As vezes, sobretudo agora, verão e lua quase cheia, me surpreendo melancólico pelas noites a suspirar na sacada espanhola, com vontade de chorar. Choro quando consigo. Ou ouço Caetano cantando Contigo en la distancia, e choro mais. Não tenho pena de mim, mas por vezes sinto falta de amor. Fico sempre muito só.
Caio F. Abreu in “Cartas”
Arquivo do mês: agosto 2010
Não tenho pena de mim
Mais que a mim
♪ Ouvi dizer que você tá bem
Que já tem um outro alguém
Encontrei moedas pelo chão
Mas não vi ninguém pra me abraçar, me dar a mão ♪
♪ Eu chorei sem disfarçar
Quando vi seu carro passar
Vi todo amor que em mim ainda não passou
Eu já não sei bem aonde vou, mas agora eu vou ♪
♪ Tentei falar mas você não soube ouvir tente admitir
Tentei voltar e pude ver o quanto errei
Te amei mais que a mim
Ah, bem mais que a mim, mais que a mim ♪
- Ana Carolina part. Maria Gadu
Condição anterior
Roubado do blog do Dz:
Felicidade ou infelicidade são efeitos ilusórios de causas relativas à condição anterior.
DeRose
O que você faria se só tivesse 24hs a partir de agora?
Essa foi a pergunta que fizeram essa semana.
O que eu faria? Acho que nada de diferente. Não sairia gastando o que eu não tenho, não diria o que eu não tenho coragem de dizer nem agora. Não faria loucuras, não iria a lugar algum.
Eu ia ficar em casa, abraçar minha família, brincar com minha cachorra.
E esperaria. Não é um dia apenas que se recupera uma vida inteira…
Eu acho bacana quem pensa em fazer tudo diferente no último dia. Por que não faz hoje? E se hoje for mesmo o último dia e você não souber?
A minha resposta em relação à família não é porque simplesmente sou apegada à ela, mas porque é o que eu faço todos os dias.
Não vou dizer que eu vivo loucamente como se hoje fosse o último dia da minha vida, essa não é a minha natureza. Eu sou muito pé no chão e pé atrás. Indecisa, insegura.
Eu penso que o que eu deixei passar, passou. O que eu não tive coragem de fazer, não vou fazer nunca.
Arrependimento? Alguns, por que não? Mas não porque eu não quis fazer algo que era possível de se fazer, mas porque eu não faria nunca porque não faz parte da minha natureza.
Acho que o meu último pensamento/ato não seria arrependimento, compensação, libertação. Seria perdão.
Perdoaria a mim mesma.
Adeus
- pequeno lenço branco;
- movimento de vai e vai do mar, dentro dos olhos;
- gesto obsceno executado por desamantes em desvario;
- nona nota musical;
- cor que sobra do desbotamento do azul;
- congelamento criogênico momentâneo do coração;
- cais à beira d’água;
- diz-se daquele instante em que desabam pétalas sobre o esquife;
- restos mortais de fotografias não amareladas;
- na geometria, o ponto exato onde termina uma reta e começa uma curva;
- verruga que nasce no queixo e que, não tratada adequadamente, transforma-se em tumor maligno. (Ex: “Adeus, amor, é animal em extinção na minha floresta de palavras, desde que seus olhos lumiaram no escuro de minha alma.”)
- André Gonçalves in “Coisas de Amor Largadas na Noite”
Das manias, superstições e pensamentos
Eu gosto de fazer bilhetinhos. Mania boba, mas faz toda a diferença quando a gente recebe um. Dia desses combinamos, eu e minha amiga de comprarmos sapinhos da sorte e trocarmos. Porque dizem que sorte é ganhar. Então combinamos de enganar a superstição e compramos o sapinho no mesmo lugar, no mesmo dia, na mesma hora. Afinal, ninguém disse que tinha que ser surpresa também, disse?
Daí, chegando aqui, coloquei num envelope usado reciclado. E fiz um bilhete bem bobo, do tipo “O sapo não lava o pé, mas esse vai te trazer sorte. E nem é por causa do chulé”.
Ontem fomos almoçar, e minha amiga mostrou o bilhetinho na carteira. O sapo não sei onde ela guardou,mas o bilhete estava lá, firme e forte num lugar especial na carteira dela.
