Na verdade, não era o assobio em si, como Laila percebeu um pouco mais tarde, mas os segundos que transcorriam entre o momento em que ele começava e a explosão. Aquele tempo breve e interminável em que a gente fica em suspense. A sensação de não saber. A espera. Como um acusado prestes a ouvir o veredicto.
- Khaled Housseini in “A cidade do Sol”
Arquivo do mês: março 2011
Assobio
É o infinito
Tive vontade de gritar-lhes: “Não acreditem em mim! Eu também não sei nada! Só sei que diante de mim existe aberta uma grande porta escura, e além dela é o infinito – um infinito que não acaba nunca. Só sei que a vida é muito curta demais para viver e muito longa demais para morrer!”
Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”
Eu vivo dizendo que talvez a vida seja curta demais pra tanto livro que eu gostaria de ler. Eu nem devia estar aqui, devia estar no sofá devorando a pilha de livros que eu compro há anos e nunca li. E os emprestados também, porque essa pilha também aumenta. E deletar a lista de recomendados, porque vai que não dá tempo nessa vida!
E por fim, devo esforçar-me pra conhecer a obra de quem é reconhecido em vida ou em morte.
Retorno
De vez em quando me alegra que Henry parta, mas sempre estou contente quando retorna.
- Audrey Niffenegger in “A Mulher do Viajante no Tempo”
O que guarda de estrela
Nessa feiúra extrema no intuito de recortar o que ela ainda guarda de estrela. (…) Estrela-pessoa e estrela-palavra.
Clarisse Fukelman in “Introdução – A hora da estrela (Clarice Lispector)”
Ligação verdadeira
Mal a outra a pegava no colo, Aziza metia o dedo na boca e aninhava a cabeça no ombro de Mariam, que a embalava um tanto sem jeito, com um sorriso meio surpreendido, meio encantando nos lábios. Na verdade, nunca tinha sido tão querida. Nunca alguém lhe tinha declarado o seu amor de uma forma tão espontânea, tão sem reservas.
Aziza lhe dava vontade de chorar.
- Por que você entregou esse coraçãozinho a uma velha feia como eu? – murmurava ela junto à cabeça da menininha. – Hein? Será que não percebe que não sou ninguém? Sou uma dehati. O que acha que tenho pra lhe dar?
Mas Aziza balbuciava toda satisfeita, se aconchegando ainda mais naquele colo. E, quando isso acontecia, Mariam se desmanchava. Seus olhos se enchiam de lágrimas. Seu coração pulava de alegria. E ela ficava deslumbrada ao ver que, depois de tantos anos do mais absoluto desamparo, tinha encontrado, naquela criaturinha, a primeira ligação verdadeira numa vida em que todas as relações tinham sido falsas ou não tinham dado certo.- Khaled Housseini in “A cidade do Sol”
Cine Belas Artes x Shopping Consolação
Sabe que eu fiquei comovida pensando no fechamento do Belas Artes sem nem saber de que cinema estávamos falando. Eu podia jurar que o Belas Artes era o Espaço Unibanco, onde tem a lanchonetezinha vegetariana. Nesse prédio eu fui uma única vez, há anos atrás. A sala era minúscula, os bancos pareciam mais o sofá antigo da minha avó: um corino vermelho. Nunca tinha ido numa sala de exibição tão pequena! Mas também, convenhamos, quantas pessoas iriam assistir um documentário sobre as regionalidades brasileiras? Apenas eu, minha amiga e o Maurício Kubrusly. Se não me engano, era exatamente ele sentado ali na sala, uma fileira pra trás da gente. A Thaís que me cutucou avisando. E eu sorri, porque naquele instante me senti uma pessoa de cultura elevada.
