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Arquivo do mês: setembro 2009

Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam,
Agora todos os caminhos vem.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mário Quintana in “Sapato florido”

 
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Publicado por em setembro 30, 2009 em Mario Quintana

 

Casinha

As casas estão ligadas ao amor. “Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado que – coitado! – de saudade já morreu”. O amor por uma pessoa começa do mesmo jeito como começa o amor por uma casa.
Vem primeiro o visível: a gente vê a casa, a gente vê um rosto, um corpo. E aquele sentimento de querer morar naquela casa, de querer morar naquele corpo … O que se imagina não pode se comparar ao que se vê. O que se vê é apenas um ponto em torno do qual a imaginação pinta a cena de felicidade. Sim, quero morar na casa, essa casa que vejo, de paredes brancas e janelas azuis porque estou amando tudo aquilo que acontecerá nela. Amo a casa de paredes brancas e janelas azuis pelos sonhos que a envolvem.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Por que a rosa não mais floresce?”

 
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Publicado por em setembro 29, 2009 em Rubem Alves

 

Adeus

“Acendeu mais um Marlboro com o isqueiro dela. Ele só sabia que era dela porque era o único que tinha na casa. Ela não fumava, havia ganhado do pai, de uma viagem que fez a Cuba. Devolveu o isqueiro pra escrivaninha e passou o indicador na tampa do perfume. Sentiu uma ponta de saudade. Algo como se lembrasse de uma série de TV que não via há muito tempo. Bewitched, talvez. Mais um trago no cigarro e a saliva seca cola sua boca no filtro vermelho. Percebeu então que ela não era Elizabeth Montgomery.
Abriu a gaveta pela quarta vez. Como pôde nunca ter visto aquilo? Claro! Foi fácil de esconder. Era só mostrar, publicar num jornal, fazer outdoors. Ele nunca notaria. Ele a ignorava enquanto ela chorava e gritava de sofrer e paixão no banheiro. Em dois anos, oito ou nove cartas escritas à mão, marcadas de lágrimas e exalando dor. Ela tinha ido embora e isso se converteu em certeza quando ele abriu aquela gaveta. Ele não se importava. Aquele quarto não era dele, ele não entrava ali, nem no tempo dos sorrisos, muito menos no pouco tempo que passava em casa.
Bateu a cinza do cigarro em cima das cartas. Seu jeito de desprezar as coisas que deseja ficou bem mais intenso depois dos dois dias de casa vazia. Mais um trago e lembrou como a sua arrogância e a aspereza das suas palavras vociferaram contra ele hoje de manhã, falando com o policial. Se ela estivesse lá…
Pegou a carta que esta no topo da pilha. Leu, com um nariz de quem não precisava ler, mas leu. Depois leu a outra e a outra. Em poucos minutos as cartas e envelopes estavam todos espalhados pelo tapete entre copos vazios, cinzas e filtros de cigarros. Não se fumava naquele ambiente. Mas ela não morava mais lá.
O que ele sentiu dessa vez não era saudade da TV de madeira em preto-e-branco dos seus pais. O que ele sentiu foi a falta do único vazio que o poderia abarcar. Foi o frio da fenda abissal onde mora, no fundo de si, sua solidão. Sempre cingido de amigos e de pessoas que sorriem calor pra ele, dessa vez gemeu de frio. Deixou-se cair na cadeira de balanço e abraçou os joelhos como se fossem fugir. Deu o ultimo trago do tubo de câncer e o apagou no copo de vodka. Pensou em quantas vezes tinha – desnecessariamente – dito a ela que balançar naquela cadeira com as agulhas de tricô na mão deixava a cara dela cheia de rugas. Piedade?
Um samba lhe veio à cabeça. Cartola dizia no fundo do seu consciente que se ainda pudesse fingir que te ama – “ah, se eu pudesse – mas não quero, não devo fazê-lo. Isso não acontece”. Não ficou convencido, porém tocado e, talvez por isso, sentiu-se inspirado – há muito não escrevia. Pelas palavras dela, rasgou o ar mórbido que quase se condensava no quarto empoeirado e sentou à escrivaninha. A caneta tinteiro o esperava ansiosa e suspirou quando ele a tocou. Pensou que ela morava nas coisas dela também. Nas costas do envelope escreveu a letra A.
Acendeu o último cigarro da carteira e pensou no que estava fazendo. Não havia sentido em escrever nada pra ela. Ela se tinha ido e nada ia trazê-la de volta. Nem ele queria assim, era melhor partir. Encostou a caneta no papel manchado e desceu a tinta numa linha reta. vertical Antes de iniciar o semicírculo que descreveria a letra D, freou. “Precisava de freios.” Tinha mencionado algo parecido com isso há pouco tempo. Uma desculpa esfarrapada pra ela calar a boca, não perguntar mais. Sentiu uma pontada no peito. Remorso? De que freio precisava agora? Já estava parado, inerte. Precisava mesmo era de uma ladeira, um abismo. A ponta de ferro da tinteiro estática pressionando o papel não sentia nada assim como os dedos que a seguravam, a mão que a empurrava contra as folhas e o maestro desse ato. Tamanha era a força do “freio” que a caneta atravessou a frente e as costas do envelope além da carta dobrada em quatro partes. Coçou a cabeça, arrastou as mãos pelo rosto, impaciente. Tinha rasgado a maldita carta. Quando ela voltasse ia ficar puta de ódio. Voltar… de onde? Já estava devaneando. Precisava se livrar disso, dela. Desenhou curva da letra D ainda rasgando mais um pedacinho de papel.
Procurou mais um cigarro e só achou a garrafa de vodka com o último gole. Fez uma careta básica enquanto o líquido descia cravando as unhas garganta abaixo. Abriu os olhos e viu as arestas do quarto se formarem a partir de um grande borrão verde escuro. Aquelas cortinas. Ele havia dito pra ela que não caía bem, cortinas escuras é coisa de velório. E está na hora de matar pra morrer e vice-versa. Desenhou um E minúsculo, cursivo, lento e tremido. Achou que parecia letra de segunda série e, por isso, refez duas vezes, por cima mesmo e em caixa-alta.
Molhou a caneta no nanquim e voltou ao papel sem raspar o excesso. Uma gota saliente caiu na carta fazendo uma pinta como a que ela tinha no queixo. Não é mais saudade. Nem sanidade. Precisava terminar com isso rápido. O que fazer? Faltam duas letras e ele buscando sentidos. Desistiu. U de única e última vez. Nunca tinha escrito nada pra ela. Era poeta nos tempos de escola. Dizia que o dom tinha lhe abando nado. A verdade é que ele nunca se apaixonou por ela. Gostava dela, da companhia, do carinho, do sexo. Mas não era tão especial como foi seu primeiro encontro com Florbela Espanca.

