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Arquivo do mês: maio 2009

Ando muito infeliz

Eu ando muito infeliz, Dudu, este é um segredo que conto só para você: eu tenho achado, devagarinho, cá dentro de mim, em silêncio, escondido, que nem gosto mais muito de viver, sabia?

- Caio F. Abreu in “Os Dragões não Conhecem o paraíso”.

 
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Publicado por em maio 31, 2009 em Caio Fernando Abreu

 

Veja essa canção: “No air”

Não foi por uma briga mas também não chegou a ser de comum acordo. A vida trata de afastar as pessoas. Ela estava de mudança de país, ia estudar fora. Sonho que ela carregava desde muito jovem e desejo concedido pelos pais que lutaram a vida inteira para permitir isso. Ela o amava sim. Porém havia decidido dedicar-se primeiro às coisas que julgava importantes antes do amor. Depois de um bom curso superior, mestrado, doutorado, um bom emprego, estabilidade financeira, iria buscar o amor. O que ela não contava era que a vida tivesse atrapalhado seus planos apresentando o amor antes de tudo.

Ele trabalhava numa cidade pequena. Sempre foi rodeado de amigos e incrivelmente sozinho. Tinha um emprego bom, apesar de não ser ainda o que ele queria pro futuro. Queria um dia trabalhar no que gostava realmente e gostava de artes. Gostava de público, de pintura, de música, de palhaço. E gostava dela também.
Não tinham certeza de como se conheceram. Quando contavam, cada um romantizava exaltando cenas e situações que não coincidiam entre si. Típico dos enamorados.
Amavam-se quinzenalmente conforme podiam viajar porque moravam longe um do outro.

Foi um choque pra ele quando soube da mudança dela no ápice da paixão. Ele, no lugar dela, teria abandonando tudo pra ficar com ela. Mas ela não podia, era o sonho de toda uma vida e não podia adiar mais. Foi difícil decidir, mas não podia ser diferente.

Ele a fez prometer que voltaria, alimentaria a esperança da volta todos os dias de sua vida.

Combinaram dele não ir ao aeroporto. A última lembrança seria de uma tarde agradável que caminharam junto ao mar, onde trocaram juras e promessas de amor. Desde a notícia da partida não haviam se visto. Guardariam apenas os sorrisos, não conheceriam a face rosada e os olhos chorosos do outro.

Ela informou a data da partida, mas também não deu detalhes com medo de que ele aparece num último instante e pussesse tudo a perder.

Na bagagem, ela levava além do trivial, uma foto deles.

Na noite da partida dela, ele chorou. E também chorou muitos outros dias depois.

Ela despediu-se da família e partiu rumo à nova vida.
Sentia um frio na barriga pela decolagem, pela insegurança do futuro.
A viagem seguiu tranqüila por algumas horas até que o avião encontrou uma turbulência. O avião começou a chacoalhar, as luzes piscaram uma vez, duas, três. Em seguida a aeromoça apareceu no inicio do corredor gesticulando. As máscaras de ar caíram na cabeça dos passageiros que foram colocando apressadamente. O ar ia ficando cada vez mais escasso. E o medo de que a aeronave despencasse a qualquer instante era apavorante.

Ele estava num barzinho. Saiu com alguns amigos que tentavam, em vão, anima-lo. Tomaram alguns chopes e comiam petiscos. A conversava era leve, o riso solto, mas o pensamento dele estava distante e ele mal respondia aos assuntos discutidos. Foi quando a garganta dele fechou. Ele foi ficando roxo. As mãos no pescoço não ajudavam, elas tentavam se livrar do enforcamento imaginário. O ar faltando. A visão escurecendo. A cadeira virando. Ele caindo e gritos pelo ar.
Nunca tivera asma ou qualquer outra doença respiratória. A falta de ar o pegou de súbito.

Foram segundos que duraram uma eternidade.
E o avião encontrou um céu limpo e seguiu o curso normalmente.

E o ar voltou aos poucos, assim como a consciência dele.

Ela nunca mais voltou. Durante algum tempo ainda trocaram correspondências e juras de amor, até o dia que chegou o seguinte mensagem: “Não volto mais. Siga com sua vida. Estou seguindo com a minha”. Depois daquelas palavras, ela nunca mais se pronunciou ou respondeu qualquer tentativa dele de comunicação.

