Não foi por uma briga mas também não chegou a ser de comum acordo. A vida trata de afastar as pessoas. Ela estava de mudança de país, ia estudar fora. Sonho que ela carregava desde muito jovem e desejo concedido pelos pais que lutaram a vida inteira para permitir isso. Ela o amava sim. Porém havia decidido dedicar-se primeiro às coisas que julgava importantes antes do amor. Depois de um bom curso superior, mestrado, doutorado, um bom emprego, estabilidade financeira, iria buscar o amor. O que ela não contava era que a vida tivesse atrapalhado seus planos apresentando o amor antes de tudo.
Ele trabalhava numa cidade pequena. Sempre foi rodeado de amigos e incrivelmente sozinho. Tinha um emprego bom, apesar de não ser ainda o que ele queria pro futuro. Queria um dia trabalhar no que gostava realmente e gostava de artes. Gostava de público, de pintura, de música, de palhaço. E gostava dela também.
Não tinham certeza de como se conheceram. Quando contavam, cada um romantizava exaltando cenas e situações que não coincidiam entre si. Típico dos enamorados.
Amavam-se quinzenalmente conforme podiam viajar porque moravam longe um do outro.
Foi um choque pra ele quando soube da mudança dela no ápice da paixão. Ele, no lugar dela, teria abandonando tudo pra ficar com ela. Mas ela não podia, era o sonho de toda uma vida e não podia adiar mais. Foi difícil decidir, mas não podia ser diferente.
Ele a fez prometer que voltaria, alimentaria a esperança da volta todos os dias de sua vida.
Combinaram dele não ir ao aeroporto. A última lembrança seria de uma tarde agradável que caminharam junto ao mar, onde trocaram juras e promessas de amor. Desde a notícia da partida não haviam se visto. Guardariam apenas os sorrisos, não conheceriam a face rosada e os olhos chorosos do outro.
Ela informou a data da partida, mas também não deu detalhes com medo de que ele aparece num último instante e pussesse tudo a perder.
Na bagagem, ela levava além do trivial, uma foto deles.
Na noite da partida dela, ele chorou. E também chorou muitos outros dias depois.
Ela despediu-se da família e partiu rumo à nova vida.
Sentia um frio na barriga pela decolagem, pela insegurança do futuro.
A viagem seguiu tranqüila por algumas horas até que o avião encontrou uma turbulência. O avião começou a chacoalhar, as luzes piscaram uma vez, duas, três. Em seguida a aeromoça apareceu no inicio do corredor gesticulando. As máscaras de ar caíram na cabeça dos passageiros que foram colocando apressadamente. O ar ia ficando cada vez mais escasso. E o medo de que a aeronave despencasse a qualquer instante era apavorante.
Ele estava num barzinho. Saiu com alguns amigos que tentavam, em vão, anima-lo. Tomaram alguns chopes e comiam petiscos. A conversava era leve, o riso solto, mas o pensamento dele estava distante e ele mal respondia aos assuntos discutidos. Foi quando a garganta dele fechou. Ele foi ficando roxo. As mãos no pescoço não ajudavam, elas tentavam se livrar do enforcamento imaginário. O ar faltando. A visão escurecendo. A cadeira virando. Ele caindo e gritos pelo ar.
Nunca tivera asma ou qualquer outra doença respiratória. A falta de ar o pegou de súbito.
Foram segundos que duraram uma eternidade.
E o avião encontrou um céu limpo e seguiu o curso normalmente.
E o ar voltou aos poucos, assim como a consciência dele.
Ela nunca mais voltou. Durante algum tempo ainda trocaram correspondências e juras de amor, até o dia que chegou o seguinte mensagem: “Não volto mais. Siga com sua vida. Estou seguindo com a minha”. Depois daquelas palavras, ela nunca mais se pronunciou ou respondeu qualquer tentativa dele de comunicação.
Ele até hoje espera que ela volte pra ele. E em dias secos, costuma usar uma bombinha de ar.
Sem Ar
Me diga como eu vou respirar sem ar (sem ar)
Oh…
Se eu morrer antes de acordar
Isso foi porque você me tirou a minha respiração
Estar perdendo você é como estar vivendo em um mundo sem ar
Oh…
Eu estou aqui sozinho
Não quero partir
Meu coração não se move, está incompleto
Quero que haja um jeito para que eu possa fazer você entender
Mas como você espera que eu
Viva sozinha ? Entenda-me
Porque meu mundo gira ao seu redor
É tão difícil para eu respirar
Me diga como eu vou respirar sem ar
Não posso viver, não posso respirar sem ar
É assim como eu me sinto quando você não está aqui
fica sem ar, sem ar
Eu estava em águas profundas,
Me diga, como você vai ser sem mim?
Se você não está aqui, eu não posso respirar
Estou sem ar, sem ar…
Sem ar, ar
Oh…
Sem ar, ar
Sem…
Sem ar, ar
Oh..
Sem ar, ar
Eu caminho, eu fujo
Eu pulo, eu vôo
Logo fico longe do chão, flutuando até você
Não há gravidade para me segurar
Sendo sincero
Mas de alguma maneira eu ainda estou viva por dentro
Você levou minha respiração, mas eu sobrevivi
Eu não sei como
Mas eu nem me importo
Mas como você espera que eu
viva sozinha? Entenda-me
Porque meu mundo gira ao seu redor
É tão difícil para eu respirar
Me diga como eu vou respirar sem ar
Não posso viver, não posso respirar sem ar
É assim como eu me sinto quando você não está aqui,
Estou sem ar, sem ar
Estava em águas profundas
Me diga, como você vai ser sem mim?
Se você não está aqui, eu simplesmente não posso respirar
Estou sem ar, sem ar…
Sem ar, ar
Oh…
Sem ar, ar
Sem…
Sem ar, ar
Oh..
Não mais…
É sem ar, sem ar…
Oh!
Me diga como eu vou respirar sem ar
Não posso viver, não posso respirar sem ar
É assim como eu me sinto quando você não está aqui,
É sem ar, sem ar
Estava em águas profundas,
Me diga, como você vai ser sem mim?
Se você não está aqui, eu simplesmente não posso respirar
É sem ar, sem ar…
Sem ar, ar
Oh…
Sem ar, ar
Sem…
Ser ar, ar
Oh…
Sem ar, ar.
“Gostava de público, de pintura, de música, de palhaço. E gostava dela também.”
…em sua história,
me tornei personagem.
Me faltou ar.
Sobrou inspiração.
Mas, ainda…
Não consigo respirar.
“Ele até hoje espera que ela volte pra ele.”
Perfeito.
poetriz.. nao consigo ficar um dia sem vir ao seu blog. adoro! me identifico muito! parabens. esse texto é especial. bjos
Amiga!
Vc se superou!
beijocasssssssssssssssssssssssss!!!
Faltou o ar em mim também….
Flávia, essa história já não me parece mais ficção, sabia? A vi acontecer tantas vezes…
Beijos!
Flávia,
gostei do conto e dessa perspectiva de que os romances, nem sempre, têm finais felizes. Aqui, nesse mundo onde as preocupações são infinitas: trabalho, família, saúde, etc., muitas vezes fica impossível manter uma paixão, ou conciliá-la à esses obstáculos. Acredito, sim, em finais felizes. Mas sei que o curso das nossas vidas tomam sentidos diferentes, infelizes, por vezes.
Beijo!