Poetriz

Sou um pouco de poeta e de atriz na frente do meu compoetador

Ficar sozinho é melhor, então? Junho 18, 2008

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 8:19 am

Há muitos solteiros felizes. Levam uma vida serena e sem conflitos. Quando sentem uma sensação de desamparo, aquele “vazio no estômago” por estarem sozinhos, resolvem a questão sem ajuda. Mantêm-se ocupados, cultivam bons amigos, lêem um bom livro, vão ao cinema. Com um pouco de paciência e treino, driblam a solidão e se dedicam às tarefas que mais gostam. Os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico. Ainda possuem a idéia de que uma pessoa precisa de outra para se completar. Pensam, como Vinicius de Moraes, que “é impossível ser feliz sozinho”. Isso caducou. Daí, vivem tristes e deprimidos.

- Flávio Gikovate em entrevista para a revista “Veja”.

 

SLOW DOWN OU JUST IN TIME??? Setembro 6, 2007

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 6:50 pm

Já vai para 16 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca.
Trabalhar com eles é uma convivência, no mínimo, interessante. Qualquer projeto aqui demora 2 anos para se concretizar, mesmo que a idéia seja brilhante e simples. É regra..
Então, nos processos globais, nós (brasileiros, americanos, australianos, asiáticos) ficamos aflitos por resultados imediatos, uma ansiedade generalizada.
Porém, nosso senso de urgência não surte qualquer efeito neste prazo.Os suecos discutem, discutem, fazem ‘n’ reuniões, ponderações. Trabalham num esquema bem mais ’slow down’. O pior constatar que, no final, acaba sempre dando certo no tempo deles com a maturidade da tecnologia e da necessidade: bem pouco se perde aqui.
E vejo assim:
1. O país é do tamanho de São Paulo
2. O país tem 2 milhões de habitantes;
3. Sua maior cidade, Estocolmo, tem 500.000 habitantes (compare com Curitiba, que tem 2 milhões);
4. Empresas de capital sueco: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare… Nada mal, não?
5. Para ter uma idéia, a Volvo fabrica os motores propulsores para os foguetes da NASA.
Digo para os demais nestes nossos grupos globais: os suecos podem estar errados, mas são eles que pagam muitos dos nossos salários.

Entretanto, vale salientar que não conheço um povo, como povo mesmo, que tenha mais cultura coletiva do que eles. Vou contar para vocês uma breve só para dar noção. A primeira vez que fui para lá, em 90, um dos colegas suecos me pegava no hotel toda manhã. Era setembro, frio, nevasca. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro).

No primeiro dia não disse nada, no segundo, no terceiro … Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã, perguntei: ‘Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final.’

Ele me respondeu simples assim: ‘É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar – quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, e é melhor que fique mais perto da porta.
Você não acha?’

Olha a minha cara!Ainda bem que tive esta na primeira. Deu para rever bastante os meus conceitos.

Há um grande movimento na Europa hoje,chamado Slow Food. A Slow Food International Association – cujo símbolo é um caracol, tem sua base na Itália (o site, é muito interessante. Veja-o!). O que o movimento Slow Food prega é que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, ‘curtindo’ seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade..

A idéia é a de se contrapor ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida em que o americano endeusificou. A surpresa, porém, é que esse movimento do Slow Food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado Slow Europe como salientou a revista Business Week numa edição européia. A base de tudo está no questionamento da ‘pressa’ e da ‘loucura’ gerada pela globalização, pelo apelo à ‘quantidade do ter’ em contraposição
à qualidade de vida ou à ‘qualidade do ser’.

Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%.
Essa chamada ’slow atitude’ está chamando a atenção até dos americanos, apologista do ‘Fast’ (rápido) e do ‘Do it now’ (faça já).

Portanto, essa ‘atitude sem-pressa’ não significa fazer menos, nem ter menor produtividade.
Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais ‘qualidade’ e produtividade’ com maior perfeição, atenção aos detalhes e com menos ’stress’.

Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do ‘local’, presente e concreto em contraposição ao ‘global’ – indefinido e anônimo.

Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé.

Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais ‘leve’ e, portanto, mais produtivo onde seres humanos, felizes, fazem com prazer, o que sabem fazer de melhor..

Gostaria de que você pensasse um pouco sobre isso…

Será que os velhos ditados ‘Devagar se vai ao longe’ ou ainda ‘A pressa é inimiga da perfeição’ não merecem novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura?

Será que nossas empresas não deveriam também pensar em programas sérios de ‘qualidade sem-pressa’ até para aumentar a produtividade e qualidade de nossos produtos e serviços sem a necessária perda da ‘qualidade do ser’?
No filme ‘Perfume de Mulher’, há uma cena inesquecível, em que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar e ela responde:
‘Não posso , porque meu noivo vai chegar em poucos minutos.’
‘Mas, em um momento se vive uma vida’ – responde ele, conduzindo-a num passo de tango. E esta pequena cena é o momento mais bonito do filme.

Algumas pessoas vivem correndo atrás do tempo, mas parece que só alcançam quando morrem enfartados, ou algo assim. Para outros, o tempo demora a passar; ficam ansiosos com o futuro e se esquecem de viver o presente, que é o único tempo que existe.

Tempo todo mundo tem, por igual! Ninguém tem mais nem menos que 24 horas por dia. A diferença é o que cada um faz do seu tempo.

Precisamos saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon: ‘A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro’. Parabéns por ter lido até o final!

Muitos não lerão esta mensagem até o final,porque não podem ‘perder’ o seu tempo neste mundo globalizado.
Pense e reflita, até que ponto vale a pena deixar de curtir sua família.. De ficar com a pessoa amada, ir pescar no fim de semana ou outras coisas….

 

Amor-Próprio Agosto 24, 2007

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 12:48 pm

“Algumas pessoas transferem para os outros o poder de ser feliz e o controle de decisões importantes de suas vidas. Não seria ausência de amor-próprio?”

Lembro-me bem. Eu praticava medicina e estava em meu consultório já no fim de mais uma jornada de queixas, diagnósticos, esperanças. Ela entrou, sorriu timidamente em resposta às minhas palavras de boasvindas e sentou-se depositando na cadeira ao lado sua bolsa e seu casaco. Esse é o momento em que o médico pergunta algo do tipo: “Então, o que posso fazer pela senhora?”, ou “Agora me diga o que a traz aqui”. Foi o que fiz, para então ouvir uma resposta desconcertante: “Estou aqui porque descobri que estou ‘dormindo com o inimigo’ e preciso de sua ajuda”.

Como havia passado recentemente um filme com esse nome, em que uma mulher era tiranizada pelo marido, pensei, no primeiro momento, que ela estava com problemas em seu casamento e, nesse caso, ela deveria ser atendida por um psicólogo de casais, ou quem sabe por um advogado, e não por um médico fisiologista, que cuida do corpo, ainda que não desdenhe a influência da mente. Ao fazer um comentário nessa linha, a jovem mulher à minha frente argumentou: “O senhor não entendeu, doutor. Eu sou solteira. Quando digo que estou dormindo com o inimigo é porque durmo sozinha, e meu inimigo sou eu mesma. À noite penso em mim e sinto o quanto me detesto”.

(mais…)

 

O tempo Julho 20, 2006

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 8:51 pm

Vale muito a leitura… e reflexão…

Por que parece que o tempo passa tão rápido?

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém
colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou
janelas, sem relógio… Você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Então… Quando tempo suficiente houver passado, você perderá completamente a noção das horas, dos dias… ou anos. Estou exagerando para efeito didático, mas em essência é o que ocorreria.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos
objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol. Se alguém tirar estes sinais sensoriais da nossa vida, simplesmente perdemos a noção da passagem do tempo.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: nosso
cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia. Para que não fiquemos loucos, o cérebro faz parecer que nós não vimos, não sentimos e não vivenciamos aqueles pensamentos automáticos, repetidos, iguais.

