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Arquivo do mês: outubro 2011

Primeiro a alma

Mas, como no fundo sou um cavalheiro dos de antigamente, não me aproveito, e com um casto beijo na face me conformei. Porque eu não tenho pressa, sabe? Há por aí pategos que acham que se puserem a mão na bunda de uma mulher e ela não se queixar, já a têm no papo. Aprendizes. O coração da fêmea é um labirinto de sutilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem de pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo.

Carlos Ruiz Zafón in “A Sombra do Vento”

 
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Publicado por em outubro 31, 2011 em Carlos Ruiz Zafón

 

Cartas para Outros Ninguém – I

N.

Ainda me pergunto se você pensa em mim tanto quanto eu em você.
Nossa história ficou mal resolvida, mal amada, mal começada, mal terminada. Terminou mesmo?
Penso que numa hora dessas vou receber uma chamada telefônica sua. A príncipio seria acaso, você diria que nem era comigo que queria falar. Mas incapaz de solicitar o verdadeiro destinatário, arranjaria desculpas pra continuar ouvindo minha voz.
Depois daqueles instantes iniciais de silêncio incômodo, você faria perguntas comuns escondendo a verdadeira pergunta.
Eu diria que estou bem, numa grande mentira, porque a verdade é que não estou nada bem. Ando com muitas saudades de você, esperando por essa iniciativa sua que iria comprovar que você ainda me ama, que sempre me amou. Amou, né?
Então eu também faria perguntas tolas, querendo saber do seu trabalho, do seu curso, de qualquer coisa que pudesse disfarçar a verdadeira informação que eu desejo de você.
Ao fim, falaríamos coisas sem importância, esconderíamos nosso verdadeiro sentimento, fingiríamos educadamente que não nos importamos, que não nos arrependemos, que não queremos uma segunda, terceira, infinitas chances.
E quando desligássemos o telefone, eu iria fechar os olhos arrependida de não ter dito tudo o que queria dizer. E chorar de raiva de não ter ouvido tudo o que eu queria ouvir de você.
Ah, se esse telefone tocasse e fosse você…

F

 
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Publicado por em outubro 30, 2011 em Poetriz

 

Trovoada

Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso.

Inês Pedrosa in “Fazes-me Falta”

 
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Publicado por em outubro 29, 2011 em Inês Pedrosa

 

Todas as famílias

“Conhecia os Arthens? Disseram-me que era uma família extraordinária”, diz.
“Não”, respondo, de pé atrás, “não os conhecia particularmente, era uma família como as outras daqui.”
“É, uma família feliz”, diz a Sra. Rosen, que visivelmente se impacienta.
“Sabe, todas as famílias felizes se parecem”, resmungo para me ver livre da conversa, “não há o que dizer a respeito delas.”
“Mas as famílias infelizes o são cada uma a seu jeito”, ele diz me olhando de um modo estranho, e, de repente, embora pela segunda vez, eu estremeço.
(…)
Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu jeito é a primeira frase de Ana Karenina, que, como toda boa concierge, eu não deveria ter lido, assim como não me é conferido o direito de ter estremecido por acaso ao ouvir a segunda parte dessa frase, num momento de graça, sem saber que era de Tolstoi.

- Muriel Barbery in “A elegância do ouriço”

 
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Publicado por em outubro 28, 2011 em Muriel Barbery

 

Esses sonhos…

Vocês lembram dele? Eu descobri o nome dele há pouco tempo sem querer.
Antes disso tinha pedido pra uma amiga investigar, e ela descobriu que ele se casou recentemente numa história linda! Que a noiva nem sabia que ia casar, que chegou na igreja cedinho num sábado e a família tinha preparado um vestido branco pra ela, tudo uma surpresa. Deve ter sido simples e emocionante.
Apesar da minha amiga ter contado sobre o casamento há meses, ainda não vi a argolinha dourada no dedo dele. O que pra mim não faz sentido, já que se a pessoa quis casar bonitinho, com vestido e surpresa, por que não ia usar uma aliança?
A única confirmação é que ele tem um filho grande. Isso eu já “sabia”. Só que pra mim era sobrinho porque juro que ouvi um dia essa criança chamar ele de tio. Mas pode ter sido meu subconsciente que inverteu as sílabas.
Para os desatualizados, faz anos que é meu amor platônico. Amor platônico é aquele amor seguro, onde a gente idealiza a pessoa e nem se atreve a tirar ela desse pedestal.
Faltou ocasião, depois faltou coragem, depois passou tempo demais. Então ficou nisso mesmo, em nada.
Hoje vai ter um encontro e fomos convidados. Eu vou. Ele, não faço idéia.
E pra amanhecer hoje, sonhei com ele. Sonhei que a gente estava nessa reunião, e ele dizia que sempre quis me conhecer por eu ser obcecada por ele.
Não vamos exagerar também, não sou obcecada, sou apenas curiosa e queria muito, mas muito, saber mais sobre ele.
Teve um beijo.
E eu acordei.
Ai, ai.

