Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

- Alvaro de campos

Lá nos meus idos da adolescência, quando a professora de inglês nos falou dos “penpals” – amigos de correspondência. A justificativa dos penpals era treinar a língua. Eu quis ter um e tive. Não em inglês como era esperado, ou francês, outra língua que eu estudava na época. Pelo contrário, meu “penpal” trocava poesias e banalidades do cotidiano comigo. Coisas do tipo: “tomei sorvete de abacaxi”, “chorei ouvindo legião”.
Com ele aprendi e pra ele escrevi minhas primeiras cartas de amor. Do amor propriamente romântico, inalcançável, platônico. A gente sabia que era assim. Era mais um ensaio literário que o desejo real de estar junto. Talvez até houvesse o desejo, afinal, como escrever sobre o amor sem senti-lo? Seria uma carta mentirosa, falsa, sem valor algum. O papel era cuidadosamente colorido e desenhado. Letras caligráficas, bem delicadas. E mais cuidado ainda com a escolha das palavras, com medo de dar outro sentido ao sentimento, medo de escrever com erros gramaticais. O tempo passou e com ele as cartas ficaram mais escassas até o dia que não chegaram mais. Ainda tenho uma caixa repleta delas, com seus envelopes coloridos, guardadas no meu armário.
Depois disso, escrevia cartas apenas para amigos. Ocasião não faltava! Era pedido de desculpas, era dia do amigo, era uma aula chata na faculdade. Eram cartas, bilhetes e cartões postais desses que são propaganda e que pegamos gratuitamente em vários locais da cidade. Certo dia um amigo ligou dizendo que a tia dele encontrou um desses cartões postais meus para ele, entre as coisas que ela estava jogando fora. Ela fez questão de guardar e ligar pra ele, emocionada.
Dia desses sentei naqueles bancos mais altos no ônibus e na minha diagonal tinha um rapaz lendo uma carta. Letra deitada, caneta azul, folha de caderno. O rapaz dava longos suspiros. As vezes parecia de alívio, outras de indignação. “Esse amor que sinto vem de outra vida”. Tem encontros que parecem assim mesmo, que já era predestinado, coisa de reencarnação. Talvez tivessem vivido um dia no Egito antigo, banhado-se no mar vermelho e mumificados de mãos dadas. Quem pode afirmar que não? “Você é uma pessoa muito esforçada que merece o melhor da vida”. Amor é prêmio só pra quem merece. Surge do esforço de fazer o parceiro feliz, conquistando. E somos capazes de fazer qualquer coisa pra provar que nosso amor é grande o suficiente pra cumprir qualquer promessa, até aquelas absurdas como de fazer o outro feliz pra sempre. “Queria fazer um boquete em você”. O amor é urgente. Não basta tocar a alma, é necessário tocar o corpo também. Esse tipo de amor rende suspiros exasperados, mãos bobas, suor e noites em motéis baratos. Nessa hora o homem soltou um suspiro nervoso, balançou a cabeça. Ele queria estar com a remetente naquela hora? Mas pra mim ainda havia algo estranho, talvez a carta fosse de outro homem e era isso que o incomodava? E se fosse de uma aluna ou alguém proibido? Ele parecia professor de educação física, instrutor de academia. Tinha um dragão tatuado no braço bem torneado e nu pela camiseta sem mangas.
“Da sempre sua…”. E ele dobrou o papel e guardou num bolsinho externo da mochila. Não li o remetente, não deu tempo. Minha visão também não alcançou muitos detalhes da carta. Foi o acaso impedindo que eu invadisse a privacidade daquela declaração.
Uma carta tão diferente das romantizadas. Sem perfumes, escrita na pressa do sentimento, num papel qualquer. A autora devia estar na escola quando sufucou de tanto amor e escreveu durante a aula de matemática. A professora, uma velha mal humorada enchendo o quadro de números enquanto a jovem aluna sonhava com o seu professor e escrevia tão depressa com medo do flagrante. Dobrou em seis partes e saiu para ir ao toalete, a desculpa perfeita. E no caminho encontrou o armário ali, o vão ali, a oportunidade ali. Pegou a oportunidade para usar o vão e deixar a carta no armário. Depois saiu e foi fumar um cigarro, cheia de adrenalina. A resposta viria numa tarde quente, dentro do vestiário feminino, com gemidos sufocados e roupas abertas. Ele chegaria em casa e a esposa nem desconfiaria nem da carta, nem da traição.
Ele olhava pela janela, como se nada tivesse acontecido. Como se a carta não tivesse sido escrita. Ou maquinando um plano perfeito. Ia chegar em casa, bater uma no chuveiro e ligar pro namorado Juan. Teria decidido aceitar o convite dele para morarem junto na Guatemala.
Desceu alguns pontos antes do meu. Levou a carta cheia de palavras esdrúxulas que certamente nem se lembrará semana que vem. Saiu tão calmamente, tão ridiculamente calmo. Sem explicar a carta, nem o motivo, nem a remetente, nem sua história. Nada de aluna ou Juan. Foi embora deixando apenas uma sensação de que as cartas de amor são ridículas. Ridículas como o próprio amor é, desde sempre e pra sempre.

7 respostas »

  1. o ridículo e ncessário estado de amar.
    nunca fui de escrever cartas… e em todas as tentativas em escrevê-las, sempre frustrei-me com o sentimento de: “pra que isso?”
    mas o tempo passa e sinto falta das cartas que não escrevi.

    ah!
    Ficamos felizes com suas visitas ao Blog de 7 cabeças.

    aline (a cabeça de 4ª)

  2. Eu, “on the other hand”, sempre fui viciado em cartas. Sempre as escrevi. Tanto que meu livro de poesias tem algumas.

    Escrevo cartas, bilhetes… ou seja, sou um idiota completo. Mas sou feliz assim! :)

  3. Cartas de amor são ridículas sim, mais são cartas..
    e nada melhor do que essa ridicularia toda para podermos sonhar, suspirar e imaginar.. é tão bom, melhor do que ficar frustada.. escrevo alguns “poemas” meu .. é claro.. não são bons poemas para doutrens, mas para mim é algo “ridículo” que gosto, não me canso de escrever, porque acima de tudo , cartas, bilhetes, mensagens ou o que for é bom, acalma e mostra o que você sente, e também escrevo e depois digo: pra quem ou que escrever isso? não penso outra vê, apenas saiu escrevendo.. tudo que você escreve é o que você realmente está sentindo, e isso é bom.

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