Visitando o blog do André, o lendo.org, encontrei esse “desafio” de escrever sobre o livro que li que mais me fez feliz.
Na hora me veio em mente o primeiro livro que li, se é que podemos chama-lo de livro.
“No princípio existia a palavra…”
A palavra era dita e repetida pela minha avó, depois pela minha mãe que respondia a minha curiosidade. O que elas diziam naquele tempo, confesso que não recordo muito bem. Não guardava nem no exato momento de tão bestificada que ficava com a imagem de uma bela rainha vestida de branco, rodeada de serviçais egípcios e ouro. Era a rainha de Sabá até então ilustrada num livro bíblico. Minha família tem uma religiosidade muito forte e muito antiga, mas o primeiro livro que li não foi a Bíblia. Entretanto, não posso negar que foi ela que despertou meu interesse em ler logo e conhecer a história daquela rainha.
Também não sei precisar quanto tempo levou desde o despertar do interesse em ler e a entrada na escola. Mas recordo como se fosse hoje a emoção de quando recebi nas mãos e ajudei a encapar em casa a minha cartilha “Caminho Suave”. A era uma letra sozinha, mas tinha mais quatro amigos. Ava, Eva, Ivo, Ovo, Uva. Precisava de uma letrinha de nada e pronto, virava gente e virava coisa. A barriga do bebê era engraçada e levou um tempão pra eu entender que não era pra copiar igual ao grafado nos livros, aquela letra de forma. Depois disso veio tanta coisa! Cachorro, dado, faca e mais tarde poço e galinha, até o dia da despedida de Zazá, a última palavra que li nessa cartilha.
Fiquei triste uns dias quando a professora explicou que no nosso alfabeto as letras W, Y e K não eram incorporadas. E eu que já freqüentava a casa do meu vizinho adolescente e leitor de Wolverine, fui facilmente iludida que um W e um V davam na mesma.
Depois dessa cartilha vieram outros livros infantis. Irmãos Grim, Monteiro Lobato. E como não haveria de ser diferente, veio também a preguiça de ler. E anos mais tarde a redescoberta da leitura com “A Marca de uma Lágrima” de Pedro Bandeira, a raiva da leitura com Machado de Assim em “Helena” e a há poucos anos atrás a paixão em ler com Clarice Lispector em “A paixão segundo G.H.” e “Pequenas Epifanias” de Caio F.Abreu.
E hoje me perguntam qual livro que li que me deixou mais feliz? Todo livro que leio me deixa feliz. Feliz por ser uma privilegiada por ter recebido educação e aprendido “as letras” num país com tanta desigualdade social e índices altos de analfabetização. Cada livro que eu termino de ler significa que eu ultrapassei as estatísticas de livros lidos ao ano. Cada livro terminado mostra que o autor sabe como contar uma história, como expressar sua opinião e conseguiu me prender durante em média duzentas páginas. Cada livro que chega ao fim me deixa um pouco mais triste ou um pouco mais feliz e sempre renova meus conceitos.
Mas se é pra escolher um único livro que ao terminar de ler me fez feliz, eu escolheria sem dúvida alguma a minha cartilha “Caminho Suave”. Ela me abriu as portas pra um mundo fantástico que não existiam apenas rainhas vestidas de branco rodeadas de serviçais e ouro. Um mundo onde ler faz a gente existir de verdade.
“… e a palavra (…) habitou entre nós.”










Olá!
O seu texto me levou a uma viagem à minha infância, quando em um mesmo momento eu ia do assombro ao maravilhoso com as estorias que ouvia dos adultos. Nem sempre estorias – como poderia dizer? – “infantis”…
Também atribuo a elas – às estorias – minha iniciação no universo da leitura.
O livro que me fez mais feliz? Não sei mesmo. Foram tantos. Muitos. Teria que levar algum tempo para descobrir, mas, como no primeiro momento não me ocorreu nenhum, ou muitos amontoados e indefinidos, acho que não tem nenhum, ou melhor, são todos, inclusive os que continuam rolando hoje… como com você!
Um grande abraço/cayero
Ler, escrever, interpretar e criar são privilégios para poucos. O saber é uma arte, e só sabe quem se deixa ensinado ser.
Bjoos!
[...] Flávia, do blog Poetriz, que escreveu sobre sua cartilha Caminho Suave, com a qual foi alfabetizada. [...]
Parabéns Fláflá!!! Esta cartilha também alumiou meu caminho…
Olá Flávia, não pude deixar de vir te cumprimentar pelo lindo texto, que também me evocou os dias felizes da meninice. Concordo contigo, é mesmo um privilégio poder desfrutar de uma boa leitura!
Parabéns pelo seu Poetriz, estou te adicionando a minha lista, e prometo voltar mais vezes para ler TUDO.
Uma semana iluminada!!
Beijos
Paula