Minhas impressões de Buenos Aires

Minhas impressões de Buenos Aires

Não conheci tudo de Buenos Aires. Descobri que Buenos Aires é grande demais pra se conhecer em alguns dias, em uma única vida.
Como se conhece um país, uma cidade afinal? É conhecendo sua história de lutas e revoluções, tão importante pra esse povo que toda praça, todo “feriado”, todo monumento é em memória de alguma “revolucion”? É olhando a cara dos manifestantes em plena rua, em pleno dia, em plena qualquer hora, com tambores, faixas e algumas palmas, nada de gritarias ou estardalhaço. Uma “manifestacion” bem comportada, eu diria, de gente exigindo melhores preços, mais liberdade, reconhecimento de guerra. Afinal, é um país deles também, não é? Afinal, foi por esse país que eles lutaram e lutam, não é?
A gente conhece um lugar pelos líderes? Um lugar onde a força feminina ecoa e escandaliza. Precursor latino americano da quebra de paradigmas?
Ou seria na avenida mais larga do continente, do mundo talvez, que mesmo com trânsito foi planejada de forma que as árvores plantadas (e escolhidas a dedo) fossem capaz de deixar o lugar sem poluição? Avenida com outdoor que lembram Tokio. Avenida que lembra a Av. Paulista (com muito mais árvores, claro).
É pela língua que se conhece uma cidade? E como separar a língua nativa pura e original, se há tantos estrangeiros nessa terra? Em qualquer canto ouve-se alguém dizer: “também sou brasileiro” como senha de alguma seita maluca. Fora os estrangeiros de todos os cantos do mundo: judeus e seus chapéus negros viajaram com a gente, chineses que fazia conexão para Dubai, peruanos, italianos, americanos. Tantas línguas que nem me esforcei pra falar meu “portunhol” que particularmente acho uma ofensa à duas línguas.
Eu poderia dizer que uma cidade se conhece pela música. Tango? Si, si. Mas e o “fandango” que eu vi no show, é também portenho? Mas aquelas roupas, aquele sapateado, aquele bailado eu vi também no Rio Grande do Sul. A verdade é que os pampas não respeitam linhas divisórias imaginárias que separam países e pessoas.
Uma cidade talvez então se conheça pela comida. Meialuna não é o meu já conhecido croissant francês? As empanadas são divinas, isso eu tive que concordar. Gostei mais da de carne. E a carne? De primeira também. Não medem esforços pra agradar ao turista. E recomendo para quem tem restrição alimentar a aprender o que não pode comer em todas as línguas possíveis. Odeio presunto, e adivinhem o que vinha em todos os pratos, lanches e afins que eu comi? Nem o Mc’Donalds é o mesmo por lá! Cadê meu número quatro, Nuestra Señora del Buen Ayre??
Aliás, as duas igrejas que conheci são centenárias. Buenos Aires é uma cidade que valoriza a arte arquitetônica e histórica. Seus prédios antigos são recuperados e permanecem em uso. Ou dão novo uso. Diferente do centro abandonado de São Paulo.
Delicioso mesmo foi andar pelas ruas sempre planas e paralelas. Pra se perder em Buenos Aires só mesmo estando com muita vontade de desbravar a cidade e não prestar atenção no caminho que seguiu. Algumas ruas, como a Florida (centro do comércio ambulante) lembrou-me escandalosamente a rua Direita, XV de Novembro e aquela região entre a Sé, a 25 de Março até o Largo São Bento em São Paulo. Tanto pelas mercadorias expostas pelo chão, mendingos, drogados, quanto pela largura da rua, altura dos prédios, bancas de jornais e o piso de cacos. Lembrou também a região do centro de Porto Alegre, que tem vários museus, que quando visitei lá já havia notado a semelhança com São Paulo.
Talvez eu procure São Paulo em todo lugar, essa talvez seja a cruel verdade. Procuro minha cidade pra me sentir em casa. Por isso acabo não conhecendo direito outros lugares, pois quando os visito, acabo por conhecer melhor a minha cidade.

8 respostas »

  1. As cidades como essas não se permitem conhecer. Apenas permitem a convivéncia. Você escolheu a sua. Eu escolhi a minha e assim por diante. Beijos.

  2. Não sei se você viu no meu blog minhas férias em Buenos Aires. Por uma sorte tremenda, fui pra lá justamente quando começaram as festas de comemoração do Bicentenário da Independência. Foi incrível! Acabei não fazendo uma parte dos programas de turista, mas mergulhei de cabeça na história deles! Conheci um lado de Buenos Aires, da Argentina e de vários países latino americanos que não conhecia. E posso falar que quero voltar para lá assim que puder, por que a cidade é maravilhosa!!

    E sim, as empanadas de lá são divinas também, hehe! ;-)

  3. Que linda sua declaração:

    “Talvez eu procure São Paulo em todo lugar (…)
    pra me sentir em casa.”

    Pode-se ir e vir.
    Bom mesmo é ficar por aqui!
    Em meu caso, Minas. : )

    Um beijo,
    doce de lira

  4. Tem toda razão, sempre procuramos as nossa cidade. É preciso nos “libertarmos” pra conhecermos outras…

  5. Não conheço Buenos Aires, estou de viagem marcada para lá em agosto para estudar. Ansiosa!! me esbarrei com seu blog por acaso e quando li seu texto, diário de viajante, gostei muito da abordagem. Não li muito livros de viagens, mas os que li posso dizer que alguns se encontram aq, como Osman Lins e Ana Cristina Cesar.
    Parabéns pelo blog, saiba que agora terá uma leitora assídua.
    Abs.

  6. Olá!
    Vim retribuir sua visita ao meu blog.
    Fiquei encantada com os textos.
    Assim como a Renata (aí em cima), achei linda a sua declaração… “Talvez eu procure São Paulo em todo lugar (…) pra me sentir em casa.”
    Nunca tinha percebido, mas faço a mesma coisa sempre que viajo… Adoroo viajar, mas adoro mais ainda retornar à minha cidade: São Paulo.

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