Ele até hoje espera que ela volte pra ele. E em dias secos, costuma usar uma bombinha de ar.

Sem Ar

Me diga como eu vou respirar sem ar (sem ar)
Oh…

Se eu morrer antes de acordar
Isso foi porque você me tirou a minha respiração
Estar perdendo você é como estar vivendo em um mundo sem ar
Oh…

Eu estou aqui sozinho
Não quero partir
Meu coração não se move, está incompleto
Quero que haja um jeito para que eu possa fazer você entender

Mas como você espera que eu
Viva sozinha ? Entenda-me
Porque meu mundo gira ao seu redor
É tão difícil para eu respirar

Me diga como eu vou respirar sem ar
Não posso viver, não posso respirar sem ar
É assim como eu me sinto quando você não está aqui
fica sem ar, sem ar
Eu estava em águas profundas,
Me diga, como você vai ser sem mim?
Se você não está aqui, eu não posso respirar
Estou sem ar, sem ar…

Sem ar, ar
Oh…
Sem ar, ar
Sem…
Sem ar, ar
Oh..
Sem ar, ar

Eu caminho, eu fujo
Eu pulo, eu vôo
Logo fico longe do chão, flutuando até você
Não há gravidade para me segurar
Sendo sincero

Mas de alguma maneira eu ainda estou viva por dentro
Você levou minha respiração, mas eu sobrevivi
Eu não sei como
Mas eu nem me importo

Mas como você espera que eu
viva sozinha? Entenda-me
Porque meu mundo gira ao seu redor
É tão difícil para eu respirar

Me diga como eu vou respirar sem ar
Não posso viver, não posso respirar sem ar
É assim como eu me sinto quando você não está aqui,
Estou sem ar, sem ar
Estava em águas profundas
Me diga, como você vai ser sem mim?
Se você não está aqui, eu simplesmente não posso respirar
Estou sem ar, sem ar…

Sem ar, ar
Oh…
Sem ar, ar
Sem…
Sem ar, ar
Oh..
Não mais…

É sem ar, sem ar…
Oh!

Me diga como eu vou respirar sem ar
Não posso viver, não posso respirar sem ar
É assim como eu me sinto quando você não está aqui,
É sem ar, sem ar
Estava em águas profundas,
Me diga, como você vai ser sem mim?
Se você não está aqui, eu simplesmente não posso respirar
É sem ar, sem ar…

Sem ar, ar
Oh…
Sem ar, ar
Sem…
Ser ar, ar
Oh…
Sem ar, ar.

 
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Publicado por em maio 30, 2009 em Poetriz

 

Fitas vermelhas

Fitas vermelhas dançam na noite. Ninguém vê, ninguém repara. Se não enxergam estrelas, quem enxergaria ela?
Também não a vejo, mas ela ronda meu quarto. Silenciosa, passos ninjas, invisível na noite.
Algumas vezes penso ouvir sua voz sussurrando no meu ouvido, as vezes penso sentir a adaga no meu pescoço.
Ela morreu, mas ainda vive.
Ela insiste em voltar nas noites que fico à toa.
Nas noites que deixo os sentimentos que tranco no peito fugirem.
Nessas noites, onde fantasmas assombram o escuro, ela surge.
Surge e me anima com suas fitas vermelhas.
E depois some levando o medo junto dela.
E morre com ele.

As vezes lembro das fitas vermelhas esvoaçantes.

Não enxergo nada na escuridão.
Mas eu sei que alguém silencioso, uma adaga prateada e fitas vermelhas dançam quando durmo.

 
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Publicado por em maio 29, 2009 em Poetriz

 

Dias importantes

Não dá pra saber qual dia será o mais importante da sua vida. Os dias que você pensa serem importantes nunca atingem a proporção imaginada. São os dias normais, os que começam normalmente, e acabam se tornando os mais importantes.
Nunca se sabe qual é o dia mais importante da sua vida. Não até ele acontecer. 
Você não reconhece o dia mais importante da sua vida até que esteja no meio dele.
O dia que você se compromete com algo ou com alguém.
O dia que você tem seu coração partido.
O dia que você conhece sua alma gêmea.
O dia que você se dá conta que não há tempo suficiente, porque você quer viver para sempre. 
Esses são os dia mais importantes.
Os dias perfeitos.

