“Viver num mundo sem tomar consciência do significado do mundo é como vagar por uma imensa biblioteca sem tocar os livros.
- Os Ensinamentos Secretos de Todos os Tempos”- Dan Brown in “O Símbolo Perdido”
Arquivo do mês: julho 2011
Sem tocar os livros
Quando iam mal
Lembrei-me das primeiras vezes em que as coisas iam mal e não tinha lugar para onde ir. Talvez isso me tenha feito bem. Antes era assim. Mas agora não estava interessado no que era bom para mim. Estava sobretudo interessado em como me sentia e em como evitar sofrer quando as coisas corriam mal. Sobretudo como sentir-me bem de novo.
Charles Bukowski in “Mulheres”
Para alguém casado, brigado, separando-se
Bom dia!
Eu ia dizer que nem sei por que estou enviando esse email, mas eu sei sim.
Eu já vivi um caso parecido com o que você propõe: casado, separando-se, em busca de amizade/amante. E não deu certo.
Quem sempre foi solteiro ainda mantém certas ilusões.
E arrumar alguém pra compensar uma deficiência de um relacionamento não é bacana, a gente precisa estar inteiro, disponível, para ser feliz e fazer o outro feliz. Não adianta usar alguém pra calçar o que nos falta, como se fôssemos um móvel que balança, que precisa de equilíbrio.
Desculpe dizer essas palavras, talvez muito dura, talvez desnecessárias.
Enfim, se seu interesse for uma amizade, quem sabe não descobrimos alguma afinidade, conversamos sobre assuntos diversos.
É o que tenho a oferecer.
F.
Medo de se apaixonar
Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.
Fabricio Carpinejar
Pra quem quer esquecer
Antes de tentar esquecer algo/alguém é preciso saber que não é pra sempre. Que vira e mexe você vai esbarrar com a lembrança. É o perfume, são as palavras, é o lugar, é a presença física mesmo, ali, passeando na rua ao lado dos amigos fingindo que não te conhece ou pior ainda, te conhecendo e te olhando sem graça.
Mas seja forte, determinada em suas resoluções. Porque esquecer alguém, você sabe, não é fácil.
A tentação de voltar atrás, a esperança de que pode ser apenas um mal entendido, de que se você se esforçasse mais podia ser diferente, não vai te abandonar nunca. Os ‘e se’ vivem a nos rodear como fantasmas.
E o pior fantasma que vai te atormentar é aquela maldita idéia de que aquilo era pra você, de que aquilo era pra acontecer, de que ele era o homem da sua vida, de que não vai mais viver sem ele, que nunca vai amar novamente. Mas isso é uma mentira que você está contando pra si mesma porque tem medo. Medo do fracasso, da solidão, medo de tentar de novo. Pior ainda, medo de aceitar de que aquilo te fazia mal e que as coisas boas só existiam na sua cabeça. As relações se desgastam se os dois não se reinventam todo dia, se os dois não souberem respeitar e vez em quando baixar a guardar, ceder, abrir concessões.
Tem gente que diz que foi de repente que alguém decidiu terminar o relacionamento, que sumiu, que acabou. Só a morte é de repente. O restante acontecia debaixo dos nossos olhos o tempo todo, a gente que fechava eles e vivia dentro da gente a fantasia e a esperança de que era passageiro, de que todo mundo é assim, de que é desse jeito mesmo. Que só você amava? Tenho certeza que não.
Então, deixe de justificativas e aceite que é preciso esquecer. Que depende exclusivamente de você aceitar que aquilo te fazia mal também, que talvez não era a hora certa e seguir adiante. A vida continua e não se desespere com o que eu vou dizer, mas você vai fracassar de novo. Inevitavelmente vai amar novamente, vai sofrer novamente, vai querer esquecer novamente.
Então apegue-se a essa lição preciosa: já que esquecer é tão difícil, então lembre o tempo todo, a toda hora, de você. Sim, de você!
Ame-se!
Permita-se fazer um curso de artes, de dança, ginástica. Conheça novos lugares, viaje mesmo sozinha. Não tenha medo de ousar, cortar o cabelo, trocar o jeito de se vestir. Faça novos amigos. E não tenha medo de sair com novas pessoas, se envolver, beijar e beijar, amar. Mas não caia na ilusão de que essas coisas gerarão desconfiança e ciúmes do seu objeto de esquecimento. Não ache que isso vai fazer ele voltar atrás, porque se ele voltar é porque você mudou e está amando a si mesma. O que só prova que você sabe esquecer sim, esqueceu de si mesma durante um tempo.
Então ame-se! Não há nada mais prazeroso, mas recompensador, mais garantido e duradouro que amar a si mesmo.
Ocupe sua mente aprendendo uma nova língua, assistindo todos os filmes daquele ator que você gosta tanto, aprendendo uma luta, leia todos os livros de Jane Austen sem pressa. Aprenda a fazer bijouterias, a decorar unhas, a fazer luzes no cabelo. Ocupe-se com você!
