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Arquivo do mês: janeiro 2011

Este livro

O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em janeiro 31, 2011 em Clarice Lispector

 

Soneto de Montevidéu

Não te rias de mim, que as minhas lágrimas
São água para as flores que plantaste
No meu ser infeliz, e isso lhe baste
Para querer-te sempre mais e mais.

Não te esqueças de mim, que desvendaste
A calma ao meu olhar ermo de paz
Nem te ausentes de mim quando se gaste
Em ti esse carinho em que te esvais.

Não me ocultes jamais teu rosto; dize-me
Sempre esse manso adeus de quem aguarda
Um novo manso adeus que nunca tarda

Ao amante dulcíssimo que fiz-me
À tua pura imagem, ó anjo da guarda
Que não dás tempo a que a distância cisme.

Montevidéu, 1959
Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”

 
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Publicado por em janeiro 30, 2011 em Vinicius de Moraes

 

Falta

Lucille era quão única amava o jardim. (…)
Lucille crescia e minguava com as estações, como uma planta. (…) Sinto sua falta.
Quanto a Clare… bom, dizer que Clare “sente sua falta ” seria uma expressão inadequada. Clare se sente privada de sua presença. Entra na sala e esquece o que tinha ido procurar. Clare se senta com um livro e o olha fixamente sem voltar a página durante uma hora; mas não chora. Clare sorri se conto uma piada. Clare come o que lhe ponho diante. Quando lhe faço o amor, tenta me seguir com todo seu empenho… e eu não demoro para deixá-la tranqüila, temeroso do rosto dócil e carente de lágrimas que parece achar-se a quilômetros de distância. Sinto falta de Lucille, mas é da presença da Clare de quem me sinto privado; Clare, que se partiu longe e me deixou com essa estranha que só guarda a aparência dela.

- Audrey Niffenegger in “A Mulher do Viajante no Tempo”

 
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Publicado por em janeiro 29, 2011 em Audrey Niffenegger

 

Apesar

E como diria Hilda Hilst, love apesar, a pesar e há pesar.

Caio F. Abreu in “Cartas”

 
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Publicado por em janeiro 28, 2011 em Caio Fernando Abreu

 

Os olhos

Os olhos de ambos se haviam beijado.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 
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Publicado por em janeiro 27, 2011 em Clarice Lispector

 

Ser carioca

Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo, é amar a noite acima de todas as coisas, porque a noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no oficio e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti.
Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca?

Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”

 
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Publicado por em janeiro 26, 2011 em Vinicius de Moraes

 

Fica combinado

fica combinado assim

você louco por mim

eu louca até o fim

- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”

 
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Publicado por em janeiro 25, 2011 em Martha Medeiros

 

Não dói


Essa imagem linda é nas ruas da Itália

Na solidão que ninguém compreende, e por isso mesmo não dói.

Caio F. Abreu in “Cartas”

 
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Publicado por em janeiro 24, 2011 em Caio Fernando Abreu

 

Custa caro

Custa caro não morrer, honey. Morrer também. Viver não menos…

Caio F. Abreu in “Cartas”

Acho que nunca estive tão mal econômicamente como atualmente. Ainda não estou devendo pra nenhum banco, mas as minhas projeções financeiras dizem que se não vier um aumento razoável agora no dissídio, logo vou entrar no juros do banco.
Ontem foi aniversário da minha irmã. Comprei um bolo divino “Prestígio” numa padaria perto da estética. Uma loucura de bolo mesmo, o detalhe que fez toda a diferença foi a cobertura de doce de leite por baixo do chocolate. Loucura total!
Sexta foi dia do sorvete na empresa e caiu o maior temporal. Acabou a energia às 2:30hs e ficamos até as 4hs esperando a liberação pra ir pra casa. A previsão de retorno da eletricidade era 7hs da noite.
Minha mãe viajou, foi lá ver o pessoal do Paraná. Numas pesquisas da internet, descobri que tem uma réplica da torre eiffel numa das cidades que costumamos visitar. Da próxima vez que eu for, quero ir ver a torre.
De resto, o mesmo desânimo de sempre…

 
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Publicado por em janeiro 23, 2011 em Caio Fernando Abreu, Cotidiano

 

