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Arquivo do mês: janeiro 2010

Verdades

Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.

Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.

Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.

Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.

Agora — vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade.

- Rabindranath Tagore

 
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Publicado por em janeiro 31, 2010 em Verso & Prosa

 

Trilhos

Toda tarde, na volta da escola, parava naquele mesmo lugar e sentava-se sozinha. Ali, desconheciam, mas a menina sonhava. Expectadora da vida. O lugar, tão incomum para menininhas, era na beira de uma linha de trem onde uma estrada cruzava e havia aquele semáforo diferente, com cancela, que descia toda vez que o trem estava por chegar. Ali, ela aguardava ansiosa o trem das 16hs, sempre infalível, sempre pontual. Tão lindo o trem, todo colorido, reformado especialmente para atender os turistas que faziam diariamente aquele passeio por caminhos que ela desconhecia. Mas sabia que eram lindos.
Um dia, arriscou a colocar o pé perto do trilho, muito perto até tocar o ferro luminoso. E logo encolheu a perna sorrindo. Claro que fez isso exatos 10 minutos antes do sinal avisar que o seu trem ia passar. Ouvira muitas histórias de garotinhas que perderam pernas, braços, cabeças e vidas naquelas vias. Dizem que o trem corta e já sela na hora, nem sangra. Mas não queria presenciar nada disso. Pra ela, o trem passando era um momento mágico, onde ele seguia por paisagens estonteantes rumo a um lugar mais magnífico ainda.
Um dia disseram que além da linha havia lugares muito bonitos também, bastava apenas cruzar os trilhos. Mas ela não era dessas. Aprendeu desde cedo a respeitar os sinais, a fazer as coisas corretamente e jamais em sua vida arriscava. Então não conheceu o que havia do outro lado da linha do trem, nem tinha interesse. O que via dali, de onde sentava esperando o seu trem passar já era suficiente e bastava.
Podia ser mais acessível, mais fácil, só atravessar a linha. Mas o que ela queria estava mais longe, na viagem, no multicolorido trem, nas paisagens que ela imaginava. E mesmo que nunca fizésse aquela viagem, não haveria de se contentar com qualquer coisa. Pra ela sempre foi assim: ou o melhor, ou nada.

 
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Publicado por em janeiro 30, 2010 em Poetriz

 

Coisas insignificantes

Ele falava coisas grandes mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes como ela própria.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em janeiro 29, 2010 em Clarice Lispector

 

Se não falas

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

- Rabindranath Tagore

 
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Publicado por em janeiro 28, 2010 em Verso & Prosa

 

É preciso também silêncio

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.”

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
- Escutatória” (para o certas coisas)

 
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Publicado por em janeiro 27, 2010 em Rubem Alves

 

Me encante

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar…

Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser…
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos…
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar…

E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar…

Me encante com suas palavras…
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade…
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você fez com o seu primeiro namorado…
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva….

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre…
Mas, me encante de verdade, com vontade…

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas!!!

- Pablo Neruda

 
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Publicado por em janeiro 26, 2010 em Pablo Neruda

 

Um pouco da minha história

“O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antônio Brasileiro.”

♪ Chico Buarque

Meu bisavô veio com a família toda da Itália num navio e instalou-se no interior de São Paulo. Os filhos cresceram tomaram rumos diversos por esse Brasil.
Minha avó, caçula de cinco irmãos mudou-se com meus bisavós para a capital, São Paulo, onde ela conheceu um pernambucano com quem se casou.
Um dos filhos do meu bisavô foi morar no Paraná, e foi lá que meu tio (filho do meu tio-avô) conheceu minha tia.
Um dia meu tio levou o primo na casa da minha tia, para conhecer a família da namorada. E lá, ele se encantou com uma das irmãs da minha tia. Assim, meus pais se conheceram, lá se casaram e vieram morar aqui, em São Paulo.
A irmã do meu pai casou-se com um japonês que hoje mora sabe-se lá onde. Ele preparava comidas com muita cebola aparente. Odeio cebolas.
As vezes, quando vou trabalhar, encontro a irmã de uma amiga com quem trabalhei. Ambas são filhas de imigrantes alemães. Aliás, também trabalho pra descendentes de imigrantes alemães.
Já conheci pessoalmente, amigos da internet vindos de Recife, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, que vieram a São Paulo para conhecer essa cidade. Ou a trabalho, não lembro ao certo.
E por que estou contando tudo isso? Porque hoje é aniversário dessa cidade, terra de oportunidades!

Obrigada, São Paulo, por receber tanta gente que faz parte da minha história!

