Terminar é difícil. Esquecer é difícil.
Mas quando a gente coloca uma resolução na cabeça, tem que ir até o fim.
Senão, a gente perde outras oportunidades, às vezes bem melhores, mais reais e menos complicadas, por estar com o coração e a mente ocupada com o que não vale a pena.
Arquivo do mês: novembro 2011
Um conselho pra tomar coragem
Todo um universo
Não podia evitar pensar que se eu, por puro acaso, tinha descoberto todo um universo num só livro desconhecido no meio da infinidade daquela necrópole, dezenas de milhar mais ficariam inexplorados, esquecidos para sempre. Senti-me rodeado de milhões de páginas abandonadas, de universos e almas sem dono, que se afundavam num oceano de escuridão enquanto o mundo que palpitava fora daqueles muros perdia a memória sem disso se aperceber dia após dia, sentindo-se tanto mais sábio quanto mais esquecia.
Carlos Ruiz Zafón in “A Sombra do Vento”
Cartas para Ninguém – O Fim
M.
Existem muitas maneiras de magoar alguém. Uma delas é sustentar ilusões. Não é qualquer pessoa que se ilude, somente as sozinhas, as frustradas, as feridas, as fragilizadas. E se agarrar a uma ilusão é a pior coisa que existe no mundo, pois não é palpável, não é algo nítido, escancarado.
Um corte do dedo dói por um tempo, sangra, infecciona. As vezes você está lavando a mão e arde o dedo, e só então lembra que cortou mas nem lembra quando ou como foi. E esquece antes mesmo de secar a mão.
Um corte no coração, na alma, lateja eternamente. Não sara porque é impossível conferir sua cicatrização, não cura porque não damos oportunidade de novas experiências, não forçamos o “sabão com água” em cima da ferida, entende?
Como o corte no dedo, um dia senti uma ardência no coração tão forte e tive a certeza, naquele instante, que eu não seria a mesma nunca mais.
Não haveriam novas oportunidades para a desilusão em minha vida.
E não houve, nunca houve. Eu mesma fiz questão de garantir que isso ocorresse.
Eu fui sincera quando disse que não te amava, e não amo mesmo.
Porém, é insuportável ver você usando as armas tão comuns, tão óbvias da conquista. Um elogio pra as frustrações como “você é linda!”, um carinho na despedida como um “se cuida”, a semente cuidada diariamente com um “bom dia, amor”. E a fatal cartada final “eu te amo”.
Não ama, M. Você não sabe o que é o amor.
Amor é cuidar do outro, é querer o bem do outro, é estar presente quando ele precisa, ausente quando necessário sem jamais “tirar o olho” de cima. É garantir a felicidade, contada centava a centavo. É desistir de um filme, escolher outro sabor.
Amar é mais recusa que entrega. Recusa-se a si próprio em prol do outro. Amar é recusar entregar o amor que sente porque o outro não corresponde. Só para ele ser feliz, só pelo bem dele. Por isso só acredito no amor sincero das mães.
Essa carta parece desiludida com o amor, não parece? Mas é exatamente o contrário.
Eu acredito no amor sim, no amor sincero, puro, verdadeiro. E por acreditar num amor assim é que me recuso a ter qualquer coisa que seja menos do que isso.
Isso também não quer dizer que eu ache que vou encontrar um amor assim, prontinho, só esperando por mim. Que nada! Quem sabe eu dou uma baita sorte na vida e encontro alguém que acredite nas mesmas crenças que eu, que sonhe e tenha os mesmos objetivos: de construir um amor assim, lindo!
Eu quero a oportunidade da espera, quero a liberdade de poder me entregar a essa busca a qualquer momento.
De repente, quero tudo, quero o mundo, quero a mim mesma como nunca me quis tão bem.
É por isso que não posso aceitar o que me oferece: participar dessa patifaria.
Quero alguém que saiba o certo e o errado, e que tenha consciência que é errado brincar com os sentimentos dos outros.
Meu coração incurado não aceita novas ilusões.
Você não passa disso, de uma ilusão. Passageira ilusão. Então abro os olhos, acordo: você não é e nunca foi pra mim. O tempo todo, foi pra você.
É com alívio e pesar que digo adeus.
Nunca um fim teve um gosto tão doce em minha boca.
F.
Disfarce
Estávamos cansados ou o cansaço era um modo de disfarçar a nossa tristeza?
Mia Couto in “A Chuva Pasmada”
Parte de mim
Agarrei-a e puxei-a de encontro a mim. Eu soluçava. As lágrimas corriam como vinho. Não conseguia parar. Uma parte de mim chorava, a outra parte fugia.
Charles Bukowski in “Mulheres”
Uma viagem – Cont.2
Quando Sophie chegou à marina, um homem barrigudo e suado, vestido com uma regata cinza de sujeira e calças arregaçadas acenava pro grupo. Ela ainda olhou pra trás para confirmar que somente eles vinham pelo caminho. Deu um longo suspiro de desapontamento e esperou que o grupo a alcançasse. Não esperava acomodações de primeira, obviamente com o dinheiro que possuíam tinham sorte de ter conseguido um transporte para a Inglaterra. Mas assim que viu o marujo e o barco, ela começou a rezar aos deuses que o barco tivesse forças para leva-los em segurança até a Inglaterra.
Jules acenou e cumprimentou o marujo com aquele meio abraço e palmadas barulhentas nas costas, tipicamente masculino.
Pela fisionomia de Thom, ele também não se sentia confortável com a situação. Pierre, como sempre, estava calmo e parecia não estar preocupado com o naufrágio eminente.
