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Arquivo do mês: agosto 2011

Cartas para Ninguém – VII

M.

Custo a entender seus longos períodos de ausência. Creio que querem demonstrar seu desinteresse, sua independência, sua masculinidade que o faz estar acima nessa situação.
Os vazios e silêncios que você planta entre nós afirmam nosso descompromisso.
Eu sou bem direta, você sabe. Então preciso deixar claro que eu não estou atrás de compromisso sério, do tipo… casamento, levar você pra passar uma noite em casa assistindo tv no sofá.
Gostava de estar com você, gostava bem no começo quando me inundava de atenção e me deixava confusa. Naquele tempo eu cheguei a pensar que de repente essa vez podia ser diferente, que talvez você fosse aquele pessoa que viria mudar minhas resoluções.
Mas aquela situação totalmente inusitada pra mim, de você ter um discurso defendendo a independência e agir de forma totalmente diferente, finalmente passou.
Agora estou no terreno seguro e que conheço bem: a certeza do fim.
Sigo vivendo sem esperar seu telefonema, seu contato. Chego a pensar que devia ter desfrutado mais a última vez, se eu soubesse que era a última. Ou aproveitar melhor a próxima, que poderá ser a derradeira.
Eu sei que é inevitável que nos encontremos uma última vez. Seus esparsos telefonemas predizem isso.
Só me resta a dúvida se seus períodos de ausência são para que você se encontre ou para que você encontre outro alguém. Torço pelas duas opções pois preciso da certeza absoluta do fim.
A gente, nem chegou a doer. Pena, porque amor que dói muda algo dentro da gente pra sempre.

Saudades,
Ou não.

F.

 
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Publicado por em agosto 31, 2011 em Poetriz

 

Escrever

A maior parte das pessoas contam muito melhor as suas vidas numa carta do que numa conversa; algumas são capazes de escrever cartas artísticas, inventivas, mas tornam-se pretensiosas quando tentam um poema, uma novela ou um romance.

Charles Bukowski in “Mulheres”

 
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Publicado por em agosto 30, 2011 em Charles Bukowski

 

Juras de amor

Quando os hormônios de um homem estão à solta, ele jura amor eterno. Isso gerou resmas e resmas de poemas ao longo das eras: o amor profundo como o oceano ou seja lá o que for. Mas o homem que ama desse jeito só existe em histórias. O homem real alega que ainda não conheceu a mulher digna dessa emoção. E é um especialista em utilizar as fraquezas da mulher para dominá-la. Algumas palavras de amor ou elogio mantêm algumas mulheres felizes por muito tempo, mas é tudo uma ilusão.

- Xinran in “As Boas Mulheres da China”

 
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Publicado por em agosto 29, 2011 em Xinran

 

Punha aspas

Mentiras. Tornavas tua uma graça que era minha, e essa anedota voltava para mim, aumentada, aviltada pelos pontos de humor que tinhas ganho entretendo o coração de alguém, à minha custa. Quando nos conhecemos não eras assim. Citavas-me.
Punhas aspas. O teu encanto era essa – tão rara – cintilação de aspas. Dizias: “Fulano disse-me, Cicrano contou-me”.
Sublinhavas a inteligência e a beleza das palavras dos outros.

Inês Pedrosa in “Faz-me falta”.

 
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Publicado por em agosto 28, 2011 em Inês Pedrosa

 

O resto é detalhe

Eu estou me confundindo e não-dizendo aquilo que queria dizer. O importante, o irreversível, o definitivo, o claro nessa história toda é que eu gosto muito de ti. Muito mesmo. Não adoro nem venero, mas gosto na medida sadia e humana em que uma pessoa pode gostar de outra, O resto é detalhe.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

 
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Publicado por em agosto 27, 2011 em Caio Fernando Abreu

 

O cacto

“O cacto é cheio de raiva com os dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo. Ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa.”

- Clarice Lispector in “Um sopro de vida”

 
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Publicado por em agosto 26, 2011 em Clarice Lispector

 

Frieza no mundo

«Há muita frieza neste mundo», disse eu. «Se as pessoas aceitassem falar nos seus problemas, isso facilitava as coisas.»

Charles Bukowski in “Mulheres”

 
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Publicado por em agosto 25, 2011 em Charles Bukowski

 

Cartas para Ninguém – VI

M.

Nem sempre o mistério é um afrodisíaco. É preciso conhecer o mínimo de alguém para se confiar nele, e sem confiança não há entrega. Nem do coração.
Entendo que queira guardar coisas só para si, que talvez você acredite serem irrelevantes ou até mesmo “não venha ao caso” ou “não seja a hora” de se falar de certas coisas. Mas tudo o que você cala ou posterga gera mais dúvidas. Na verdade, certezas mentirosas que eu mesma concluo.
Talvez seu passado tenha lhe deixado marcas que fizeram com que você criasse um limite à sua volta, uma redoma para sentir-se seguro, para não se envolver a ponto de se entregar novamente, cegamente.
Todo passado lapida nosso presente. Torna-nos mais inseguros, mais exigentes, mais precavidos.
Mas se você não pode esquecer suas marcas, também eu não posso esquecer as minhas.
E se você se abstrai para manter-se seguro, esse afastamento me afasta mais ainda de você.
Não sou capaz de lutar por algo que não sei o que é, que não tenho confiança, segurança, certeza.
A curiosidade infantil morreu em mim há tempos. Hoje, acostumei-me a não querer saber, a deixar para lá, a não me importar, a não me envolver.
Não luto por um baú de tesouro que eu nem sei onde está enterrado, que eu nem sei se existe mesmo, que eu nem sei o que há dentro dele.
É uma grande pena, pois o pouco que você se permite mostrar é adorável.
Fingido ou não, é simplesmente adorável.

Saudades,
principalmente dos teus beijos.

F.

 
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Publicado por em agosto 24, 2011 em Poetriz

 

Abstrato

Eu só queria ver de que material era feito o teu amor por mim. Precisava de escangalhar o teu coração para o fazer encaixar no meu. (…) Sem o teu coração não consigo amar – não me abandones outra vez. Logo eu, que amava o mundo inteiro, não é? Amar em abstrato é muito mais ágil do que amar em concreto.

Inês Pedrosa in “Fazes-me Falta”

 
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Publicado por em agosto 23, 2011 em Inês Pedrosa

 

Tinha pouca importância

Mulheres: gostava da cor das suas roupas; do modo como andavam; a crueldade de alguns rostos; de quando em quando, a beleza quase perfeita dum rosto, encantadoramente feminino. Elas tinham uma vantagem sobre nós: planejavam muito melhor a sua vida, eram muito mais organizadas. Enquanto os homens viam os jogos de futebol, bebiam uma cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam em nós, concentravam-se, perscrutavam, decidiam – aceitar-nos, rejeitar-nos, mudar-nos, matar-nos ou simplesmente viverem conosco.
No fim de contas, isto tinha pouca importância; não interessava o que elas faziam, nós acabávamos na solidão e na loucura.

Charles Bukowski in “Mulheres”

 
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Publicado por em agosto 22, 2011 em Charles Bukowski

 
 
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