Por isso, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e “apagando” as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.
Quando começamos a dirigir, tudo parece muito complicado, o câmbio, os espelhos, os outros veículos… Nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular, ao mesmo tempo. E você usa apenas uma pequena “área” da atenção para isso.

Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa… São apagados de sua noção de passagem do tempo… Porque estou explicando isso? Que relação tem isso com a aparente aceleração do tempo? Tudo.

A primeira vez que isso me ocorreu foi quando passei três meses nas florestas de New Hampshire, Estados Unidos, morando em uma cabana. Era tudo tão diferente, as pessoas, a paisagem, a língua, que eu tinha dores de cabeça sempre que viajava em uma estrada, porque meu cérebro ficava lendo todas as placas (eu lia mesmo, pois era tudo novidade, para mim). Foram somente três meses, mas ao final do segundo mês eu já me sentia como se estivesse há um ano longe do Brasil. Foi quando comecei a pesquisar a razão dessa diferença de percepção.

Bastou eu voltar ao Brasil e o tempo voltou a “acelerar”. Pelo menos, assim parecia. Veja, quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir – as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações… Enfim… As experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década. Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a… rotina.

Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

O ANTÍDOTO PARA A ACELERAÇÃO DO TEMPO: “M&M” (Mude e Marque).

Felizmente há um antídoto: Mude e Marque. Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia); Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe da formatura de sua turma, visite parentes distantes, vá a uma final de campeonato, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, ou faça os enfeites com frutas da região e a participação das crianças, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor — faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos  diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes.

Seja diferente. Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos… Em outras palavras… VIVA. Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado (a) com alguém disposto (a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais vivo… do que a maioria dos livros da vida que existem por aí. Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?

Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

 

Quem não arrisca, não petisca Julho 20, 2006

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 8:45 pm

Não há ação que não traga risco implícito. Mas ninguém alcança o sucesso sem enfrentar o desafio que é viver

por Eugênio Mussak

Nem todos os presidentes americanos são lembrados por guerras ou por escândalos. Theodore Roosevelt, que habitou a Casa Branca entre 1901 e 1908, costuma ser lembrado especialmente por três coisas: pelo combate à distribuição de cargos públicos como favores políticos (prática que muito nos atormenta); pelo prêmio Nobel da Paz que ganhou em 1906 em função de seu empenho como conciliador entre a Rússia e o Japão (empenho que falta hoje em vários cantos do mundo); e pela viagem que empreendeu em companhia do marechal Rondon pelo rio Amazonas, cujas anotações se transformaram em um livro minucioso chamado Through the Brazilian Wilderness.

Entretanto, apesar desse currículo,Roosevelt é conhecido mesmo por ser autor de uma frase que, em qualquer circunstância que seja proferida, ainda hoje causa impacto, inquietação e reflexão. Disse ele: “Prefiro arriscar coisas grandiosas para alcançar triunfo e glória,mesmo expondo-me à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que não gozam nem sofrem muito, porque vivem numa penumbra cinzenta na qual não conhecem derrotas nem vitórias”.

Dita por alguém com o histórico desse homem, essa frase faz sentido e ganha legitimidade.Mas ninguém precisa ser presidente, nem explorador, nem prêmio Nobel, para perceber que, da vida, pode-se receber muito ou receber pouco, e contribuir mais ou contribuir menos, sempre a depender dos riscos que se deseja aceitar. Theodore afirma que ele é do tipo que prefere enfrentar o risco de perder ao risco de não ganhar. Traduzindo para o bom português, poderíamos dizer, sem medo de errar, que quem não arrisca não petisca.

