o risco de perder ao risco de não ganhar. Traduzindo para o bom português, poderíamos dizer, sem medo de errar, que quem não arrisca não petisca.

Tentar é arriscar a falhar

É matemático: quem não tenta não corre riscos, mas também nada consegue. Aprendemos a caminhar porque tentamos e não desanimamos por causa dos primeiros tombos, ou seja, das primeiras derrotas – sem eles ainda estaríamos engatinhando. Roubamos o primeiro beijo correndo o risco de levar um tapa; conseguimos o primeiro emprego arriscando-nos a levar um rotundo “não”; passamos no vestibular sob o risco de reprovar, como a maioria. Não haveria a menor possibilidade de conseguir qualquer uma dessas vitórias sem a predisposição a suportar o fracasso.Esse é o risco.

É matemático: quem não tenta não corre riscos, mas também nada consegue. Aprendemos a caminhar porque tentamos e não desanimamos por causa dos primeiros tombos, ou seja, das primeiras derrotas – sem eles ainda estaríamos engatinhando. Roubamos o primeiro beijo correndo o risco de levar um tapa; conseguimos o primeiro emprego arriscando-nos a levar um rotundo “não”; passamos no vestibular sob o risco de reprovar, como a maioria. Não haveria a menor possibilidade de conseguir qualquer uma dessas vitórias sem a predisposição a suportar o fracasso.Esse é o risco.

Mas cuidado, há tentativas e tentativas. Mestre Yoda, de Star Wars – Guerreiros do Universo, afirmou: “Faça ou não faça – a tentativa não existe”. Foi uma lição necessária a seu pupilo Luke Skywalker, que disse, desacreditando de si mesmo, que faria uma “tentativa” de retirar a nave encalhada no pântano, o que enfureceu bastante o mestre.

Ora, pessoas que dizem que irão apenas “tentar” estão querendo dizer, antecipadamente, que não conseguirão, pois, afinal,“era difícil, e tudo não passou de uma mera tentativa”. Essa é a tentativa pela tentativa, sem compromisso com o resultado. A derrota que deriva dessa tentativa inglória não tem importância, é acobertada pela própria pequenez.

O compromisso com a tentativa é bem diferente do compromisso com o sucesso. Neste segundo caso, não conseguir o resultado esperado causa aprendizado, e, por outro lado, reforça a certeza de conseguir o que se pretende na próxima tentativa, até porque agora já se conhece o caminho errado. Este foi o espírito de Thomas Edison que, na 999ª tentativa frustrada disse: “Descobri mais uma maneira de não fazer a lâmpada”. Na próxima deu certo, e o mundo nunca mais foi o mesmo.

O risco calculado

O dicionário diz que risco é sinônimo de perigo ou de possibilidade de perigo. Se há “perigo” e eu enfrento assim mesmo, estou jogando com a sorte, entregando meu destino ao acaso.Mas, se o que existe é a “possibilidade de perigo”, posso tomar providências para evitá-lo. Daí vem o conceito do “risco calculado”.

Ao saltar no ar como um pássaro, o trapezista não está enfrentando a queda, e sim a possibilidade de queda. E ele sabe que as possibilidades ruins são inversamente proporcionais aos cuidados tomados para evitá-las. Ele não assume riscos que estejam fora de seu controle. O que parece loucura para o público é técnica para o trapezista.

Nós, que não somos trapezistas, muitas vezes também saltamos no ar imaginário buscando um trapézio abstrato escondido nas realizações do cotidiano. O psicólogo Leo Buscaglia escreveu que “rir é arriscar-se a parecer louco, chorar é arriscar-se a parecer sentimental, estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver, amar é arriscar-se a não ser amado”. Não há, portanto, ação humana que não traga implícito algum risco.O que há são pessoas dispostas a enfrentar esses riscos, enquanto outras fogem deles.

Entretanto é bom lembrar que enfrentar riscos pode ser um ato de coragem ou um ato de imprudência. Coragem não é o oposto do medo – o oposto do medo é o “não-medo”, e cumpre função contrária a ele.O medo é uma necessidade da própria biologia, ligada à manutenção da vida. O medo impede a exposição do indivíduo – animal ou humano – ao perigo superior à sua condição de enfrentá-lo.Nesse sentido, o não-medo é danoso à vida, é contrário à existência, é irresponsável para com a própria natureza. Não ter medo significa não ter apego à própria condição de ser vivo, podendo, assim, ser interpretado como uma patologia. Não é bom não ter medo.

