Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!
Mário Quintana in “Sapato florido”
Arquivo do mês: novembro 2009
Trágico acidente de leitura
O amor não vem
o amor
a gente espera
ele não vem
a gente busca
vem contrariado
deixa solto
vira refém
deixa preso
é amor obrigado
a gente libera
não vai além
a gente aprisiona
fica cansado
se deixa rolar
não pinta ninguém
o amor
a gente pensa que tem- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”
Luva
- “Ó Fortuna, sede-nos auspiciosa!”. Por que as pessoas não falam mais assim? Ficamos muito preguiçosos. Não dizemos: “Ó Fortuna, sede-nos auspiciosa!”. Dizemos: “Deus, me ajude”.
- Em vez de “Goza o orvalho doce e grave do sono”, “vou tirar uma soneca”.
- Não é o mesmo. Soa tão bonito e é tão bom de dizer. É rico e cheio de significado.
- “Vê como ela repousa o rosto na mão? Queria ser a luva dessa mão para tocar esse rosto“. Entende?
- … entendo.
diálogo entre as personagens Carmem e Ian
que ensaiavam uma peça de Shakeaspeare
no filme “Quatro amigas e um jeans viajante 2″
Medo de anestesia
Há também as dores da alma que nenhuma cirurgia consegue curar. O medo, por exemplo, não pode ser amputado. Pena. Porque o medo paralisa a vida. Dominada pelo medo, a vida se encolhe, perde a capacidade de lutar, entrega-se à morte. Animais amedrontados se deixam matar sem um único gesto de defesa. E, pelo que sei, as pessoas têm muito medo da anestesia, medo que chega a beirar o pânico, mais medo da anestesia que da violência do ato cirúrgico. É que elas têm medo de dormir. Quem dorme está indefeso, à mercê. Quem está dormindo volta a ser criança. As crianças têm medo de dormir. Por isso elas choram, não querem dormir sozinhas, desejam alguém ao seu lado. Alguém que cuide delas enquanto elas dormem. As canções de ninar são para tirar o medo a fim de que o sono seja tranqüilo.
Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– O Anestesista”
Fragilizado
Vontade de dormir, de desistir, fugir, sair correndo, esquecer aquele suplício. Medo. Os outros também se sentiriam assim, fragilizados pela emoção, sucumbidos pela espera?
Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”
Primeiro amor
Estava lendo, dia desses, as lembranças num blog, do primeiro amor de alguém. E fui tentar recordar do meu e que supresa a minha quando não encontrei quem foi! Bom, elegi um, mas vou relatar as histórias tim-tim por tim-tim, em doses homeopáticas para que entendam.
Tudo começou no “prézinho”, como era conhecido o pré-escolar. Haviam dois casais sei lá por quais circunstâncias. Talvez porque ficavam ao lado na fila, porque sentavam-se ao lado na fileira de carteiras na sala de aula ou talvez existisse mesmo o namorinho, não me recordo. Só sei que os dois casais rederam muitos risinhos entre as meninas, muitos choros, muitas fugas desesperadas dos meninos e muitas chamadas da “tia” na sala de aula. Foi nessa época que eu decidi que tinha que gostar de alguém também. Elegi o menino mais inteligente da sala, já demonstrando meu lado nerd desde cedo. Claro que não contei pra ninguém, até mesmo porque ele além de ser um dos meninos dos famosos casais era freqüentador assíduo da minha casa, já que a mãe dele era amiga da minha mãe.
Depois desisti da idéia quando meu vizinho surgiu e me arrancou do mundo das menininhas fofinhas que brincavam de bonequinhas e filhinhas e escolinhas. Foi a época da bicicleta, das guerrinhas, dos tombos, da cicatriz na testa.
Aliás, minha “história” se assim podemos chamar, sempre foi cheia de “amigos” e não de namorados. Sim, eu era sempre a amiga confidente do menino e não da menina. Da menina, no máximo, havia a aproximação quando era do interesse dela que eu intermediasse alguma paquera. Foi assim com inúmeros e nem sei contar quantos.
Na escola, lembro que elegi alguém pra gostar novamente. Só porque todo mundo gostava de alguém ou ficava com alguém da escola. Nunca houve nem amizade entre nós, tanto que poucos anos depois, quando estudamos na mesma escola técnica (segundo grau) e íamos juntos, nunca havia assunto e era torturante ir em silêncio quase todos os dias. Esse aqui acho que cheguei a comentar com alguém, pra minha tortura, claro. E óbviamente chegou aos ouvidos dele, o que acho que justifica o silêncio que se instalou entre nós durante aqueles anos do segundo grau.
Talvez essas histórias nem merecessem ser listadas, afinal nunca se realizaram, nem cheguei a gostar de fato de algum deles, mas merecem seu lugar de destaque.
Colcha Amarela
Cada vez mais encolhida sobre a colcha amarela, foi ficando quieta, e eu também, porque era tão difícil, eu sabia, voltar para ser aqui e começar finalmente a crescer ou morrer, tanto faz, dá no mesmo.
- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”
O pássaro e a flor
Que sabe tal pássaro do destino
Senão morrer caindo do ninho?
Que sabe a flor da vida
Se é da morte que arrebenta a lápide?
Espreita, desenrola
E despenca para o abismo da morte
E espreguiça rumo ao céu infinito
Cae, plaina, voa
No giro da descoberta
Estica, contorce, entorta
Na dança de viver
E o susto!
Porque não se está sozinho no mundo
O mundo! Existe mundo!
Vasto mundo!
Ela, ele, mundo!
Tão lindo, tão linda!
Palpitação, afasta!
A morte espreita, logo quem mal chegou a viver!
Mal aprendeu a ser sozinho
Já se viu tentado, seduzido, encantado
Queria ficar lado a lado
Queria ensinar a viver!
Mas não sabes passarinho,
que teu destino é ao lado de tua espécie?
Mas não sabes minha flor,
que meu nome passarinho
de certidão e de destino
é beija-flor!
You and me
Ando viciada no programa “You think you can dance”. Tem várias danças que adorei, mas a dança abaixo, com o giro inverso da Anya suportado pelo Danny ficou absolutamente lindo. E a música? Assistindo dá até vontade de sair dançando “valsa vienense”.
Cartas extraviadas
Querido G.,
Há tempos venho pensando em escrever-te mas vou deixando pra lá mas dessa vez resolvi colocar no papel. Muito deve-se a nossa conversa de ontem. Há tempos não conversávamos, não? Mas também já reparou que só conversamos quando estamos com problemas do coração?
É essa tua mania de se apaixonar por gente complicada. Poxa, a “sortuda” da vez tinha que ser casada? Já te preveni que essa história não será longa e corre o sério risco de sair muito machucado no final. Mas se crê que dá pra se curtir sem se envolver, se crê que isso é solução para a solidão, então prepara-se pras consequências que hão de vir.
As vezes me pergunto por que nunca nos apaixonamos. Mas a resposta é tão óbvia! É porque somos solteiros, sem filhos, sem vícios (dos sérios), com idade aproximada, moramos na mesma cidade, gostamos de Carpinejar, com emprego e um grau de instrução elevado. Simples, né? Se houvesse complicações e muitos impecilhos aí sim, iríamos nos querer mais do que bem, iríamos nos apaixonar. Porque o ser humano tende a preferir o difícil, a querer o improvável.
Desejo-te boa sorte e que o prazer que tua nova paixão te traz seja maior que o sofrimento que um dia virá. Não sou pessimista, não te desejo o pior, não me entenda mal! Mas há de convir que uma mulher casada tem antes de tudo responsabilidades com a família dela.
Te desejo bem.
Só bem.



