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Arquivo do mês: dezembro 2010

Mesmo assim

Sofri, chorei, mas mesmo assim eu fui feliz…

Caio F. Abreu in “Cartas”

Eu tinha esperado bem mais desse ano que passou. Investi numa pós e não obtive o resultado que eu esperava. Pois é, o ano acabou e ?
E que 2011 seja bem melhor.
Pra mim, e pra vocês!

 
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Publicado por em dezembro 31, 2010 em Caio Fernando Abreu

 

Vampire Wars – Desfrute uma bebida de boas vindas

Raramente perguntava-se por que metia-se nesses assuntos, porque seguia essas regras desse grupo que nem lhe importava. Hoje era uma exceção.
O convite estava ainda reluzindo sobre a mesa do hotel como no dia em que abriu a correspondência. Ainda não estava pronta apesar do vestido estar impecavelmente extendido sobre a cama. Já vestia as meias finas e a lingerie combinantes. A pele perfumada com uma fragrancia atual, ela não era dessas que gostava de manter um único perfume a vida toda.
Permanecia próxima da janela, observando pelo véu da cortina a cidade lá fora. As luzes neon irritavam-lhe profundamente. Segurava uma adaga na mão, brincando com ela, lançando para cima e pegando novamente no ar. Estava indecisa, algo dentro dela estava soando, um insistinto que ela desconhecia.
Tomou a decisão: prendeu a adaga na coxa, vestiu o vestido longo, pegou as luvas e as chaves do carro. Tomou o caminho mais longo para o saguão, descia degrau a degrau sem pressa. O carro estava estacionado na rua lateral ao prédio. Ela não gostava de dirigir, mas o evento pedia uma chegada mais apropriada.

O calafrio percorreu todo o seu corpo quando ela entregou a chave ao manobrista, já na porta do cassino. O manobrista era um mortal escravizado.
Logo na entrada haviam grupinhos de pessoas conversando, provavelmente contando vantagens entre si, o que era comum nesses eventos. Haviam mortais e imortais misturados, era dificil num único olhar diferenciar um grupo do outro. Alguns imortais gostavam de maquiagem o suficiente para serem confundidos com mortais. Esses, cheiravam a talco. E alguns mortais gostavam de usar roupas escuras, maquiagens carregadas principalmente em volta dos olhos, piercings pelo corpo, chamavam-se góticos. Para esse grupo, o gótico era uma homenagem que alguns imortais aderiram por sentirem-se confortaveis com aquela aparência. Haviam poucos que assumiam a aparência própria dos imortais que por caracteristica mais notória tinha a pele muito branca.

Os convidados entravam aos poucos para o salão principal, conforme iam sendo convidados e os nomes confirmados numa listagem. Enquanto isso, distraiam-se com conversas fúteis e as bebidas multicoloridas trazidas pelos garçons.
Quando ela chegou, foi direto a uma recepcionista saber se já podia entrar, pois desejava não ter que perder tempo na antesala. Para sua infelicidade, ainda teria que aguardar uns minutos antes da liberação da entrada de um novo grupo.
Então ela localizou uma banqueta vazia e uma mesa num canto. Dirigiu-se para lá e sentou-se. O sentimento estranho ainda não a tinha abandonado. Olhou uma vez para fora e pensou se não seria melhor ir embora.
- Para a senhorita.
Ela olhou para a taça cheia de líquido vermelho sobre a mesa. Olhou o garçon e agradeceu mudamente, levantando a taça na mão. Encarou o liquido viscoso e vermelho, girou a taça um instante e sentiu a fragrancia. Podia ser sangue, mas era vinho. Vinho de boas vindas. Vinho de velhas lembranças. E entendeu o calafrio que estava sentindo.

 
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Publicado por em dezembro 30, 2010 em Contos

 

Estrela

Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a
representação do papel de estrela. Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em dezembro 29, 2010 em Clarice Lispector

 

A vida é assim

“Enquanto Ray Porter observa Mirabelle se afastar…
Ele sente uma perda.
“Como é possível?”, ele pensa.
Perder a mulher que ele manteve à distância pra que, quando
ela se fosse, ele não sentisse sua falta.
Só então ele percebe que queria uma parte dela, mas não ela toda.
Machucou os dois.
E como não pode justificar suas ações, exceto que…
Bem… que a vida é assim.”

- Shopgirl (filme)

 
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Publicado por em dezembro 28, 2010 em Filmes

 

Duas canções de silêncio

Ouve como o silêncio

Se fez de repente
Para o nosso amor

Horizontalmente…

Crê apenas no amor
E em mais nada
Cala; escuta o silêncio
Que nos fala
Mais intimamente; ouve
Sossegada
O amor que despetala
O silêncio…

Deixa as palavras à poesia…

Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”
Oxford, 1939

 
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Publicado por em dezembro 27, 2010 em Vinicius de Moraes

 

Quais eram nossas esperanças?

E os amigos, cadê? Você foi lindo comigo. E distante. Me deu apoio, não o ombro. Queria tanto ter chorado a dor enorme de POA e a velhice de meus pais no Menino Deus no ombro de um amigo. Não temos tempo: somos maduros. Onde será que isso começa? Procuro o fio, há só a meada. Te abraço quente e longe. Quais eram nossas esperanças?