Já a coragem é um estado de superação, baseado na lucidez,na percepção das próprias capacidades e limites, no autoconhecimento, portanto. A coragem transita entre o medo e o não-medo – supera o primeiro e ri do segundo. O corajoso não é um imprudente. Ele tem medo, mas vence, não por bravata, mas por preparar-se para enfrentar as dificuldades denunciadas pelo medo. Eis o risco calculado. Poderíamos atualizar o ditado para “quem não arrisca riscos calculados não petisca resultados consistentes”.

Viver é arriscar-se

“Não quero no meu barco nenhum homem que não tenha medo de baleia.” Esta foi a fase com que o capitão Acab recebeu os tripulantes a bordo de seu navio Pequod antes de zarparem em busca de Moby Dick, a colossal baleia, o monstro dos mares. Ele queria a baleia como queria a própria vida. Assumiu o risco de caçá-la, mas respeitava sua força e seus domínios, e respeitava muito.

Dizem os estudiosos da obra de Herman Melville, autor de Moby Dick, que a simbologia dessa aventura mostra o encontro do homem com seu próprio destino, que no final é a morte. Moby Dick é apresentada como uma encarnação dos medos humanos, e o Pequod, os meios que desenvolvemos para enfrentá-los. A filosofia do capitão, que queria homens corajosos, mas não sem medo, é o melhor testemunho da importância do autoconhecimento, que nos permite avaliar os riscos antes de aceitá-los e de medir nossos limites e nossas possibilidades. A baleia ganhou a luta, mas sua vitória sobre o homem não simboliza a imprudência humana, é, antes, um alerta ao valor da cautela.

A vida da maioria de nós,mortais comuns, parece, numa primeira análise, que pouco tem a ver com as fantásticas histórias, como a de Moby Dick, mas há semelhanças, guardadas as proporções. Independentemente do que você faça, você assume seus próprios riscos. Se você não tiver medo deles, poderá ter problemas, e se não tiver coragem, também.

O dia-a-dia do cidadão que pega trânsito, que faz negócios, que participa de reuniões, que fala em público, que faz entrevista de emprego, que enfrenta chefe nervoso, é, sim, cheio de pequenos riscos. Com um detalhe: na vida real, os riscos surgem simultaneamente e se acumulam, como em uma poupança de desafios que não desaparecerão enquanto não forem enfrentados.

Ninguém tem sucessos sem enfrentar desafios. Aprenda com os heróis mitológicos: Prometeu roubou o fogo dos deuses e por isso foi condenado a ter seu fígado comido por abutres pela eternidade. Ícaro foi imprudente e voou perto do Sol com suas asas de penas e cera. Esta derreteu ao calor solar e Ícaro caiu. Belorofonte, montado em Pégaso, matou a Quimera e voou para exibir-se até as proximidades do Olimpo, enraivecendo Zeus. Este assustou Pégaso e derrubou o herói, que passou a vagar coxo e em desgraça.

O que essas passagens da mitologia grega têm em comum? Todas recomendam duas coisas: assuma o risco, mas prepare-se para ele. Não exceda o limite.Vá em frente, mas seja prudente. Camões garante, em Os Lusíadas, que os deuses compreensivos ajudaram Vasco da Gama a chegar às Índias e a voltar para casa, com direito a uma parada na Ilha dos Prazeres – não sem quase morrer algumas vezes. As divindades mitológicas gostam dos ousados, mas não toleram os imprudentes.

É assim até hoje. No mercado de capitais – espécie de divindade moderna –, os investimentos mais rentáveis são os que oferecem mais risco. Bancos “generosos” fecharam as portas deixando muitos clientes no prejuízo.

Esses são sinais de que devemos nos abster de arriscar? Não, é claro. São avisos de que riscos devem ser assumidos, desde que minimizados pela prudência. Essa é uma dobradinha poderosa. Em “Mar Português”, um de seus poemas mais repetidos, Fernando Pessoa recomenda o risco calculado quando lembra que, “ao mar, Deus deu perigos e abismos, mas nele é que espelhou o céu”. Navegue, sim, mas com precisão.

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