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Arquivo do mês: junho 2010

Desabafo

Eu devo ser louca mesmo pra escrever coisas assim.
Expondo a vida, os sentimentos, os pensamentos.
Assim, feito ferida exposta, corte aberto, sangue derramando, a carne rasgada pra que todos vejam meus ossos. Duro, branco, forte, sustentando sonhos e frustrações por tantos anos. Um esqueleto é o que sou, e quando morrer é só parte dele que sobrará.
O resto, efêmero, será devorado pelos vermes sedentos de vida. Sugarão-me a vida. O que sobrar dela.
A alma, rogo que vá para junto de Deus. Que suba leve, liberta das mágoas e decepções, pondo fim à solidão da existência humana.
E só porque eu espero esse dia, só porque eu escrevo esse tipo de coisa,  é que não gostei daquele comentário.
De quem com a faca na mão, se deleita da dor alheia, como se fosse indiferente à própria dor.

 
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Publicado por em junho 30, 2010 em Desabafo

 

Mas seria amor?

“Mas seria amor? (…) Não seria a reação histérica de um homem que, compreendendo em seu foro íntimo sua inaptidão para o amor, começa a representar para si próprio a comédia do amor?”

Milan Kundera in “A insustentável leveza do ser”

 
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Publicado por em junho 29, 2010 em Verso & Prosa

 

Busque amor

“Busque amor novas partes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças;
que mal me tirarão o que eu não tenho.

“Olhai que de asperezas me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido lenho.

“Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá m’esconde
amor um mal, que mata e não se vê.

“Que dias há que n’alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei donde,
vem não sei como, e dói não sei porquê”.

- Camões

 
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Publicado por em junho 28, 2010 em Verso & Prosa

 

Aprendizado

Tenho aprendido coisas que ainda estão vagas dentro de mim, mal comecei a elaborá-las. São coisas mais adultas, acho. Tem sido bom. Amigos cintilam em volta, estendem a mão na hora certa. Você vai se enriquecendo em fé.

Caio F. Abreu in “Cartas”

 
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Publicado por em junho 27, 2010 em Caio Fernando Abreu

 