Depois de decidir esquecer alguém, num primeiro momento evite o que lembra essa pessoa, evite os caminhos, evite bisbilhotar perfis em redes sociais. Liberte essa pessoa da sua vida. Mas isso estou comentando apenas por comentar, porque afinal, já disse que se você se ocupar com você nem vai ter tempo de pensar no passado.
A vida é tão curta pra gente perder um dia sequer se amargurando. Remoer os sentimentos, guardar mágoa, faz mal apenas pra gente. Guarde apenas a experiência, acredite que tudo o que você viveu só te preparou pra algo extraordinário que ainda está por vir.
Sabe aquela sensação de estar saindo e esquecendo algo? Ela sempre vai te rondar. Então apenas respire fundo, confira se foram os documentos ou um “troquinho pro ladrão” ($), as chaves, o creme pras mãos ou um batom. E se não foram eles, segue em frente. Tudo o mais pode ser esquecido, o essencial já está com você. Dentro da bolsa ou do coração.
Cartas para ninguém – IV
Querido,
Estranho ouvir suas histórias. Ouvir que amou uma doce menina que era linda, e depois sobre a última megera de que se livrou que era linda, me doeu. Doeu não porque amou outras, porque teve histórias longas. Se esses relacionamentos duraram anos é porque você é alguém que se envolve, que se permite amar, que tem esperança nas relações. Você mesmo sofrendo insistiu, e amando desistiu, demonstra que você tem coração e sofre como qualquer outro. Eu esperava que você fosse insensível, que não ligasse a mínima e saísse com todas e várias e quantas mais melhor. E parte sua é assim, mas antes de se envolver.
É muito triste visitar o passado com tanto rancor e pesar. Não podia ser você? Tinha que ser você? Enfim, você.
Normalmente as pessoas gabam-se das muitas conquistas, de todas. Você gabou-se do duradouro, do que marcou e doeu mais. Nas suas histórias vi sua fragilidade mascarada de palavrões e desdém.
Então doeu em mim, profundamente. Porque tive um vislumbre do nosso fim, de que certamente não serei citada numa futura conversa com seu novo amor. Doeu porque eram lindas suas namoradas. Lindas demais.
E pra mim, a gente ainda não se encontrou, ainda não funcionou direito. Falta alguma coisa que sei o que é, mas não sei reparar.
Falta beleza, fluidez, dança.
Falta poesia!
E nenhuma história pode ser linda sem ela.
Fechada em fantasias que acontecem dentro de mim quando fecho os olhos, despeço-me.
Ainda não estou preparada para ficar sem seus beijos.
F.
Lavar a dor
Eu costumava sonhar que encontraria um jeito de lavara minha dor, mas será que posso lavar a minha vida? Posso lavar o meu passado e o meu futuro?
Freqüentemente examino meu rosto com atenção no espelho. Parece liso de juventude, mas eu sei que tem as cicatrizes da experiência: é despido de vaidade e muitas vezes mostra dois vincos fundos na testa, sinais do terror que sinto dia e noite. Meus olhos não têm nada do brilho ou da beleza dos olhos de uma garota. No fundo deles há um coração que se debate. Dos meus lábios machucados foi raspada toda a esperança de sensação; minhas orelhas, fracas por causa da constante vigilância, nem agüentam um par de óculos; meu cabelo, que deveria brilhar de saúde, não tem vida, por causa da preocupação. É esse o rosto de uma garota de dezessete anos? O que são as mulheres, exatamente? Os homens devem ser classificados na mesma espécie que as mulheres? Porque é que eles são tão diferentes? Livros e filmes podem dizer que é melhor ser mulher, mas não consigo acreditar. Nunca achei que isso fosse verdade e jamais vou achar.
- Xinran in “As Boas Mulheres da China”
Cartas para ninguém – III
M.,
Fiquei surpresa com seu pedido de desculpas. Imagina, eu que fiz o possível para dificultar nosso encontro e você pede desculpas. Não sei se foi coincidência, talvez nosso destino seja o desencontro. Ou ainda, você adivinhou e tomou uma das atitudes mais lindas que reconheço: assumir a culpa pra fazer o outro feliz.
Sua mensagem chegou e sorri, após respirar com alívio. Apesar do meu empenho, essa planta ainda não morreu, ainda é possível ver um raminho verde lutando pra sobreviver entre as pedras.
Quero dizer que lhe perdoô sim. Perdoô por insistir nisso aqui, em mim, na gente.
Perdoô principalmente porque tenho saudades.
Infinitas.
Dos seus beijos,
F.
Sem saber por quê
As cicatrizes lá estavam, o nariz de alcoólico, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas, e lá estava também o sorriso estúpido, contente e ridículo de um homem feliz sem saber por quê.
Charles Bukowski in “Mulheres”