QUE IMPORTA?…

Eu era a desdenhosa, a indif’rente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilusão
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!

Nela refresca a boca um só instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…

Florbela Espanca – Livro de Sóror Saudade (1923)

E era ele o viandante que bebe em todas as fontes. E era ela, Florbela, a fonte que pedia para que, nela, refrescasse a boca um só instante. Na sua quixotesca asa loira da ilusão, era o cavaleiro de armadura prateada que iria salvar sua amada poeta das garras do suicídio.
S. S de suicídio. S de Selena. “Significa ‘a lua’” disse na primeira vez que se viram. Faz tempo e o tempo cura. Geralmente por que, nessa história, ele só conseguiu destruir. Insinuou as curvas de um S carregado de sentimento. S de Sóror Saudade, em homenagem ao primeiro amor. Como um último beijo desses que se demora pra se desvencilhar.
“Adeus.” Sua resposta às centenas de palavras da tão bem articulada Selena tinha apenas cinco letras. E era mais que o suficiente.
Juntou todas as cartas com um clip e acendeu o isqueiro dela embaixo delas. Sim, ateou fogo. Levou a labareda até a janela e fitou a chama. Tudo o que ela sentia e não conseguiu transfigurar em palavras, apesar de ter tentado em extensas explicações e perguntas estava ali queimando na mão dele. Todas as aflições, declarações de amor e ódio, diários de dias felizes e poemas dos dias tristes estavam ali virando cinza e fumaça. Ventava. A intenção era poder espalhar pela cidade as cinzas e pelo céu a fumaça do adeus que ela não disse. Segurou e namorou o incêndio até não conseguir mais, até quase queimar a mão. Por pouco não beijou o fogo quando este assumiu a forma do rosto dela. Riu da vontade de ter sua boca, de ter sua pele, de tê-la e vê-la dançar no fogo que queimava suas próprias e tão sentidas lágrimas.
Adivinhou que era mesmo isso que ela queria. Se não queria, precisava. Que ele olhasse pro céu e partisse. Que visse a Terra de cima, que deixasse de habitá-la. Que a permitisse, pra que ela pudesse, enfim, conseguir dizer “adeus”.

- Hugo Carvalho (por email, pra mim)
Inspirado nesse texto aqui.