Ainda falando sobre cultura, ontem estava conversando com um consultor que presta serviço onde trabalho. Comentávamos sobre como algumas peças de teatro exigem um nível cultural diferente pra que sejam agradáveis. Contei a ele sobre a minha experiência com “Rent, um canto preso”. Não tenho certeza se era exatamente esse nome. Também fui acompanhada dessa amiga ao festival de teatro do Sesi, onde a primeira peça daquela temporada era essa que citei. A peça era totalmente sem diálogos, era uma espécie de dança conteporânea que tratava sobre nazismo, campo de concentração e homossexualidade. Mas o ápice foi logo no começo, onde numa cena simulando uma circuncisão, o ator ficou completamente nu enquanto outro carregava uma tesoura nas mãos. De repente as pessoas gritam, levantam, saem da sala. Eu e minha amiga ficamos com vergonha do preconceito contra o nu artístico.
Hoje recebi o jornalzinho do metrô anunciando que ainda não foi decidido o que fazer com o Belas Artes, que a vontade do dono é transformá-lo numa loja. E com a imagem ilustrando a notícia do jornal é que percebi meu equívoco. O Belas Artes é aquele cinema ali no encontro da Consolação com a Paulista. Meu Deus, aquele cinema, logo aquele cinema? Eu perdi as contas de quantos filmes assisti lá! E não só filme diferente como “Zatoichi”, mas assisti filmes pops também como “Procurando Nemo”. O melhor de tudo é que se podia comprar pipoca lá fora, com o pipoqueiro por R$ 2,00!
E querem fechar o cinema pra construir uma loja? Que loja? Uma galeriazinha de produtos made in china importados do Paraguai?
Com isso só posso concluir que uma pessoa bem arrumada vale mais que uma inteligente. Mas isso, minha gente, é porque obviamente uma pessoa inteligente tem opiniões. E voz.
E nesse país, não é do interesse público e governamental, que existam pessoas assim.
Por isso o BBB tem mais audiência e patrocinadores que um documentário sobre a realidade brasileira.
Triste conclusão, aliás.
Como é difícil comprar um livro
Antes de contar minha saga, preciso dizer que ganhei um vale-livro da Saraiva. Aí começou meu tormento, porque eu não sabia que livro eu queria e perdi dias pensando em qual escolher.
Quando por acaso, enquanto eu procurava coisas pra umas histórias que estou escrevendo, encontrei o sonhado livro: “Yakuza moon”.
Aí entrei no site da Saraiva e encontrei o livro, só que meu vale-livro só vale pra lojas físicas. Lá fui eu ligar pra duas lojas pra ver se tinha o livro. Não tinha. Mas disseram que eu podia encomendar, mas tinha que ir pessoalmente. E que meu vale livro ia servir! Porque eu estava com medo de só poder encomendar deixando um “sinal” em dinheiro.
Só que quando eu fui numa loja, disseram que não podiam encomendar. Só faziam isso se tivésse o livro fisicamente em alguma loja e como não havia, não podiam fazer nada. Mas por que não disseram isso pelo telefone? Aliás, eu SABIA que não tinha livro em loja nenhuma porque eu liguei pra me informar!!!
Então consegui na internet, uma loja que vendia o livro. O prazo de entrega era de 16 dias. E não iria aceitar meu vale-livro Saraiva, obviamente.
Sexta feira passada descobri que a própria editora do livro, vende diretamente! Então perdi a tarde inteira tentando comprar com formas de pagamentos inusitadas, porque esqueci meu cartão de crédito em casa. E não consegui! A editora não autenticava com o banco diretamente, não emitia o boleto. Meu banco não fazia transferências porque não tenho autorização no bankline. Então segurei minha paciência e jurei tentar no sábado.
Só que sábado, o site da editora estava fora do ar! Fora do ar!!!
Só pode ser uma manipulação da máfia pra eu não ler esse livro! E só por isso, eu VOU comprar esse livro!