Tentar é arriscar a falhar

É matemático: quem não tenta não corre riscos, mas também nada consegue. Aprendemos a caminhar porque tentamos e não desanimamos por causa dos primeiros tombos, ou seja, das primeiras derrotas – sem eles ainda estaríamos engatinhando. Roubamos o primeiro beijo correndo o risco de levar um tapa; conseguimos o primeiro emprego arriscando-nos a levar um rotundo “não”; passamos no vestibular sob o risco de reprovar, como a maioria. Não haveria a menor possibilidade de conseguir qualquer uma dessas vitórias sem a predisposição a suportar o fracasso.Esse é o risco.

É matemático: quem não tenta não corre riscos, mas também nada consegue. Aprendemos a caminhar porque tentamos e não desanimamos por causa dos primeiros tombos, ou seja, das primeiras derrotas – sem eles ainda estaríamos engatinhando. Roubamos o primeiro beijo correndo o risco de levar um tapa; conseguimos o primeiro emprego arriscando-nos a levar um rotundo “não”; passamos no vestibular sob o risco de reprovar, como a maioria. Não haveria a menor possibilidade de conseguir qualquer uma dessas vitórias sem a predisposição a suportar o fracasso.Esse é o risco.

Mas cuidado, há tentativas e tentativas. Mestre Yoda, de Star Wars – Guerreiros do Universo, afirmou: “Faça ou não faça – a tentativa não existe”. Foi uma lição necessária a seu pupilo Luke Skywalker, que disse, desacreditando de si mesmo, que faria uma “tentativa” de retirar a nave encalhada no pântano, o que enfureceu bastante o mestre.

Ora, pessoas que dizem que irão apenas “tentar” estão querendo dizer, antecipadamente, que não conseguirão, pois, afinal,“era difícil, e tudo não passou de uma mera tentativa”. Essa é a tentativa pela tentativa, sem compromisso com o resultado. A derrota que deriva dessa tentativa inglória não tem importância, é acobertada pela própria pequenez.

O compromisso com a tentativa é bem diferente do compromisso com o sucesso. Neste segundo caso, não conseguir o resultado esperado causa aprendizado, e, por outro lado, reforça a certeza de conseguir o que se pretende na próxima tentativa, até porque agora já se conhece o caminho errado. Este foi o espírito de Thomas Edison que, na 999ª tentativa frustrada disse: “Descobri mais uma maneira de não fazer a lâmpada”. Na próxima deu certo, e o mundo nunca mais foi o mesmo.

O risco calculado

O dicionário diz que risco é sinônimo de perigo ou de possibilidade de perigo. Se há “perigo” e eu enfrento assim mesmo, estou jogando com a sorte, entregando meu destino ao acaso.Mas, se o que existe é a “possibilidade de perigo”, posso tomar providências para evitá-lo. Daí vem o conceito do “risco calculado”.

Ao saltar no ar como um pássaro, o trapezista não está enfrentando a queda, e sim a possibilidade de queda. E ele sabe que as possibilidades ruins são inversamente proporcionais aos cuidados tomados para evitá-las. Ele não assume riscos que estejam fora de seu controle. O que parece loucura para o público é técnica para o trapezista.

Nós, que não somos trapezistas, muitas vezes também saltamos no ar imaginário buscando um trapézio abstrato escondido nas realizações do cotidiano. O psicólogo Leo Buscaglia escreveu que “rir é arriscar-se a parecer louco, chorar é arriscar-se a parecer sentimental, estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver, amar é arriscar-se a não ser amado”. Não há, portanto, ação humana que não traga implícito algum risco.O que há são pessoas dispostas a enfrentar esses riscos, enquanto outras fogem deles.

Entretanto é bom lembrar que enfrentar riscos pode ser um ato de coragem ou um ato de imprudência. Coragem não é o oposto do medo – o oposto do medo é o “não-medo”, e cumpre função contrária a ele.O medo é uma necessidade da própria biologia, ligada à manutenção da vida. O medo impede a exposição do indivíduo – animal ou humano – ao perigo superior à sua condição de enfrentá-lo.Nesse sentido, o não-medo é danoso à vida, é contrário à existência, é irresponsável para com a própria natureza. Não ter medo significa não ter apego à própria condição de ser vivo, podendo, assim, ser interpretado como uma patologia. Não é bom não ter medo.