Caio F. Abreu in “Cartas”

 
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Publicado por em dezembro 26, 2010 em Caio Fernando Abreu

 

Natal

A grande ocorrência
Que nos conta o sino
É que, na indigência
Nasceu um menino.

Mil e novecentos
E cinqüenta e três
Anos são peremptos
Dessa meninez.

Muito tempo faz…
Mas ninguém olvida
Que é um dia de paz…
Porque fez-se a vida!

Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”
12.1953

 
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Publicado por em dezembro 25, 2010 em Vinicius de Moraes

 

Favelados

Assisti essa semana um trechinho de um documentário sobre a Madre Teresa de Calcutá. Fiquei comovidíssima com um relato dela, vou tentar transcrever da forma como lembro que ouvi:

“Quando iniciei minha missão, sonhei que havia ido ao Paraíso.
Chegando lá, encontrei São Pedro que me disse:
“Volte, porque aqui no Paraíso não existe favelas“.
Então eu respondi:
“Pois aguarde, pois vou encher o céu de favelados“.”

- Madre Teresa de Calcutá

 
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Publicado por em dezembro 24, 2010 em Datas

 

Das comidas natalinas

Esse fim de ano eu comi lixia pela primeira vez. Achei uma delícia! Lembra em muito com a pinha, que é outra fruta que adoro. Mas a pinha tem muitas sementinhas e pouco sumo, diferente da lixia que apesar de ter um único caroço que parece mais uma castanha do pará, tem bastante sumo. Apesar de menor, a Lixia é grande e doce por dentro. Sua casca é rosada como a de muitas moças que conheço, coradas de sol ou de timidez, mas também é robusta com pequeninos nódulos. É um misto de delicadeza e força.
Falando do caroço que parece uma castanha, adoro castanhas também. Castanha de caju, castanha do pará, amendoas, amendoim, nozes e pinhão. Castanha é a semente que não germinou. As vezes é culpa da gente que priva a sementinha de morrer na terra pra libertar a árvore que mora dentro dela.
Quando eu era criança, meu pai ganhava uma cesta de natal que sempre vinham dois pacotes de castanha: do pará e nozes. Uma vez, minha mãe abriu a caixa de amandita e estourou um bombom com um martelo, achando que era uma noz. Também, veio disfarçada de castanha!
E pra completar o trio de especiarias de fim de ano, deixo o melhor pro final: panetone. Troco todos os meus ovos de páscoa por um panetone. Não gosto muito de de chocolate, prefiro o de frutinhas. Sempre quis saber que frutinhas eram aquelas, ficava tentando adivinhar pelo “sabor” quando eu era criança, igual com jujubas. Mas jujubas, gelatinas, sucos de saquinho e frutinhas de panetone, não tem sabor, tem apenas cor. As pessoas acham graça quando almoçamos juntas em lugares que distribuem gelatina de sobremesa e eu sempre peço uma “de amarelo” ou “de verde”. Acham estranho? Então me respondam, a gelatina amarela é sabor o que? Abacaxi? Pêssego? Maracujá? Lixia?
Tá, falei da lixia porque não consigo esquecer aquela frutinha que está esperando por mim na geladeira.
Mas voltando aos panetones, a Cacau Show esse ano lançou panetones especiais, e um particularmente, tem me tirado o sono: panetone de nozes.
Assim, queridos leitores, fico aqui salivando e perdendo o rumo desse texto.

 
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Publicado por em dezembro 23, 2010 em Datas

 

Estrela cadente

Uma vez eu vi uma estrela cadente.
Estavamos na casa de uma no interior, todos sentados no quintal naquelas cadeiras de interior. A minha era moderna comparada às outras pois era reclinável, era minha soberba infantil.
Nessa noite, o céu estava estreladíssimo como em todas as outras do interior. No interior, todas as noites são estreladas, diferente da cidade onde a poluição, os prédios e luzes ofuscam o brilho do céu.
A conversa era entre os adultos, lembravam de histórias de um tempo que a vida parecia mais fácil e mais barata. Histórias de quando éramos menores ainda ou de antes de nascermos ou de antes deles casarem e virarem a nossa família.
Uma prima apontou o céu. Ia nascer uma verruga na ponta do dedo dela por ela ter cometido esse pecado: apontar uma estrela. Entretanto, ela cresceu, se casou e a verruga nunca nasceu. Eu mesma comprovei!
O céu noturno, limpíssimo, não é forrado apenas de estrelas. Dá pra ver poeira estelar também! Sujeira, acho. Rastro de estrela! Minha prima explicou que chamava adão e eva. Lembrei da minha avó que contou essa história: os dois moravam no paraíso, comeram uma maça e foram expulsos. E havia uma cobra enrolada na macieira. Eu sempre quis saber por que não haviam macieiras no sítio da minha tia. Mas tinha goiabeiras e isso me bastava.
Não sei se foi sonho, se foi história ou se foi verdade, mas nessa noite eu vi uma estrela cadente.
E a garotada correu pro pasto pra procurá-la mas ela caiu no matagal. E abriu uma cratera no meio do capinzal. E a estrela era uma rocha escura que emitia um brilho branco e azul. Era a estrela mais linda que eu já vi!
Juro! Vi a estrela e dormi abraçada a ela na minha cama.

 
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Publicado por em dezembro 22, 2010 em Poetriz

 
 
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