[MW] Repelir a Yakusa – Parte 1
Comprou um chiclete no mercadinho 24hs. Tinha adquirido esse hábito insuportável recentemente. Deixou de fumar e começou a mascar gomas. Primeiro, anti-tabaco e agora tuti-frutti. Comprou um envelope que continha cinco unidades que seria suficiente até a noite seguinte quando compraria um novo envelope, como fazia rotineiramente. Tirou umas moedas da jaqueta e pagou o caixa. Não encarou a câmera de segurança. Isso era um detalhe que havia aprendido: nunca encarar as câmeras de segurança. Também havia aprendido outras lições, algumas doeram em suas veias, pele e músculos. Mas naquele dia estava sossegada, estava indo para casa quando a chuva a pegou desprevinida. Refugiou-se no mercadinho onde resolveu comprar as gomas de mascar.
Quando saiu, a porta ainda atrasou alguns minutos para se fechar. A alavanca de fechamento parecia meio enferrujada.
A rua estava vazia, tinha aquela luz amarelada e o chão parcialmente molhado ainda da garoa que havia caído alguns minutos antes. Além de um carro ou outro que passava pela rua, só ouvia-se o salto martelando no chão.
Então ela viu o Nissan 370Z vermelho estacionado na rua. Nenhum carro colado na frente ou atrás. O coração dela acelerou. Olhou em volta, não viu ninguém. Aproximou-se da janela do carro e olhou dentro. Tinha um carro desses quando ainda morava com a família em Tóquio. Não tinha carteira de motorista ainda mas o irmão mais velho já deixava que ela se aventurasse a dirigir pela noite. Foi um misto de saudade, de raiva, de independência que a levou a fazer o que fez.
Deu dois passos para trás e coiceou com o salto de metal da bota. O vidro quebrou mas o insufilme impediu que estilhaçasse no chão. Deu um novo chute e o local onde antes havia um vidro, agora estava totalmente livre para ela agir.
New York 18:30
O Sol começava a sumir por detrás dos arranhacéus de Nova York, foi quando o Lutador aposentado resolveu que já estava frio o suficiente na rua para sair de casa, não suportava o calor e não entendia como os americanos conseguiam sair todos os dias para trabalhar com seus ternos num calor infernal, já havia acostumado a sar no frio e bem avontade com seu abrido de ginásio e seu velho capote por cima, gostava do fato de não terque sair durante o dia, se não fosse a chuva que caíra instantes atrás talvez ele nem tivesse saido tão cedo.
Entrou no bar Irlandes do outro lado da rua, um daqueles parecidos com pubs ingleses, a porta ainda estava com a placa de fechado para fora, mas quando se é da familia, não existem portas fechadas em nenhum lugar de Nova York, precisava beber, aquele hotel barato não tinha bebida de verdade.
Quando o dono do bar o vê faz um comprimento curto com a cabeça, e volta com um copo e uma garrafa de wisky envolvida num saco de papel, o dono do bar sai sem dizer nada, ele bebe o liquido do copo em um unico gole, e sai com a garrafa enfianda num bolso interno do casaco, esfrega as mãos e estufa o peito respirando fundo o ar frio de Nova York, não queria ter que voltar para o hotel, mas não podia ficar a vista por ai, o chefe foi bem claro quanto a isso, precisava voltar logo para o hotel e ficar longe de problemas.
Encostou no muro do bar e ficou olhando pro outro lado da rua enquanto colocava as luvas de couro nas mãos, o velho lutador tinha orgulho de conhecer bem a vizinhança, não gostava de nada que não conhecesse, e não gostou nenhum pouco quando viu uma mocinha, até que bem bonita, com a cara enfiada na janela do carro do seu primo, não que ele gostasse do Primo, mas não gostava de estranho e muito menos de estranhas bonitas demais para ele, nessa hora já havia esquecido que devia ficar longe de problemas e enquanto ouvia o vidro estilhaçar atravessou andando até estar perto o bastante da garota.
-Ei guria. Acho que cê ta longe demais de casa, e tenho a impressão de que essa carro não é teu.
Mika estava inclinada, alcançando a trava pela parte interna da porta do Nissan.
