(… ) a presença daquela alma – atormentada como a minha própria. Espiava-me, como espiava Salomão: de trás de uma pilha de pergaminhos, de sob a mesa onde eu trabalhava. Só que não me causava medo, essa invisível presença. Ao contrário, fascinava-me: tínhamos muito em comum. Também eu vagava pela vida em busca de meu lugar. Eu também me sentia escorraçada, marginalizada. Aquela alma gentil, que tão cedo da vida se partira, aquela alma, eu a queria. Se pudesse atraí-la, se pudesse sugá-la para dentro de mim, se pudesse incorporá-la, enfim…
- Moacyr Scliar in “A mulher que escreveu a Bíblia”
abr30