- Greys Anatomy
5X22 

 
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Publicado por em maio 28, 2009 em Grey’s Anatomy

 

Nostalgia

— O que é que tem importância, então?
— Para mim? Mais nada. Para você, escrever. Fazer do seu arrependimento uma boa literatura.
— Não me arrependi ainda. Talvez ainda possa evitar…
— É impossível. O sentimento não é bem de arrependimento, é uma espécie de nostalgia — já lhe disse isso. Nostalgia daquilo que a gente não é, dos lugares onde não esteve, das coisas que não chegou a fazer… Se você não tiver isso, se um dia se sentir satisfeito, pode ter a certeza de que você não é mais escritor.
(…)
— Seria até bom, se não fosse o risco de ficar apenas com a outra espécie de nostalgia: a de tudo que a gente realmente viveu. Uma precisa da outra, para se transformar em experiência.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

 
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Publicado por em maio 27, 2009 em Fernando Sabino

 

Nos filmes

Fechei a porta, encostei a parte de cima da cabeça contra ela. Só nos filmes as pessoas fazem isso, nunca vi ninguém fazer de verdade. Comecei a fazer para ver se sentia o que as pessoas sentem nos filmes – pessoas sempre sentem coisas nos filmes, nos bares, nas esquinas, nas músicas, nas histórias. Nas vidas acho que também, só que não se dão conta. Depois percebi que aquela dor que sobe ali do olho esquerdo pela testa diminuía um pouco assim, então fui me virando até apertar o lado esquerdo da cabeça, justamente onde doía, contra a porta fechada. A dor doía menos assim, embora não fosse exatamente uma dor. Mais um peso, um calafrio. Uma memória, uma vergonha, uma culpa, um arrependimento em que não se pode dar jeito.

- Caio F. Abreu in “Os Dragões não Conhecem o paraíso”.

 
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Publicado por em maio 26, 2009 em Caio Fernando Abreu

 

Só de ser

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas, de todas as coisas,
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser

- Fernando Pessoa

 
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Publicado por em maio 25, 2009 em Fernando Pessoa

 

Ensinamentos

Ensinamentos dos quais talvez algum dia viesse precisar saber. Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação. Mas nunca se sabe, quem espera sempre alcança. Ouvira também a informação de que o único animal que não cruza com filho era o cavalo.
- Isso, moço, é indecência, disse ela para o rádio.
Outra vez ouvira: “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade.” Então ela se arrependera. Como não sabia bem de que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que a vingança é coisa infernal.
Então ela não se vingava.
Sim, quem espera sempre alcança. É?

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em maio 24, 2009 em Clarice Lispector

 

Que metáfora usamos?

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By poetriz

Flávia

A internet tem desses encantos de aproximar pessoas, mesmo que elas continuem longe. No mundo off-line, a esquina é metáfora para o acaso dos encontros. E na internet, que metáfora usamos?

Também é fácil se perder das pessoas por aqui (se bem que mais difícil do que nos espaços não virtuais; nesses o isolamento tem a possibilidade de ser total; na internet, sempre tem como nos encontrar).

Parece que coincidio o nosso enjoo pelas ferramentas sociais da internet. Não sei se tens aparecido com frequência, pois eu raramente apareço. Tudo me parece sufocante, como se tivesse uma multidão me esperando na porta de casa. Me apavora pensar nas mesmas perguntas que querem as mesmas respostas, sempre.

Mas há a saudade. E essa pesa bem mais do que alguns desgostos. Pesa porque alivia, e de leveza quero estar cada vez mais pleno.

Escrevo porque tenho saudade de ti.

beijo
rafael

 
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Publicado por em maio 23, 2009 em Blogosfera

 

Lenitivo pra solidão

Sem que disso se desse conta, estava sempre à procura de um lenitivo para a sua solidão, uma oportunidade para extravasar seu amor.

Eiji Yoshikawa in “MUSASHI”

 
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Publicado por em maio 22, 2009 em Eiji Yoshikawa

 
 
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