 
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Publicado por em setembro 28, 2009 em Blogosfera

 

São Paulo

Eu gosto de São Paulo. Amo essa cidade barulhenta, super lotada, sempre em movimento e multi cultural. Dê um passeio de metrô e você vai me entender. É tudo rápido: a chegada de cada estação, a troca dos passageiros. Chega a embaralhar a visão, tantas cores, tantas raças, tantas línguas. Sim, porque em São Paulo é comum encontrar estrangeiros falando em sua língua nativa.
Muitas vezes “africanos” descem na mesma estação próxima à minha casa. Normalmente fico concentrada no livro que estou lendo, mas a língua estrangeira salta aos ouvidos e tira a atenção. Daí queria falar todas as línguas do mundo pra saber do que falam. Falam da vida? Falam do caos da cidade? Falam de esporte? Falam de amor? Ou falam simplesmente do dia cansativo de trabalho, do que irão jantar e do capítulo diário da novela?

Quando vejo esses rapazes, sempre penso em “Paul Tergat” aquele famoso corredor da São Silvestre. O “africano” tão brasileiro. Antes eu achava que só brasileiros corriam a São Silvestre, achava que era o jeito que São Paulo achou de comemorar o final do ano além da festa na Paulista. Mas São Paulo é o mundo! E não iria permitir comemorar o fim do ano só com alguns dos filhos seus.

A Liberdade é um portal pra outro continente. Mesmo na estação no metrô, corremos o risco de ouvir dialetos em japonês. E não é raro ver jornais, livros, mangas, tudo escritinho em kanjis, lidos por essas pessoas do outro lado do mundo. A comida de lá é boa demais! E tem tantas coisas brilhantes, tanta gente sorridente. Aliás, que povo alegre e sorridente são esses orientais!

E hoje, pela primeira vez notei, turistas alemães no metrô. “Das herben”. Não faço idéia do que significa, mas soa alemão, não? Usam camisetas verde ou preta, jeans e chapéu de palha! Estilo country, mas de palha! E brincos e muitos badulaques. Gatérrimos! Com “erre” carregado pra parecer alemão! Sorridentes também, apesar do caos que estava hoje. Riam, conversavam tirando sarro da situação (do caos). Podem dizer que é porque são turistas, porque não vivem isso todo dia, porque estavam viajando (indo pra praia) e por isso estavam assim, despreocupados.

Mas tenho pra mim que não era apenas isso. É essa magia que tem essa cidade, essa alegria em meio ao caos. É São Paulo, e não encontro palavras pra defini-la. É preciso viver aqui pra entender.

 
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Publicado por em setembro 27, 2009 em Poetriz

 

Aquele olhar

Não sei a data certa porque não sou uma pessoa de guardar datas. A explicação disso é simples: o tempo que passamos com alguém não se mede em frações de segundos mas mede-se em frações de eternidade. Na ocasião, devo ter vivido uma eternidade e meia na companhia dele. A lembrança dele não me é constante, juro, mas alguns cheiros, algumas conversas sempre me remetem aquele tempo.
Ele não foi meu primeiro amor, nem classifico ele nessa categoria. Mas de amores, foi com ele que vivi por completo até o inacabado.
Eu não via beleza nele, antes disso, eu via a idade. Jovem, extremamente jovem comparado a mim. Eternos dois anos de diferença. E hão de concordar, quando se tem 12 e 14 anos, a diferença de idade é gigantescamente maior do que quando se tem 20 e 22. A estatura acompanhou os anos sempre crescentes, sempre crescendo. A criança tornou-se homem, assim a olhos vistos, a dias corridos a passos de eternidade. Mas meus olhos também mudaram com o tempo, mas tanta coisa mudou junto e não era mais possível voltar atrás.

Lembro do calor dos corpos juntos, inocentemente num abraço, caminhando lado a lado em muitas madrugadas quentes. Não sei se eram quentes de fato, mas por onde seguíamos tornavam-se sempre verões. Perdi as contas de quantas vezes, quantos passeios, de quantas desculpas pra caminhar juntos. Talvez algo entre uma eternidade ou metade. Todos tinham certeza, todos sabiam dos interesses mútuos, mas o único beijo demorou muito a vir.

Levou algumas danças, uma viagem no mesmo banco, uma confissão dele pra uma amiga, um porre pra enganar a mente que gritava: “olha a idade, olha a idade”. Teve um beijo tímido, molhado, descoberto porque foi público. Seguimos pra minha casa, ele guiando a bicicleta numa das mãos e a outra mão na minha. Patético, infantil, verdadeiro como nenhum outro haveria de ser. E o dia seguinte? E todos os dias que seguiriam depois daquele? E a eternidade? Como seriam? Não foram.

Todo mundo sabia, todo mundo tinha certeza, só eu que sufoquei a verdade. Era tanto amor, era tão bom e eu sufoquei. Falta de ar, o banheiro girando, banho, vômito. E o dia seguinte? Dor de cabeça, culpa, consciência. E a eternidade? Passando…

E aqueles olhos? Cheguei a falar daqueles olhos? Meu deus, aqueles olhos! Era negros como jaboticabas maduras, os cílios tão negros e volumosos que davam a impressão de estarem pintados e me olhavam como ninguém nunca me olhou. Normalmente a gente se vê refletida no olhar do outro, mas não era eu ali. Ou provavelmente somente ali, naqueles olhos, eu fui refletida de verdade.

