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Arquivo do mês: maio 2009

Mas é todo amor

É feio e triste – disse a Fermina Daza – mas é todo amor.

Gabriel Garcia Marquez in “O Amor no Tempo do Cólera”

 
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Publicado por em maio 1, 2009 em Gabriel Garcia Marquez

 

Três fases distintas

“A história de todas as grandes civilizações galácticas tende a atravessar três fases distintas e identificáveis ― as da sobrevivência, da interrogação e da sofisticação, também conhecidas como as fases do como, do por que e do onde.

Por exemplo, a primeira fase é caracterizada pela pergunta: Como vamos poder comer?
A segunda, pela pergunta: Por que comemos?
E a terceira, pela pergunta: Aonde vamos almoçar?”

Douglas Adams In “O Guia do Mochileiro das Galáxias”

 
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Publicado por em abril 30, 2009 em Douglas Adams

 

A paixão só ama objetos livres

A dor da paixão não satisfeita é essa: o apaixonado deseja possuir o objeto do seu amor, mas ele escapa sempre. Por isso ele sofre. Movido pela dor, quer possuí-Io. Não sabe que, para que sua paixão continue a existir, é preciso que ele continue escapando sempre. A paixão só ama objetos livres como os pássaros em vôo.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

 
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Publicado por em abril 29, 2009 em Rubem Alves

 

Não tenho tempo pra nada

Não tenho tempo para nada, não tenho gosto para nada, sinto um nojo desgraçado de tudo. A vida me esmaga, sou escravo de horários, não sou dono de mim, não sei mais de onde vim nem para onde vou.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

 
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Publicado por em abril 28, 2009 em Fernando Sabino

 

Ventura

Naquela missa de Sexta-Feira da Paixão, notei que o velho Ventura rezava assim; – Tchug tchug tchug tchug amém… Tchug tchug tchug tchug amem. Tchug tchug tchug…
- Assim não vale, seu Ventura.
- Ora! Ele sabe tudo o que eu quero dizer…

Mário Quintana in “Sapato florido”

 
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Publicado por em abril 27, 2009 em Mario Quintana

 

No princípio existia a palavra…

Visitando o blog do André, o lendo.org, encontrei esse “desafio” de escrever sobre o livro que li que mais me fez feliz.
Na hora me veio em mente o primeiro livro que li, se é que podemos chama-lo de livro.


“No princípio existia a palavra…”

A palavra era dita e repetida pela minha avó, depois pela minha mãe que respondia a minha curiosidade. O que elas diziam naquele tempo, confesso que não recordo muito bem. Não guardava nem no exato momento de tão bestificada que ficava com a imagem de uma bela rainha vestida de branco, rodeada de serviçais egípcios e ouro. Era a rainha de Sabá até então ilustrada num livro bíblico. Minha família tem uma religiosidade muito forte e muito antiga, mas o primeiro livro que li não foi a Bíblia. Entretanto, não posso negar que foi ela que despertou meu interesse em ler logo e conhecer a história daquela rainha.

Também não sei precisar quanto tempo levou desde o despertar do interesse em ler e a entrada na escola. Mas recordo como se fosse hoje a emoção de quando recebi nas mãos e ajudei a encapar em casa a minha cartilha “Caminho Suave”. A era uma letra sozinha, mas tinha mais quatro amigos. Ava, Eva, Ivo, Ovo, Uva. Precisava de uma letrinha de nada e pronto, virava gente e virava coisa. A barriga do bebê era engraçada e levou um tempão pra eu entender que não era pra copiar igual ao grafado nos livros, aquela letra de forma. Depois disso veio tanta coisa! Cachorro, dado, faca e mais tarde poço e galinha, até o dia da despedida de Zazá, a última palavra que li nessa cartilha.

Fiquei triste uns dias quando a professora explicou que no nosso alfabeto as letras W, Y e K não eram incorporadas. E eu que já freqüentava a casa do meu vizinho adolescente e leitor de Wolverine, fui facilmente iludida que um W e um V davam na mesma.

Depois dessa cartilha vieram outros livros infantis. Irmãos Grim, Monteiro Lobato. E como não haveria de ser diferente, veio também a preguiça de ler. E anos mais tarde a redescoberta da leitura com “A Marca de uma Lágrima” de Pedro Bandeira, a raiva da leitura com Machado de Assim em “Helena” e a há poucos anos atrás a paixão em ler com Clarice Lispector em “A paixão segundo G.H.” e “Pequenas Epifanias” de Caio F.Abreu.

E hoje me perguntam qual livro que li que me deixou mais feliz? Todo livro que leio me deixa feliz. Feliz por ser uma privilegiada por ter recebido educação e aprendido “as letras” num país com tanta desigualdade social e índices altos de analfabetização. Cada livro que eu termino de ler significa que eu ultrapassei as estatísticas de livros lidos ao ano. Cada livro terminado mostra que o autor sabe como contar uma história, como expressar sua opinião e conseguiu me prender durante em média duzentas páginas. Cada livro que chega ao fim me deixa um pouco mais triste ou um pouco mais feliz e sempre renova meus conceitos.