Quando o marujo estendeu a mão para Sophie, ela ficou sem jeito de recusar e aceitou a ajuda para entrar no barco. Depois foi direto procurar um lenço para limpar as mãos.
O barco fazia um barulho ensurdecedor, além de soltar fumaça como uma locomotiva. A viagem seria longa até a Inglaterra.
Em certa altura da viagem, Sophie conseguiu encontrar uma cadeira para sentar-se e quase que relaxou olhando o mar azul e límpido. Seus olhos estavam cansados e podia tirar um cochilo a qualquer momento. Foi quando ouviu o barulho, parecia um tiro. Levantou-se num susto.
Thom e Pierre vieram em seguida ver o que estava acontecendo. Então encontraram o marujo com a arma direcionada para Jules que estava com as mãos para cima, em sinal de rendição.
- Saia desse barco imediatamente ou eu te mato!
- O que? – perguntou Thom – Mas estamos no meio do nada! Como vamos sair?
- Tem um bote ali no canto, apontou com o queixo. Quero que saiam imediatamente ou eu atiro no seu amigo folgado aqui.
- Jules! O que você fez dessa vez? – disse Sophie irritada.
- Saiam ou eu atiro!
- Calma, calma… – Pierre dava passos lentos para trás até o tal bote.
O bote era de borracha e para ser enchido com ar. Pierre não viu nenhuma bomba para encher o bote e logo pensou que teriam que encher com o próprio fôlego.
- Vamos levar um tempo até encher o bote.
- Saaaaaiaaaam! – gritou o marujo dando um tiro para o alto.
E todos jogaram-se ao mar como puderam. Pierre carregou o bote e pulou de pé afundando como uma âncora e subindo em seguida, sem largar a borracha amarela mesmo que sua vida dependesse disso. E dependia.
Thom nem teve tempo de tirar os óculos e assim que saltou colocou as mãos nos olhos na esperança de que as lentes não se quebrassem. Sophie apenas caiu de uma forma desajeitada, como sempre. Já Jules mergulhou lindamente como tudo o que fazia.
Tiveram que encher o bote ali mesmo, dentro do oceano e suas águas geladas, um de cada vez soprando até a borracha amarela tomar a forma de um bote inflável. Então subiram nele e Sophie novamente torceu pra um bote tão pequeno conseguir sustentar tantas pessoas em cima dele.
Ficaram tremendo de frio e observando o barco que os abandonou sumir no horizonte com sua fumaça.
- Só falta uma tempestade pra terminar esse dia. – murmurou Thom.
Então um trovão se ouviu no céu.
- Acho que não falta mais nada. – concluiu Pierre.
E começou a chover.
Por sorte a chuva foi passageira e nem foi preciso ficar jogando para fora do bote para que não afundasse. Depois da chuva passada, ficaram a deriva por hora, uns largados no bote outros atentos ao redor.
- Nessa ponto do oceano existe tubarões? – Perguntou Sophie olhando para a água tentando ver algum vulto rodeando o bote.
- Acredito que não. – respondeu Thom.
Todos se entreolharam antes de também olhar para o oceano em volta do barco.
- Um navio! – disse Pierre.
- Afundado? – perguntou Sophie que continuava olhando para baixo.
- Não, lá longe!
- Só espero que não seja nosso marujo que mudou de idéia e voltou para nos matar. – comentou Thom, desanimadamente.
- Não temos nada para sinalizar que estamos aqui!
- E quem precisa de sinalização com um bote amarelo?
- Mesmo assim, é muito pequeno para se enxergar nessa distancia.
- Vamos esperar pela sorte, então.
- Com a sorte que estamos hoje, acho que é mais fácil aquele navio passar por cima de nós e os tubarões aparecerem para nos comer do que sermos salvos…
- Thom! – disseram os outros em uníssono.
O navio de Amélia estava em plena aventura. Saíram da Inglaterra com a missão de chegar até as Índias para comprar diversos suprimentos, entretanto Amélia havia ouvido falar de novas terras ainda não descobertas para outra direção.
O navio saiu da Inglaterra seguindo o caminho já conhecido de sempre, para as Índias e quando já estava longe da terra seca, fez uma manobra trocando a rota.
Foi seu homem com a luneta quem primeiro viu o bote, depois todos os homens correram para a proa procurando enxergar também. Amélia foi a última a saber que sua tripulação estava resgatando náufragos.
Aprende com os anos
Quis odiar Clara, mas não fui capaz. Odiar de verdade é um talento que se aprende com os anos.
Carlos Ruiz Zafón in “A Sombra do Vento”
Uma ótima história
Chorei com o diálogo entre a Lexie e uma escritora:
- Por que Kate não pode escolher Nathan?
- Ela vai escolher.
- Sente que tem a obrigação de… Espera, sério?
- Sério. Por enquanto. (…) Por enquanto, ela pode sentir como é estar com Nathan.
- E depois? Vão ficar juntos por um tempo, depois volta para Alexander?
- Provavelmente.
- Qual é o seu problema? Por que odeia o Nathan?
- Não odeio. Eu o amo. Tanto quanto você. Ele é engraçado, gentil e muito honesto. É a Kate. Ela não o ama.
- Pois deveria.
- Eu sei.
- Não é justo.
- Eu sei. Mas fica uma ótima história.Grey’s Anatomy S08E08
Um conselho
Dou-lhe um conselho, filho. Nunca diga que uma mulher foi sua. Essas são coisas para nós. mulheres, dizermos. Só nós sabemos de quem somos. E nunca somos de ninguém.
Mia Couto in “A Chuva Pasmada”