Eu tenho umas 3 carteiras, fora os porta níqueis. Explico. Minha carteira é linda de viver! Tem lugar pra tudo: cheque, cartões, foto, moeda, etc. Só que ela é grande. E como as vezes a gente sai pra comer fora e só vamos com o bilhete do ônibus e o cartão do VR, comprei uma daquelas bolsinhas que cabem só os cartões e o celular. Além de mais prático e uma fofura, evita chamar muita atenção e se eu no pior dos casos for roubada na hora do almoço, não perco tudo. A terceira carteira é um misto do meu sonho de consumo. É uma bolsinha na verdade, mas como o fecho é uma trava (que não sei explicar o nome) e o tamanho dela é quase da minha carteira linda, adotei ela como carteira. Ela é uma espécie de porta níqueis grande mas com divisórias de carteira. Daí trago só o essencial: cartão do convênio, da faculdade, RG, ticket refeição, uns trocados e uns papéis inúteis.
Agora estou com um problema: só ganhei um sapinho. Alguém poderia me surpreender com os dois que faltam? É que eu tenho que ganhar…
Comecei a escrever esse email às 11:11 hs porque tem uma superstição que alguém está pensando na gente nesses horários iguais. Ou seria em horários inteiros? Tipo 12hs, 13hs?
Eu tenho a mania de esperar na frente do relógio quando falta um minuto pra uma hora inteira ou minutos iguais, na esperança de alguém pensar em mim.
Não sei se alguém pensa. E eu nem tenho alguém em mente pra justificar essa atitude. Faço isso desde sempre.
Só sei que quando vejo a hora inteira ou os minutos iguais, sempre sorrio. Coisa de gente supersticiosa.
Constelações
Para “Romilde”,
Colecionadora de estrelas.
Isso foi hoje, 18:30hs. Eu estava esperando o ônibus pra ir pra casa.
O trajeto é horrível: trânsito, excesso de gente, poluição.
Os amigos reclamando da vida, do casamento, do trabalho, dos filhos.
No céu, Centauro, esse cachorro levado, largou o Cruzeiro do Sul e fugiu.
Ninguém reparou?
Escorpião, que de corajoso nada tem, foi correndo se esconder na casinha.
Até o menino deixou o pipa no céu e saiu correndo.
Era a mãe chamando pra tomar banho, que uma hora dessas
já era pra estar dentro de casa de dever feito e janta no prato.
A galinha perdeu o pescoço e por pouco não perde a cabeça também.
E de galinha, virou astronauta, nave estelar.
Foi em direção ao buraco negro, perto do triângulo austral.
E toda confusão começou por causa daquele grande e gigante monstro!
Ai, que gritaria! Que barulhão!
Nem um raio, nem uma chuvinha, nem um trovão!
Eu ali, exatamente no Zenith.
Aquele ponto no universo acima de nossas cabeças.
Marcando tal como um X, um tesouro.
Olhava pra cima buscando constelações…
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
- Vinicius de Moraes
Rio de Janeiro, 1935
Hoje chorei.
Sonhos, sei lá
Tinha um carro alto como um andaime.
E uma parede de gelo que eu precisava fotografar (pra posteridade).
Mas tinha que ser logo porque o carrinho do morango ia passar.
Daqueles que vendem embalagens com vários morangos.
Aí era o liquidificador de verdade batendo suco de morango.
E nem deu tempo de fotografar. (A parede de gelo)
Depois o meu carro era roubado.
Abriram o portão, apenas o cadeado de baixo. (Tem dois)
E saíram com o carro desligado mesmo.
Porque se ligassem eu ouviria.
Porque demora pra pegar já que está sem gasolina.
Aí o celular tocou.
Era um amigo sumido dando notícias.
Explicou que o celular tinha quebrado.
E eu contei que o carro havia sido roubado.
Na dúvida, como eu acordei, fui olhar na janela se o carro ainda estava na garagem.
Tem sonho que se mistura com a realidade. Não quis arriscar.
De uns anos pra cá
Amor não resiste a tudo, não. Amor é jardim, Amor enche de erva daninha. Amizade também, todas as formas de amor. Hay que trabalhar y trabalhar, sabes?
Pois acho que nossa relação de uns anos para cá encheu de tanta erva daninha que, quanto a mim, pelo menos, já não dou conta desse matagal.Caio F. Abreu in “Cartas