 
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Publicado por em janeiro 25, 2010 em Datas

 

Esse é o caminho

o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.

Martha Medeiros in “Poesia Reunida”

 
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Publicado por em janeiro 24, 2010 em Martha Medeiros

 

Antes de tudo, um forte

Entendeu que aquilo não era amor tão logo sentiu solidão numa noite de sexta feira. Como alguém noivo, assim, de aliança na mão direita podia se sentir assim? Não era ela a alma gêmea? Foi só aí que compreendeu que não, ela não era.
Ele gostava de compositores eruditos e ela adorava quando ele tocava violão. Ele gostava de autores diversos, até impopulares, e ela adorava a pilha de livros dele. Ele tinha fé em Deus e na vida, e ela achava bonita a medalhinha que ganhou num dia que nem se lembrava mais. Ele era professor, ela foi ser também.
Percebeu ali, naquele instante, sexta feira a noite, que ela admirava ele. Mas não amava. E ele precisava de amor, era amor que ele precisava!
Então pegou o telefone, discou aqueles números que conhecia, deixou o recado na secretária: falamos amanhã. Queria falar agora, dizer o que tinha descoberto! Mas ela não estava, nunca estava.
Sábado parecia normal, ela chegou falando da semana, da sexta, dos amigos, da novela, de coisas que ele não fazia idéia do que era. E tudo isso só fez confirmar a revelação: não era amor. Não era!
Terminaram ali, sem discussão, apenas uma explicação, uma resolução, um tempo. Tempo que todo mundo sabe, não passa de reticências para quem tem medo de ponto final. Pra ele era ponto final. Queria amor de verdade e ia esperar por ele até o dia que fosse.
Semanas passaram, ela arrumou outro amor, terminou, voltou, cortou o cabelo, arrumou outro namorado, terminou voltou. Formou-se. E voltou a pensar no noivo perdido. Nas músicas, nos livros, na medalhinha. Voltou a procurá-lo, queria-o de volta, estava cansada daquele tempo.
E ele, cansando de esperar pelo amor. Mas ele não aceitou, não voltou atrás. Queria alguém que acrescentasse à sua vida. Queria novidade, queria novos autores, novas músicas, uma nova religião. Queria tudo novo!
E ela insistindo, insistindo, insistindo.
Não! Ele não podia ceder apesar da solidão. Porque se fraquejasse, se aceitasse aquilo só pra não ficar sozinho, não seria o que ele lutou e desejou a vida inteira. Queria literatura na sua vida, queria se ver numa personagem, queria ver sua história num livro!
Queria antes de tudo, ser um forte!

 
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Publicado por em janeiro 23, 2010 em Poetriz

 

A alma

A alma, no seu lugar mais profundo, é uma cena de felicidade.
Viver é sair por aí, ou procurando a cena feliz ou tentando construir a cena feliz. O amor por um homem ou por uma mulher acontece quando, repentinamente, ao ver um rosto, tem-se a impressão de havê-Io visto lá, dentro da cena da alma: Quando te vi amei-te já muito antes, Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci para ti antes de haver o mundo. (Fernando Pessoa)
Amamos uma pessoa porque a sua imagem se insere na cena de felicidade que havia na memória “antes de haver o mundo”. A paixão acontece quando o rosto real à minha frente coincide, na minha fantasia, com a imagem perdida que busco (para completar a cena).
Os dois, à mesa do restaurante. A comida e a bebida são desculpas. Os dois estão em busca da imagem perdida. Os rostos são os mesmos. Eles se reconhecem. Os retratos o comprovam. Mas as imagens amadas fugiram dos rostos conhecidos, os mesmos rostos.
Os dois, silenciosamente (falta-lhes coragem para falar), fazem um para o outro a pergunta que Cecília Meireles fazia à sua avó morta: “Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?” Sim, para onde foi a imagem que me fez feliz, a imagem que morava nesse rosto? Agora, por mais que examinem, não conseguem encontrar sinais da sua presença. O rosto está opaco. Nesse mesmo rosto, agora, mora uma outra imagem, me vejo refletido nelas. Suas obras me causam assombro. Mas não as amo. Não quereria viver dentro delas. As telas de Larsson, ao contrário, me dariam felicidade se eu estivesse dentro delas.
(…)
Contemplam o rosto conhecido e o desconhecem. Não encontram nele a imagem amada. O rosto dói: é o lugar da ausência da imagem que compunha a cena de felicidade que existia na alma “antes de haver o mundo”.
A cena de felicidade está rasgada. O Paraíso foi perdido.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– A Rosa não mais Floresce”

 
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Publicado por em janeiro 22, 2010 em Rubem Alves

 
 
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