Lembro de quando eu trocava emails diários com um amigo. Eu tenho essa mania, de trocar emails como quem conversa no msn – disse um outro amigo. Daí veio a faculdade dele, veio a nova namorada, a antiga namorada, a ex-namorada, o emprego antigo, o emprego novo e milhões de piadas enviadas.
Semana passada chegou um email daqueles, de quando a gente batia papo, contava as coisas ou simplesmente gargalhava enquanto digitava coisas sem sentido. Ele queria saber do templo, pretendia ir lá passear. Dei as informações e por um triz não me ofereci pra ir junto. Só desisti por causa do dente.
Ele aparentemente foi sozinho, como vi nas poucas fotos. Porque claro, não se aparece em muitas fotos quando se está sozinho.
O templo é lindo, já fui uma vez e paguei muitos micos, o que aliás, renderia uma ótimo post.
Isso me fez refletir que há tempos deixei de sair sozinha, coisa que fazia com frequencia. Talvez minha dentista tenha razão: “quando temos trinta, estamos mais perto dos quarenta que dos vinte”. E eu pergunto, quando foi que eu perdi essa vontade, essa independência, essa alegria? Como? Por que? Nem posso dizer que ando interiorizada, porque nem isso estou. Tenho vivido como quem não sabe viver.
Contruí um templo em volta de mim e esqueci de criar portas. Aqui dentro é silêncio. E o barulho que vem de fora não me assusta, apenas alimenta minha curiosidade. Mas não sei como sair daqui.
Arquivo do mês: agosto 2009
O Templo
Herança
Do meu pai, eu acho, herdei o gosto pela palavra, o prazer em criar mundos pela escrita e pela fala. O mundo do meu pai se abre para fora, para uma comunhão fácil.
Da minha mãe recebi as chaves que abrem as portas que levam ao mundo da música clássica. O mundo de minha mãe se abre para dentro, onde se encontram a alegria e uma comunhão difícil que beira à solidão.Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Que bom que eles se casaram”
Viração
Voa um par de andorinhas, Fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro… Vontade… pata que esse pudor de certas palavras? Vontade de amar, simplesmente.
Mário Quintana in “Sapato florido”
Eu não sou nada disso
eu não Sou nada disso
Que você está pensando
por isso venha com calma
que eu conheço este tipo
quem quer acertar na mosca
acaba errando de sopa- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”
O tempo se mede em batidas
O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”.
O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo?
Que posso viver num centésimo de segundo? Diz Ricardo Reis, no seu poema “Mestre, são plácidas” (que todo dia rezo): “Não há tristezas nem alegrias na nossa vida”. Estranho que ele diga isso. Mas diz certo: o tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.
Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça.
Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós – para o qual não temos correspondente: nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios: a ciência. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração.
Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Um caso de amor com a vida”
Sou poeta
Inteligência de poeta. Sou um poeta. Agora: sou um desajeitado para viver.
(…)
É inteligência de defesa. Defesa de menino, sou um menino que não aprendeu a viver e que se defende.Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”
Bailarina
♪ Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem. ♪
- Chico Buarque

Lonely ballerina by Poetriz featuring 1928 jewelry
O dente
A minha dentista já tinha sugerido que fosse retirado os dentes do ciso. Eu que fiquei postergando e resolvi, só agora, retirar um. Parecia fácil e minha dentista achou que no máximo 30 minutos seriam suficientes para extraí-lo, no entanto, fiquei mais de duas horas na cadeira da dentista de boca aberta.
Foi preciso 4 anestesias e eu estava a ponto de suplicar pela quinta!
E agora, o dente que nem atrapalhava tanto, talvez porque eu já estava acostumada com ele ali, dói. A ausência dele dói. Como um membro amputado, sinto falta dele e minha língua sempre o procura.
Parece que agora tenho dois corações. Um que bombeia sangue do centro do meu peito e outro que pulsa no vazio que ficou em minha boca.
Chego a pensar que o vazio às vezes lateja mais que uma presença indiferente.
Fecho os olhos e tento pensar que a dor vai passar logo, que o remédio fará efeito, que o antibiótico vai me salvar.
E desacredito em seguida, achando que essa ausência vai me enlouquecer, que passarei o resto dos meus dias tomando sopa.
Dói sorrir e meu rosto está inchado. Nem o sorvete que me sugeriram me anima.
Mas me consolo mentalizando “vai passar, vai passar” e porque acredito, vai passar.
Talvez leve mais alguns dias e daqui algumas semanas eu nem lembre mais que havia um dente me incomodando, uma ausência me incomodando.
.
A narrativa pode ter sido dramática.
Mas é que enquanto pensava na dor, pensei que não só dentes ausentes doem.
Outras ausências também.
Mas ainda prefiro a ausência que a presença indiferente, nesses casos.
E também essas dores, com o tempo, passam.
Conto de Fadas
Obrigada Léia pelo selinho! ^^
O selinho está na página do “Borboletas a caminho“, não consegui pegar o selo, infelizmente.
Maaaaasss… resolvi colocar essa imagem das princesas disney que adoro.
Porque conto de fadas não existem, mas nem por isso a gente deve perder o bom humor na vida.

Acho que não sou daqui
acho que não sou daqui
paro em sinal vermelho
observo os prazos de validade
bato na porta antes de entrar
sei ler, escrever
digo obrigado, com licença
telefono se digo que vou ligar
renovo o passaporte
não engano no troco
até aí tudo bem
mas não sou daqui
também
porque não gosto de samba
de carnaval, de chimarrão
prefiro tênis ao futebol
não sou querida, me atrevo
a cometer duas vezes o mesmo erro
não sou de turma
a cerveja me enjoa
prefiro o inverno
e não me entrego
sem recibo- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”