O amor dos homens

Na árvore em frente
Eu terei mandado instalar um alto-falante com que os passarinhos
Amplifiquem seus alegres cantos para o teu lânguido despertar.
Acordarás feliz sob o lençol de linho antigo
Com um raio de sol a brincar no talvegue de teus seios
E me darás a boca em flor; minhas mãos amantes
Te buscarão longamente e tu virás de longe, amiga
Do fundo do teu ser de sono e plumas
Para me receber; nossa fruição
Será serena e tarda, repousarei em ti
Como o homem sobre o seu túmulo, pois nada
Haverá fora de nós. Nosso amor será simples e sem tempo.
Depois saudaremos a claridade. Tu dirás
Bom dia ao teto que nos abriga
E ao espelho que recolhe a tua rápida nudez.
Em seguida teremos fome: haverá chá-da-índia
Para matar a nossa sede e mel
Para adoçar o nosso pão. Satisfeitos, ficaremos
Como dois irmãos que se amam além do sangue
E fumaremos juntos o nosso primeiro cigarro matutino.
Só então nos separaremos. Tu me perguntarás
E eu te responderei, a olhar com ternura as minhas pernas
Que o amor pacificou, lembrando-me que elas andaram muitas léguas
(de mulher
Até te descobrir. Pensarei que tu és a flor extrema
Dessa desesperada minha busca; que em ti
Fez-se a unidade. De repente, ficarei triste
E solitário como um homem, vagamente atento
Aos ruídos longínquos da cidade, enquanto te atarefas absurda
No teu cotidiano, perdida, ah tão perdida
De mim. Sentirei alguma coisa que se fecha no meu peito
Como pesada porta. Terei ciúme
Da luz que te configura e de ti mesma
Que te deixas viver, quando deveras
Seguir comigo como a jovem árvore na corrente de um rio
Em demanda do abismo. Vem-me a angústia
Do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de ar
Que te circunda – o espaço
Que separa os nossos tempos. Tua forma
É outra: bela demais, talvez, para poder
Ser totalmente minha. Tua respiração
Obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher.
Tu tens seios, lágrimas e pétalas. À tua volta
O ar se faz aroma. Fora de mim
És pura imagem; em mim
És como um pássaro que eu subjugo, como um pão
Que eu mastigo, como uma secreta fonte entreaberta
Em que bebo, como um resto de nuvem
Sobre que me repouso. Mas nada
Consegue arrancar-te à tua obstinação
Em ser, fora de mim – e eu sofro, amada
De não me seres mais. Mas tudo é nada.
Olho de súbito tua face, onde há gravada
Toda a história da vida, teu corpo
Rompendo em flores, teu ventre
Fértil. Move-te
Uma infinita paciência. Na concha do teu sexo
Estou eu, meus poemas, minhas dores
Minhas ressurreições. Teus seios
São cântaros de leite com que matas
A fome universal. És mulher
Como folha, como flor e como fruto
E eu sou apenas só. Escravizado em ti
Despeço-me de mim, sigo caminhando à tua grande
Pequenina sombra. Vou ver-te tomar banho
Lavar de ti o que restou do nosso amor
Enquanto busco em minha mente algo que te dizer
De estupefaciente. Mas tudo é nada.
São teus gestos que falam, a contração
Dos lábios de maneira a esticar melhor a pele
Para passar o creme, a boca
Levemente entreaberta com que mistificar melhor a eterna imagem
No eterno espelho. E então, desesperado
Parto de ti, sou caçador de tigres em Bengala
Alpinista no Tibet, monje em Cintra, espeleólogo
Na Patagônia. Passo três meses
Numa jangada em pleno oceano para
Provar a origem polinésica dos maias. Alimento-me
De plancto, converso com as gaivotas, deito ao mar poesia engarrafada, acabo
Naufragando nas costas de Antofagasta. Time, Life e Paris-Match
Dedicam-me enormes reportagens. Fazem-me
O “Homem do Ano” e candidato certo ao Prêmio Nobel.
Mas eis comes um pêssego. Teu lábio
Inferior dobra-se sob a polpa, o suco
Escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu seio
E tu te ris. Teu riso
Desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se, funde-se o cano de descarga
Quantidades insuspeitadas de estrôncio-90
Acumulam-se nas camadas superiores do banheiro
Só os genes de meus tataranetos poderão dar prova cabal de tua imensa
Radioatividade. Tu te ris, amiga
E me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo
De morrer. Interiormente
Procuro afastar meus receios: “Não, ela me ama…”
Digo-me, para me convencer, enquanto sinto
Teus seios despontarem em minhas mãos
E se crisparem tuas nádegas. Queres ficar grávida
Imediatamente. Há em ti um desejo súbito de alcachofras. Desejarias
Fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos condicionados
De Pavlov. Depois, sorrindo
Silencias. Odeio o teu silêncio
Que não me pertence, que não é
De ninguém: teu silêncio
Povoado de memórias. Esbofeteio-te
E vou correndo cortar o pulso com gilete-azul; meu sangue
Flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa de costura
E coses com linha amarela o meu pulso abandonado, que é para
Combinar bem as cores; em seguida
Fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta
Transfusão. Eu convalescente
Começas a sair: foste ao cabeleireiro. Perscruto em tua face. Sinto-me
Traído, delinqüescente, em ponto de lágrimas. Mas te aproximas
Só com o casaco do pijama e pousas
Minha mão na tua perna. E então eu canto:
Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza
Corrói minha carne como um ácido! Teu signo
É o da destruição! Nada resta
Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento
De todo o meu inútil, a causa
De minha intolerável permanência! Tu és
Uma contrafação da aurora! Amor, amada
Abençoada sejas: tu e a tua
Impassibilidade. Abençoada sejas
Tu que crias a vertigem na calma, a calma
No seio da paixão. Bendita sejas
Tu que deixas o homem nu diante de si mesmo, que arrasas
Os alicerces do cotidiano. Mágica é tua face
Dentro da grande treva da existência. Sim, mágica
É a face da que não quer senão o abismo
Do ser amado. Exista ela para desmentir
A falsa mulher, a que se veste de inúteis panos
E inúteis danos. Possa ela, cada dia
Renovar o tempo, transformar
Uma hora num minuto. Seja ela
A que nega toda a vaidade, a que constrói
Todo o silêncio. Caminhe ela
Lado a lado do homem em sua antiga, solitária marcha
Para o desconhecido – esse eterno par
Com que começa e finda o mundo – ela que agora
Longe de mim, perto de mim, vivendo
Da constante presença da minha saudade
É mais do que nunca a minha amada: a minha amada e a minha amiga
A que me cobre de óleos santos e é portadora dos meus cantos
A minha amiga nunca superável
A minha inseparável inimiga.

Paris, 07.1957
Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”

 
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Publicado por em janeiro 22, 2011 em Vinicius de Moraes

 
 
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