- Impressão sua, só perdi as chaves.
Só então, ela levantou-se e virou-se para encarar o estranho sujeito. A mão dela apoiada na parte superior da porta revelavam uma mão delicada, dedos alongados e unhas compridas pintadas de um vermelho sangue. Abria a porta do carro já movendo-se para entrar nele. A porta vermelha, aberta, combinando com o tom do esmalte, era o que separava Mika do estranho.
… Continua …
PS: Texto em conjunto com John Doe
Você e sua luz
Repensar a vida e principalmente a existência desse blog tem sido meu hobby por uns meses. Pergunto por que eu deixei de desenhar e não encontro a resposta. Talvez porque eu prefira “copiar” a desenhar? Queria saber qual o persogem que eu mais nas HQs pra desenhá-lo. E no segundo seguinte me odeio pelo plágio e quero algo novo, mesmo que inspirado em algo que já existe.
O calor me cansa. A chuva me cansa. Cansa também essa condução sempre lotada. Mas o que cansa mais ainda é a falta de dinheiro e a falta de esperança.
Já nem sei mais o que esperar, o que eu quero. Só sei do que eu desisti e abri mão há tempos.
E entre tantos questionamentos, não tenho lido como eu gosto, nem o que eu quero quando eu quero. Leio o fácil. E eu gosto do complexo.
Queria ter dinheiro pra ter uma rede no quintal e ler meu livro sentindo uma brisa. Engraçado… eu tenho uma rede no quintal, mesmo sem ter dinheiro.
Já me perguntaram por que eu não escrevo um livro. E eu desejo. Mas nunca fui atrás. Não ter dinheiro é desculpa pra muita coisa.
Ontem minha mãe veio dizer que o vizinho comentou pra outra vizinha que contou pra ela, que eu dirijo mal. Nunca dei carona pra ele. E ele só me vê guardando ou tirando o carro da garagem, o que acho uma amostragem pequena pra tirar certas conclusões. Minha mãe também reclama quando eu estaciono longe da calçada, sendo que longe é definido por 10cms ou mais. Ela não dirige, nunca dirigiu.
Então recebo um texto surpreendente e penso: “porque eu não pensei nisso antes” ?
Algumas histórias, eu não tenho com quem compartilhar. Ou não quero, não sei exatamente.
Mas entre tantos questionamentos, uma única coisa é certa: sua luz.
Você contagia tudo. Sua luz ilumina até os dias de blackout comuns nessa cidade chuvosa.
Sua luz ilumina meus dias. E também me cega.
E por esse segundo, não penso em mais nada.
Você e sua luz. Que são as únicas coisas que nunca questionei, que nunca duvidei, que nunca me arrependi, que nunca trocaria por todo o dinheiro do mundo.
Você e sua luz e a paz que sinto.
E mais nada.
Shakes
Eu tenho uma certa restrição com shakes. O primeiro que tomei era de baunilha e fiz conforme as instruções. Bati o leite desnatado e a porção do produto no liquidificador. O resultado? O negócio quadruplicou de volume. Aí quando fui provar, era pura espuma. Não agüentei tomar pois não gosto de espuma. E tentei ainda deixar o liquido descansar por um tempo pra espuma baixar, mas apesar de a espuma ter reduzido drasticamente ainda não era possível separar uma quantidade boa de liquido para tomar. Depois daquele, encontrei um que me adaptei melhor, o de “vitamina mista”. Mas esse eu apenas coloco no copo de leite e tento dissolver o máximo possível. Como eu não bato, não gera espuma. E também aprendi a tomar antes dele descansar muito no copo e ficar pastoso. Agora a fermentação acontece dentro do estomago e realmente, você fica com uma sensação de saciedade por um bom tempo. Eu não consigo substituir uma refeição por ele, porque preciso mastigar coisas sólidas no almoço/jantar, por isso tomo o shake como lanche da tarde.



