Vida amarga

Vida amarga

Querido pai
(…)
E o senhor vai me permitir ser franco: tenho a impressão de que o senhor está levando uma vida muito amarga. Ficou na minha cabeça uma frase que o senhor disse logo ao voltar daquela viagem a Santiago, algo como “Eu já morri e não sei”. Ô pai, que é isso? Entendo — e mais profundamente do que o senhor possa imaginar — o quanto a mudança de Santiago para Porto Alegre, a reforma no quartel o abandono da Maçonaria devem ter agido dentro do senhor para que fosse acontecendo esse sentimento de distanciamento da vida. Mas acontece que o senhor não colocou outras coisas para substituir essas. E eu não entendo por quê. O senhor abandonou até mesmo a leitura, parou de ir ao cinema, de sair. Quer dizer, deliberadamente foi-se afastando de tudo. Num velho, eu até entenderia essa atitude. Mas o senhor não é um velho.

Imagino que existam razões fortes, ou complexas, dentro do senhor para provocar essa atitude. Mas há de concordar comigo que, fora do senhor, essas razões não existem.
(…)
Talvez o senhor não tenha vontade de sair — mas será que não vale a pena um esforço? Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas. Tudo isso estimula a gente, clareia a cabeça, refresca. Por que não?
(…)

Caio F. Abreu in “Cartas”

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