Minhas impressões de Buenos Aires

Não conheci tudo de Buenos Aires. Descobri que Buenos Aires é grande demais pra se conhecer em alguns dias, em uma única vida.
Como se conhece um país, uma cidade afinal? É conhecendo sua história de lutas e revoluções, tão importante pra esse povo que toda praça, todo “feriado”, todo monumento é em memória de alguma “revolucion”? É olhando a cara dos manifestantes em plena rua, em pleno dia, em plena qualquer hora, com tambores, faixas e algumas palmas, nada de gritarias ou estardalhaço. Uma “manifestacion” bem comportada, eu diria, de gente exigindo melhores preços, mais liberdade, reconhecimento de guerra. Afinal, é um país deles também, não é? Afinal, foi por esse país que eles lutaram e lutam, não é?
A gente conhece um lugar pelos líderes? Um lugar onde a força feminina ecoa e escandaliza. Precursor latino americano da quebra de paradigmas?
Ou seria na avenida mais larga do continente, do mundo talvez, que mesmo com trânsito foi planejada de forma que as árvores plantadas (e escolhidas a dedo) fossem capaz de deixar o lugar sem poluição? Avenida com outdoor que lembram Tokio. Avenida que lembra a Av. Paulista (com muito mais árvores, claro).
É pela língua que se conhece uma cidade? E como separar a língua nativa pura e original, se há tantos estrangeiros nessa terra? Em qualquer canto ouve-se alguém dizer: “também sou brasileiro” como senha de alguma seita maluca. Fora os estrangeiros de todos os cantos do mundo: judeus e seus chapéus negros viajaram com a gente, chineses que fazia conexão para Dubai, peruanos, italianos, americanos. Tantas línguas que nem me esforcei pra falar meu “portunhol” que particularmente acho uma ofensa à duas línguas.
Eu poderia dizer que uma cidade se conhece pela música. Tango? Si, si. Mas e o “fandango” que eu vi no show, é também portenho? Mas aquelas roupas, aquele sapateado, aquele bailado eu vi também no Rio Grande do Sul. A verdade é que os pampas não respeitam linhas divisórias imaginárias que separam países e pessoas.
Uma cidade talvez então se conheça pela comida. Meialuna não é o meu já conhecido croissant francês? As empanadas são divinas, isso eu tive que concordar. Gostei mais da de carne. E a carne? De primeira também. Não medem esforços pra agradar ao turista. E recomendo para quem tem restrição alimentar a aprender o que não pode comer em todas as línguas possíveis. Odeio presunto, e adivinhem o que vinha em todos os pratos, lanches e afins que eu comi? Nem o Mc’Donalds é o mesmo por lá! Cadê meu número quatro, Nuestra Señora del Buen Ayre??
Aliás, as duas igrejas que conheci são centenárias. Buenos Aires é uma cidade que valoriza a arte arquitetônica e histórica. Seus prédios antigos são recuperados e permanecem em uso. Ou dão novo uso. Diferente do centro abandonado de São Paulo.
Delicioso mesmo foi andar pelas ruas sempre planas e paralelas. Pra se perder em Buenos Aires só mesmo estando com muita vontade de desbravar a cidade e não prestar atenção no caminho que seguiu. Algumas ruas, como a Florida (centro do comércio ambulante) lembrou-me escandalosamente a rua Direita, XV de Novembro e aquela região entre a Sé, a 25 de Março até o Largo São Bento em São Paulo. Tanto pelas mercadorias expostas pelo chão, mendingos, drogados, quanto pela largura da rua, altura dos prédios, bancas de jornais e o piso de cacos. Lembrou também a região do centro de Porto Alegre, que tem vários museus, que quando visitei lá já havia notado a semelhança com São Paulo.
Talvez eu procure São Paulo em todo lugar, essa talvez seja a cruel verdade. Procuro minha cidade pra me sentir em casa. Por isso acabo não conhecendo direito outros lugares, pois quando os visito, acabo por conhecer melhor a minha cidade.

 
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Publicado por em junho 26, 2010 em Cotidiano

 

Adeus, Buenos Aires!

“Quero dizer-te adeus, e não posso, Montevidéu – pois até o olhar dos teus cavalos me está prendendo a ti. Mas se eu ficar, talvez nunca mais os veja, porque o ofício humano é triste, e facilmente se vicia: os olhos deixam de ver o que estão vendo sempre, e o coração se acostuma –e esquece-o..- aquilo que se faz maravilha constante… Assim, para te amar, é melhor que te deixe.”

Cecília Meireles in “Crônicas de Viagem”

 
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Publicado por em junho 25, 2010 em Cecília Meireles

 

Buenos Aires

“É a praça de mayo…

É o paredão de La Ricoleta…
É uma grande árvore da rua Junin…

É a calçada de Quintana…

É Elvira de Alvear escrevendo…
É a mão de Norah esboçando…

É o arco da rua Bolívar…
É o aposento da Biblioteca…

Bueno Aires é a outra rua…, o bairro que não é seu nem meu,
o que ignoramos e amamos.”

- Jorge Luis Borges

 
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Publicado por em junho 24, 2010 em Jorge Luis Borges

 

Um pouquinho de dor

As pessoas totalmente felizes não conseguem pensar pensamentos interessantes. É preciso ter um pouquinho de dor para que o pensamento pense bonito.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Dor-de-Idéia”

 
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Publicado por em junho 23, 2010 em Rubem Alves

 

Precisava dos outros

Só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em junho 22, 2010 em Clarice Lispector

 

Não precisa pedir

No mesmo momento, sem ouvir o que ela dizia, e talvez não dissesse nada, apenas cantasse, uma estrela cadente riscou o céu. Pensei em fazer um pedido, era meu aniversário. Mas não tinha nada para pedir.
As coisas vivas, pensei, as coisas vivas não precisam pedir.

- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”

 
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Publicado por em junho 21, 2010 em Caio Fernando Abreu

 
 
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