(… ) a presença daquela alma – atormentada como a minha própria. Espiava-me, como espiava Salomão: de trás de uma pilha de pergaminhos, de sob a mesa onde eu trabalhava. Só que não me causava medo, essa invisível presença. Ao contrário, fascinava-me: tínhamos muito em comum. Também eu vagava pela vida em busca de meu lugar. Eu também me sentia escorraçada, marginalizada. Aquela alma gentil, que tão cedo da vida se partira, aquela alma, eu a queria. Se pudesse atraí-la, se pudesse sugá-la para dentro de mim, se pudesse incorporá-la, enfim…
- Moacyr Scliar in “A mulher que escreveu a Bíblia”
Arquivo do mês: abril 2011
Aquela alma
O jeito é ser
Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser.
Clarice Lispector in “A hora da estrela”
Recordações
Preciso de coragem, coragem para lembrar. Preciso de forças, e de força de vontade.
Repasso com dificuldade as minhas recordações e a dor gruda como lama; o ódio, que tinha desaparecido gradualmente neste mundo branco de doenças, volta correndo de repente.
- Xinran in “As Boas Mulheres da China”
Ausência
De jovem não soube compreendê-lo, mas agora sim, agora entendo que a ausência possa estar presente, como um nervo prejudicado, como um ave sombria.
- Audrey Niffenegger in “A Mulher do Viajante no Tempo”
Justificável
Dizia o grande Ésquilo que “tudo o que existe é justo e injusto, e nos dois casos igualmente justificável”.
Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”
Poeta de Fogo
Para William Garibaldi,
Papel amarelado sobre a mesa
Lamparina ao seu lado
Quis fazer um verso novo
E chorei desconsolado
Sozinho recordei
Tantos amores em vão
Sofri minha vida inteira
Tanto dói meu coração
Meus amores não deram certo
Desde cedo essa sina
Insisti em ser romântico
Mas desisti da rima
Pensei em desistir do amor
Mas isso não se põe em jogo
Com esse carma nasci
Virei poeta de fogo
Por conta disso hoje escrevo
Em brasa, vermelho carnal
Letra cursiva, caligrafia
Um samba de carnaval
Tempo a perder
Dos que sabem que não há tempo a perder, é preciso construir a beleza e a felicidade no mundo, por isso mesmo que no indivíduo é tudo tão frágil e precário.
Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”
Vígilia Pascal
A missa que mais gosto do calendário litúrgico é sem dúvida a “Vigília Pascal”.
Tudo começa com a benção do fogo novo. A igreja toda escura. O nariz começa a coçar quando acendem o incenso. A igreja vai sendo tomada por aquele odor perfumado, esfumaçado, na “completa escuridão”. Então acende-se o círio pascal, que é símbolo do Cristo Ressucitado. O círio, é aquela vela grande que fica acesa durante toda a Páscoa. Nessa vela, os crivos representam as chagas de Jesus, e a letra Alfa e Ômega nos dizem que Deus é príncipio e fim.
O círio entra em procissão solene e toda a igreja vai acendendo suas velas na chama dele. Quando ele chega lá na frente, a igreja inteira está iluminada por velas, como um céu estrelado.
Em seguida, proclama-se a Páscoa: é como um resumo, uma introdução do que vamos celebrar.
Ouvimos as leituras que nos lembram nessa ordem:
- Deus criou o homem. “E tudo quanto havia feito era bom”;
- Deus prometeu uma longa descendência ao testar a fé de Abraão. “Agora sei que temes a Deus“;
- Deus libertou seu povo. “Os filhos de Israel entraram pelo meio do mar a pé enxuto”.
Uma última leitura é também uma promessa: “Cristo ressuscitado dos mortos, não morre mais“.
E então, o grande “Aleluia”, que quer dizer: louvemos a Deus , antecipa o evangelho (boa nova) que vamos ouvir: “Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou como havia dito!”
Após uma orientação e mensagem do padre, renovamos nossas promessas batismais. Os católicos são batizados quando criança porque há muuuuito tempo atrás, acreditava-se que uma pessoa que morresse sem batismo não ia pro céu. Ia pro limbo. Então, quanto antes batizasse a criança, menos risco de ir pro limbo ela corria. Manteve-se isso por tradição.
