Raramente perguntava-se por que metia-se nesses assuntos, porque seguia essas regras desse grupo que nem lhe importava. Hoje era uma exceção.
O convite estava ainda reluzindo sobre a mesa do hotel como no dia em que abriu a correspondência. Ainda não estava pronta apesar do vestido estar impecavelmente extendido sobre a cama. Já vestia as meias finas e a lingerie combinantes. A pele perfumada com uma fragrancia atual, ela não era dessas que gostava de manter um único perfume a vida toda.
Permanecia próxima da janela, observando pelo véu da cortina a cidade lá fora. As luzes neon irritavam-lhe profundamente. Segurava uma adaga na mão, brincando com ela, lançando para cima e pegando novamente no ar. Estava indecisa, algo dentro dela estava soando, um insistinto que ela desconhecia.
Tomou a decisão: prendeu a adaga na coxa, vestiu o vestido longo, pegou as luvas e as chaves do carro. Tomou o caminho mais longo para o saguão, descia degrau a degrau sem pressa. O carro estava estacionado na rua lateral ao prédio. Ela não gostava de dirigir, mas o evento pedia uma chegada mais apropriada.
O calafrio percorreu todo o seu corpo quando ela entregou a chave ao manobrista, já na porta do cassino. O manobrista era um mortal escravizado.
Logo na entrada haviam grupinhos de pessoas conversando, provavelmente contando vantagens entre si, o que era comum nesses eventos. Haviam mortais e imortais misturados, era dificil num único olhar diferenciar um grupo do outro. Alguns imortais gostavam de maquiagem o suficiente para serem confundidos com mortais. Esses, cheiravam a talco. E alguns mortais gostavam de usar roupas escuras, maquiagens carregadas principalmente em volta dos olhos, piercings pelo corpo, chamavam-se góticos. Para esse grupo, o gótico era uma homenagem que alguns imortais aderiram por sentirem-se confortaveis com aquela aparência. Haviam poucos que assumiam a aparência própria dos imortais que por caracteristica mais notória tinha a pele muito branca.
Os convidados entravam aos poucos para o salão principal, conforme iam sendo convidados e os nomes confirmados numa listagem. Enquanto isso, distraiam-se com conversas fúteis e as bebidas multicoloridas trazidas pelos garçons.
Quando ela chegou, foi direto a uma recepcionista saber se já podia entrar, pois desejava não ter que perder tempo na antesala. Para sua infelicidade, ainda teria que aguardar uns minutos antes da liberação da entrada de um novo grupo.
Então ela localizou uma banqueta vazia e uma mesa num canto. Dirigiu-se para lá e sentou-se. O sentimento estranho ainda não a tinha abandonado. Olhou uma vez para fora e pensou se não seria melhor ir embora.
- Para a senhorita.
Ela olhou para a taça cheia de líquido vermelho sobre a mesa. Olhou o garçon e agradeceu mudamente, levantando a taça na mão. Encarou o liquido viscoso e vermelho, girou a taça um instante e sentiu a fragrancia. Podia ser sangue, mas era vinho. Vinho de boas vindas. Vinho de velhas lembranças. E entendeu o calafrio que estava sentindo.