Mas se é pra escolher um único livro que ao terminar de ler me fez feliz, eu escolheria sem dúvida alguma a minha cartilha “Caminho Suave”. Ela me abriu as portas pra um mundo fantástico que não existiam apenas rainhas vestidas de branco rodeadas de serviçais e ouro. Um mundo onde ler faz a gente existir de verdade.

“… e a palavra (…) habitou entre nós.”

 
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Publicado por em abril 26, 2009 em Poetriz

 

Porque dói

É melhor eu não falar em felicidade ou infelicidade – provoca aquela saudade desmaiada e lilás, aquele perfume de violeta, as águas geladas da maré mansa em espumas pela areia. Eu não quero provocar porque dói.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em abril 25, 2009 em Clarice Lispector

 

Vencendo o medo

Já não perco o sono porque vou dirigir no dia seguinte. E nem tenho que voltar mais umas 3 vezes com dor de barriga antes de ir para a garagem. Após abrir o portão e sentar no carro finalmente, ainda sinto a barriga estremecer. Então eu giro a chave na ignição e vou. Paro no meio do percurso de saída da garagem e olho para os dois lados, igual criança aprendendo a atravessar a rua. Confiro mais umas duas vezes só pra ter certeza. Nessa hora não olho pra janela da sala, porque o medo ainda espreita, escondido atrás da cortina.
E cada pisada no acelerador, cada troca de marcha, eu sinto o frio na barriga. Tenho que tirar o pé da embreagem com jeito pro carro não sentir a troca de marcha com um salto. Tenho que sentir a embreagem em cada parada, pra ter certeza que ela ainda pulsa como meu coração disparado, pra ter certeza de que não vou deixar o carro morrer.

Cada ladeira eu rezo pra não ter que parar no meio do caminho. E se paro, rezo pra sair sem cantar pneus. Eu evito ruas que ainda me deixam insegura. E comemoro cada farol aberto e trânsito livre.
Outro dia me perdi num caminho, então fiz um retorno e voltei ao mesmo ponto. Perdi porque fiquei indecisa se era exatamente ali que eu devia entrar, e não vinha preparada pra virar a qualquer momento.
Outro dia ainda, o carro morreu sei lá quantas vezes quando eu devia sair no sinal verde numa rua plana. Buzinaram, o rádio tocava sei lá que música, tudo ficou escuro, tive vontade de chorar. E não quis olhar pelo retrovisor porque sabia que era ele que estava lá, respirando na minha nuca, o medo. No fim, consegui sair só pra encontrar com um novo desafio: a entrada no estacionamento do laboratório. Era uma tremenda descida, curta e inclinadíssima. Pe na embreagem erradamente, porque ainda sou insegura. Estacionei numa vaga fácil de sair, mas entrei torta. Então sai e voltei inúmeras vezes até alinhar perfeitamente no centro da vaga.
Exatamente, tenho que ser perfeita. Por isso o medo ainda me segue as vezes. Mas não deixo mais ele vencer sem ao menos lutar contra ele…

 
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Publicado por em abril 24, 2009 em Cotidiano

 

Eu comecei a ouvir

Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
- Escutatória”

 
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Publicado por em abril 24, 2009 em Rubem Alves

 

Mistério do pão

Me lembrei de uma coisa inventada por Salvador Dali — A Coisa era um pão. Sairia no jornal com manchete assim: “O Inevitável Aconteceu — A Descoberta do Pão”. Um pão monumental, exatamente igual a um pão-francês comum. A diferença estaria no tamanho: mediria dois metros de comprimento. O pão era encontrado na rua, levariam para a polícia. Estará envenenado? Conterá explosivo? Propaganda política? Os comunistas, o pão-para-todos? Anúncio de padaria? Os jornais comentavam e discutiam o que fazer do pão. Era só o, assunto ir esfriando, e um pão maior ainda, de cinco metros, amanhecia atravessado no Viaduto. Toda a cidade empolgada com o mistério, a polícia desorientada, o pão analisado nos laboratórios. E continuava o problema: que fazer com ele? Para despistar, um de nós escrevia um artigo sugerindo que fosse cortado em milhares de pedaços e doado à Casa do Pequeno Jornaleiro. No Rio, em São Paulo, Recife, Porto Alegre começavam a aparecer pães, cada vez maiores, nos lugares públicos. Eram os membros de uma sociedade secreta já fundada, a Sociedade do Pão, que começavam a trabalhar. E um dia surgiria outro pão gigantesco em Roma, outro em Londres, outro em Nova Iorque. A humanidade deixaria de se preocupar com seus problemas, as guerras seriam esquecidas, até que resolvessem o mistério do pão. Era a vitória pelo Terror.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

 
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Publicado por em abril 23, 2009 em Fernando Sabino

 
 
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