 
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Publicado por em outubro 27, 2011 em Cotidiano

 

O só os outros veêm

Uma vez uma colega do colegial me disse que eu devia ser atriz. E eu questionei o por quê. Ela disse “porque você é falsa”. Eu arregalei os olhos e todo mundo da rodinha caiu na gargalhada. Ela ficou sem graça tentando explicar o sentido que ela queria dar ao termo “falsa”. Eu até entendi o que ela quis dizer, mas a história virou guardada e sempre reconto pra alguém.
Dia desses contei essa história pra alguém. E confesso não esperava ouvir o que eu ouvi. Depois da risada, foi a sessão descarrego, onde aproveitaram a “deixa” pra abrir o coração.
Primeiro me chamaram de sarcástica como uma coisa muito ruim. E concluiram que era devido a minha superioridade.
É a segunda vez que ouço que eu me acho superior. Sinceramente, acho que é impressão das pessoas. Eu adoro falar de livros, de filmes. Talvez isso deixe as pessoas inibidas porque de cada 10 pessoas no máximo 1 é leitora. E muita gente prefere assistir o programa do Faustão do que ver um filme francês. Talvez esse meu lado meio cult assuste.
Outra que ouvi esses dias é que sou duas caras. Não foram essas exatas palavras, mas foi essa a intenção. Claro, justifiquei que a ocasião e o ambiente, transformam a pessoa. E não sei vocês, mas eu detesto estar enrolada no trabalho e alguém de outro departamento, sem avisar nem nada, chegar ao meu lado e querendo que eu pare tudo pra resolver o problema dele.

Esse desabafo todo porque vi um post no blog da Wendy sobre coisas ruins sobre a gente, e vou me apropriar de todos os itens que ela citou!

1º Sou rancorosa. Minha memória é de elefante. Eu reconheço gente que não vejo desde a infância e sei até o nome. Agora imagine se eu iria esquecer o que alguém algum dia fez pra mim e me magoou? Ah, never.

2º Me desapaixono na mesma rapidez que me apaixono. Acho que esse acaba sendo justificado pelo primeiro. Porque a primeira pisada na bola eu posso relevar, a segunda não vai permitir que haja uma terceira.

3º Desisto fácil. Se tem algo que detesto é complicação. E sabe aquelas situações onde alguém te chama pra sair, e depois chama ciclano, fulano, beltrano e todos eles blablabla. Não conte comigo, porque eu já desisti quando chamaram o ciclano.

4º Sou mais vingativa que egoísta. Não ligo de dividir, mas só eu divido? Ah, não mesmo. Então o meu egoísmo é justificado pelo item 1 e 2. Sou rancorosa e não dou segundas (terceiras) chances. Portanto, me torno egoísta.

Eu sei que tenho mais coisas, mas achei que essas quatro casaram tão bem!
Vou tentar trabalhar melhor o que eu não enxergo, que é a minha falsidade e minha superioridade. ;)

Alguém tem algo mais a acrescentar?

 
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Publicado por em outubro 26, 2011 em Desabafo

 

O primeiro livro

o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo ― não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos, vamos regressar.

Carlos Ruiz Zafón in “A Sombra do Vento”

 
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Publicado por em outubro 25, 2011 em Carlos Ruiz Zafón

 

Cartas para Ninguém – XII

M.

Não atendi seu telefonema.
E não sei quando voltarei a atender novamente.
Nunca te cobrei nada, então não venha me ligar a cobrar.

F.

 
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Publicado por em outubro 24, 2011 em Poetriz

 

Como se fosse a primeira

Não sei porquê, mas com cada nova mulher, era como se fosse a primeira, como se eu nunca tivesse conhecido nenhuma.

Charles Bukowski in “Mulheres”

 
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Publicado por em outubro 23, 2011 em Charles Bukowski

 

Impotência e Absurdo

Mas agora, e pela primeira vez, senti dor, tanta dor. Um soco no estômago, a respiração cortada, o coração desmilinguido, o estômago completamente esmagado.
Uma dor física insuportável. Perguntei a mim mesma se um dia me recuperaria dessa dor. Sofri de dar vontade de berrar. Mas não berrei. O que experimento, agora que a dor continua mas já não me impede de andar ou falar, é uma sensação de impotência e absurdo totais.

Muriel Barbery in “A elegância do ouriço”

 
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Publicado por em outubro 22, 2011 em Muriel Barbery

 
 
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