Os ministros do batismo aspergem a assembléia com água benta, sinal de vida nova. Acendemos nossas velas novamente, sinal da presença de Cristo em nossa vida. E confirmamos nossa fé renunciando o que não é de Deus e ratificando o que acreditamos com a oração do “Creio”.
Em seguida, é igual a todas as outra missas: a oração eucarística. Onde clamamos Deus Santo e recordamos a última ceia de Jesus como pedido por ele “fazei isso em memória de Mim“.
Rezamos também para que nossa celebração seja agradável a Deus, para que um dia estejamos juntos novamente, pela Igreja e seus líderes, pelos mortos para que estejam junto a Deus, e por nós todos, povo pecador.
Pedimos “Por Cristo” a “Paz“. E cheios dessa paz, distribuímos aos que estão ao nosso lado antes de pedir mais uma vez que o “Cordeiro de Deus” tenha piedade de nós.
Então comungamos, que é a participação da ceia de Jesus. A hóstia é uma espécie de pão, é mais fácil de tratar que o pão em si. E nem sempre o vinho é distribuído a toda a assembléia porque afinal, nem todo mundo pode beber, não é?
Depois de alimentados, conversamos com Deus que agora está ali, em nós. Agradecemos, pedimos, apenas ficamos em silêncio.
Rezamos também à mãe de Jesus, que ela interceda por nós como fez nas bodas em Caná.
E vamos em paz, na companhia de Deus, com forças e fé renovadas para mais uma semana.

Eu sou católica. E é assim que a gente celebra a Páscoa.
E desejo uma boa nova pra vocês: “Cristo Ressuscitou, aleluia, aleluia”
Ócio e paz
Em resposta à Wendy.
Aquele tempo livre que você não sabe o que fazer que fica perdida ou de bobeira, podia ir no cinema, ler um livro, podia dormir ou ver um filme.
Podia escolher qualquer coisa pra fazer na vida, um mundo de possibilidades. Isso é ócio.
É o vazio que não incomoda, que não tem forma, que pode ser preenchido com jujubas ou heavy metal.
É o descompromisso, o descompasso, o passo de balé clássico.
É hortelã e tuti frutti del mondo.
É o segundo antes da escolha, da decisão, com o cardápio na mão e desejando outro restaurante.
O tudo é ócio.
É o excesso de informação ou a completa falta.
É pau, pedra é o fim do caminho.
É caminho novo, multicolorido.
Sem compromisso, sem horário, pé na areia e as ondas vem beijar.
Entende? É o qualquer coisa e ao mesmo tempo tudo o que eu quiser.
É uma sensação de liberdade, de voar alto e pular no mar.
Virar sereia e ser princesa, garotinha má.
Um papel em branco e caneta na mão, preenchem o ócio.
Já paz, ah, paz.
Paz é alívio pra quem estava cansada do que tinha antes.
Paz é conforto pro desalento.
Paz é o silêncio no meio do caos.
Paz é por o pé pra cima e dizer “acabou”.
Paz é o “chega” que devia ter sido dito e não se teve coragem.
Paz é quase assim, parar de sofrer.
Por isso escolhi ócio e não paz.
Porque o tempo que me sobra agora, antes era preenchido da forma que eu escolhi.
Mas é tempo de novas escolhas.
A mudança não foi exatamente alívio, porque não foi brusca.
Porque antes não era sofrimento ou dor.
Ócio é descobrir que desde antes tinha-se tudo.
E ainda não sei o que fazer.
Grande salto
De imediato me apaixonei por ele. Uma paixão avassaladora, definitiva, a paixão que, eu tinha certeza, daí em diante governaria minha vida. Bendito o momento em que ele resolvera me chamar. Bendita a carta que me mandara. Bendita a boca que ditara as palavras daquela carta, bendito aquele homem, aquele lindo homem. Eu podia passar anos olhando-o, em muda adoração. Finalmente descobria o amor. O pastorzinho? Não, aquilo fora apenas um teste, um treino. Com ele, meu coração se preparara para o grande salto da paixão. Que estava agora tão próxima.
Moacyr Scliar in “A Mulher que Escreveu Bíblia”



