E o poema, o poema ainda estava lá, manchado de café. A única mancha do apartamento, parecia proposital. Tive um impulso de guardá-lo imediatamente, junto com todas as outras lembranças de Pedro, que recolhera e escondera de mim mesmo.
- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”
Arquivo do mês: outubro 2009
Lembranças
Olhar
Estão os dois, à mesa do restaurante. Olham-se.
Seus olhos não são os olhos ingênuos que contemplam as cenas de felicidade das telas de Larsson. A cena, refletida nos olhos do outro, não é uma cena de felicidade. Seus olhos procuram a felicidade que se perdeu. Mas como se perdeu? O rosto não é o mesmo, aquele mesmo rosto que, jurei para mim mesmo, haveria de amar para sempre? Olham um para o outro (tantas vezes fizeram isso!) – e fica não dita a pergunta que nenhum tem coragem de fazer: “Que é que fez com que a rosa que florescia deixasse de florescer? Que é que fez com que a rosa que s6 florescia rosas, agora floresça espinhos?”
O jantar termina. E cada um vai para a sua solidão. Lá, longe do outro, é finalmente possível amá-Ia. Na distância o outro não perturba a sua bela imagem. Ela está no retrato, como sempre esteve, imperturbada, sempre a mesma, congelada eternamente. E cada um sorri.Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– A Rosa não mais Floresce”
Eterna criança
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha de estar sempre sério (…)
Fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas
orelhas. (…)
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente.
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é.- Alberto Caeiro
Acaso
Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.
Clarice Lispector in “A hora da estrela”
Anonimamente
Mas tenho em mim uma coisa que você se esqueceu de dizer: a capacidade de amar anonimamente, sem pedir nada em troca, sem reconhecimento, sem perdão.
Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”
Nostalgia
você não acredita como eu me importei com você
como eu reparava nos teus cacoetes, ouvia tua voz
e pelo tom eu percebia como andava o teu humor,
como eu sabia bem dos teus horários, teus macetes
eu poderia ter escrito teu diário, tanto eu te conhecia
dava para sentir de longe o teu cheiro,
entender tuas manias
eu já estava louca de tanta nostalgia de você,
um rapaz que eu nunca vi, nunca falei,
nunca toquei,
nunca soube se existia- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”
Surreal
A gratuidade da ficção está repleta de alusões realistas que tornam mais saborosa a sua dimensão surrealista.
- Armindo Trevisan in “Sapato Florido – Introdução”
O guardião dos livros
Aí estão os jardins, os templos e a justificativa dos templos,
A exata música e as exatas palavras,
Os sessenta e quatro hexagramas,
Os ritos que são a única sabedoria
Que outorga o Firmamento aos homens,
O decoro daquele imperador
Cuja serenidade foi refletida pelo mundo, seu espelho,
De sorte que os campos davam seus frutos
E as torrentes respeitavam suas margens,
O unicórnio ferido que regressa para marcar o fim,
As secretas leis eternas,
O concerto do orbe;
Essas coisas ou sua memória estão nos livros
Que custodio na torre.Os tártaros vieram do Norte
Em crinados potros pequenos;
Aniquilaram os exércitos
Que o Filho do Céu mandou para castigar sua impiedade,
Ergueram pirâmides de fogo e cortaram gargantas,
Mataram o perverso e o justo,
Mataram o escravo acorrentado que vigiava a porta,
Usaram e esqueceram as mulheres
E seguiram para o Sul,
Inocentes como animais carnívoros,
Cruéis como facas.
Na aurora dúbia,
O pai de meu pai salvou os livros.
Aqui estão na torre onde jazo,
Recordando os dias que foram de outros,
Os alheios e antigos.Em meus olhos não há dias. As prateleiras
Estão muito altas e não as alcançam meus anos.
Léguas de pó e sonho cercam a torre.
Por que me enganar?
A verdade é que nunca soube ler,
Mas me consolo pensando
Que o imaginado e o passado já são o mesmo
Para um homem que foi
E que contempla o que foi a cidade
E agora volta a ser o deserto.
O que me impede sonhar que alguma vez
Decifrei a sabedoria
E desenhei com aplicada mão os símbolos?
Meu nome é Hsiang. Sou quem custodia os livros,
Que talvez sejam os últimos,
Porque nada sabemos do Império
E do Filho do Céu.
Aí estão nas altas estantes,
Ao mesmo tempo próximos e distantes,
Secretos e visíveis como os astros.
Aí estão os jardins, os templos.- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”
Charlotte
Estava sentada no centro daquela sala escura. Ouvia o gotejar insistente de algum cano. A umidade e o cheiro também revelavam que ela estava num andar inferior de algum lugar. Mantinha a cabeça baixa, o longo cabelo despenteado caído pelo rosto, grudado no sangue que escorria de seus lábios. Ela sorria apesar de tudo. As cordas que atavam suas mãos às suas costas, feriam seus pulsos.
Dizem que quando estamos para morrer, a nossa vida passa como um filme em nossa mente. Talvez isso explicasse porque as lembranças vinham aleatóriamente em sua cabeça.
Não sabia explicar como e nem por que chegou até aqui, mas não se arrependia de nada, pelo contrário, aproveitou cada momento de sua vida.
O pai, russo, abandonou a família quando ela ainda era bebê. A mãe, italiana, casou-se novamente alguns anos depois com um americano e logo mudaram para Nova Iorque.
Foi nesse país que ela cresceu e onde conheceu Smith.
Ele que a introduziu no mundo da máfia. Seu primeiro assalto a banco, seu primeiro tiro, sua primeira fuga alucinada, tudo estava relacionado a Smith.
Smith não era boa companhia dizia a mãe e o padrasto. Mas ele atirava tão bem, dirigia tão bem e namorava tão bem que ela não ouviu os conselhos e se apaixonou. Só não sabia que ele também traía tão bem.
Depois veio Raol, um cubano caliente que dançava salsa e merengue. Raol também não foi aprovado pela família, mas aí já era tarde demais. Ela fugiu com ele pra Cuba assim que teve uma oportunidade. Ele atirava melhor, dirigia melhor e namorava melhor que Smith. E também traia melhor.
Um dia ela arrumou as malas e foi pra Rússia, a trabalho. E foi nesse país que Dimitri apareceu em sua vida. Dimitri era exímio atirador, exímio motorista e o melhor amante que teve em sua vida. Nunca descobriu traições dele, não até aquele momento…
Erro de revisão
aquele poema em que saiu seu nome
não liga não é você
não vou te comprometer com a minha ilusão
foi erro de revisão- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”