Eu não sabia o que fazer com aquele olhar, com aquele amor entregue assim sem exigências, sem cobranças, sem prazos. Eu nunca soube o que fazer quando me vinham coisas boas, nunca me permiti aproveitar da felicidade. Então sufoquei. Mas todo mundo sabia que isso era errado, que não era pra ser assim, sufocado.

Ainda nos encontramos dezenas de vezes. O mesmo perfume, a blusa dele tão quente quantos os abraços, mas as noites era mais frias. Não houveram mais passeios. A diferença de idade foi diminuindo encontro a encontro, até que ele se tornou muito mais adulto que eu. Mais alto também. Mais belo. E o olhos, meu deus, aqueles olhos eram os únicos a continuar iguais. A me vigiar, denunciados por um sorriso tímido. Procuravam-me e disfarçavam. E se nossos olhos se encontravam, eu começava a ouvir um zumbido, um batuque tão grande no peito que ia chegando na garganta que por sua vez ia fechando, o ar tornando escasso, e o olhar entrando pelos meus olhos, invadindo a alma, aquecendo a face e eu era obrigada a desviar o olhar ou não sobreviveria.

Todo mundo sabia, insistia, mas não tinha como voltar no tempo, voltar atrás na eternidade. Foi quase meia eternidade ou uma inteira que passamos assim, mudos, calados, sufocados. Pra todo sempre, eternamente, amém.

Até que nunca mais nos vimos ou sequer tive notícias. Deve ter se casado, mudado, criado barriga e ficado careca. Deve ter engordado, envelhecido muitos anos e seguido a sina do pai, tornando-se dono e freguês de um botequim. Talvez até barbudo! Começo a esboçar um sorriso, lembrando daqueles 12 anos quando os pêlos teimavam em não aparecer na cara e cada um que surgia era comemorado.
Se passar por mim na rua talvez eu nem o reconheça tanto tempo que passou.A verdade é que eu prefiro não encontra-lo. Tenho medo de reencontrar aqueles olhos e não encontrar mais o mesmo olhar.

 
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Publicado por em setembro 26, 2009 em Poetriz

 

Remar

“Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim.”

- Caio F. Abreu
in “Cartas”

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma.
Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também!
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade!
Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também.
Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças!
Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

Poetriz

 
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Publicado por em setembro 25, 2009 em Caio Fernando Abreu, Poetriz

 

Dor da paixão

Começo minha inútil meditação com um verso terrível de T.S. Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder para lidar com a loucura da paixão. Ele reza assim: “… e livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita”.
Todo mundo sabe que paixão não satisfeita dói.
Mas poucos sabem que a paixão só existe se não for satisfeita. A paixão é um desejo de posse que, para existir, não pode se realizar. Como a fome: depois do almoço a fome acaba.
Paixão é fome. Ela só floresce na ausência do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do objeto amado. Não se trata de ausência física, o objeto amado distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de saudade. Saudade tem cura. A saudade é curada quando o objeto volta. A dor da paixão é diferente. Não tem cura. A saudade do objeto amado, mesmo quando ele está presente, é o perfume característico da paixão.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

 
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Publicado por em setembro 24, 2009 em Rubem Alves

 

Desses momentos

Ninguém entenderia jamais o que ele sentia naquele momento — bastava parar, sentar num banco da praia, meditar com calma, e faria dele um desses momentos capazes de decidir todo um destino. Um desses momentos — todo um destino.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

 
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Publicado por em setembro 23, 2009 em Fernando Sabino

 

Quien supiera escribir!

O menino de joelhos sujos que chega em casa correndo e mal pode falar…
A velha dama que é agora obrigada a fazer renda para vender.., de casa em casa, a coitada!… e que senta na ponta da cadeira, suspira discretamente e murmura: “A minha vida é um romance….
Aquela moça que diz: Não quero ouvir isto!” e tapa os olhos…
Ah, quanta coisa deliciosamente quotidiana, quanto efêmero instante, eu não gravaria para sempre na memória dos homens, se…

Mário Quintana in “Sapato florido”

 
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Publicado por em setembro 22, 2009 em Mario Quintana

 

Vivo a beira

Sei que são primárias as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre as faltas, mas amor demais prejudica os trabalhos. Este não é um livro porque não é assim que se escreve. O que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: vivo à beira.

Clarice Lispector in “Agua Viva”

 
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Publicado por em setembro 21, 2009 em Clarice Lispector

 
 
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