Já a coragem é um estado de superação, baseado na lucidez,na percepção das próprias capacidades e limites, no autoconhecimento, portanto. A coragem transita entre o medo e o não-medo – supera o primeiro e ri do segundo. O corajoso não é um imprudente. Ele tem medo, mas vence, não por bravata, mas por preparar-se para enfrentar as dificuldades denunciadas pelo medo. Eis o risco calculado. Poderíamos atualizar o ditado para “quem não arrisca riscos calculados não petisca resultados consistentes”.

Viver é arriscar-se

“Não quero no meu barco nenhum homem que não tenha medo de baleia.” Esta foi a fase com que o capitão Acab recebeu os tripulantes a bordo de seu navio Pequod antes de zarparem em busca de Moby Dick, a colossal baleia, o monstro dos mares. Ele queria a baleia como queria a própria vida. Assumiu o risco de caçá-la, mas respeitava sua força e seus domínios, e respeitava muito.

Dizem os estudiosos da obra de Herman Melville, autor de Moby Dick, que a simbologia dessa aventura mostra o encontro do homem com seu próprio destino, que no final é a morte. Moby Dick é apresentada como uma encarnação dos medos humanos, e o Pequod, os meios que desenvolvemos para enfrentá-los. A filosofia do capitão, que queria homens corajosos, mas não sem medo, é o melhor testemunho da importância do autoconhecimento, que nos permite avaliar os riscos antes de aceitá-los e de medir nossos limites e nossas possibilidades. A baleia ganhou a luta, mas sua vitória sobre o homem não simboliza a imprudência humana, é, antes, um alerta ao valor da cautela.

A vida da maioria de nós,mortais comuns, parece, numa primeira análise, que pouco tem a ver com as fantásticas histórias, como a de Moby Dick, mas há semelhanças, guardadas as proporções. Independentemente do que você faça, você assume seus próprios riscos. Se você não tiver medo deles, poderá ter problemas, e se não tiver coragem, também.

O dia-a-dia do cidadão que pega trânsito, que faz negócios, que participa de reuniões, que fala em público, que faz entrevista de emprego, que enfrenta chefe nervoso, é, sim, cheio de pequenos riscos. Com um detalhe: na vida real, os riscos surgem simultaneamente e se acumulam, como em uma poupança de desafios que não desaparecerão enquanto não forem enfrentados.

Ninguém tem sucessos sem enfrentar desafios. Aprenda com os heróis mitológicos: Prometeu roubou o fogo dos deuses e por isso foi condenado a ter seu fígado comido por abutres pela eternidade. Ícaro foi imprudente e voou perto do Sol com suas asas de penas e cera. Esta derreteu ao calor solar e Ícaro caiu. Belorofonte, montado em Pégaso, matou a Quimera e voou para exibir-se até as proximidades do Olimpo, enraivecendo Zeus. Este assustou Pégaso e derrubou o herói, que passou a vagar coxo e em desgraça.

O que essas passagens da mitologia grega têm em comum? Todas recomendam duas coisas: assuma o risco, mas prepare-se para ele. Não exceda o limite.Vá em frente, mas seja prudente. Camões garante, em Os Lusíadas, que os deuses compreensivos ajudaram Vasco da Gama a chegar às Índias e a voltar para casa, com direito a uma parada na Ilha dos Prazeres – não sem quase morrer algumas vezes. As divindades mitológicas gostam dos ousados, mas não toleram os imprudentes.

É assim até hoje. No mercado de capitais – espécie de divindade moderna –, os investimentos mais rentáveis são os que oferecem mais risco. Bancos “generosos” fecharam as portas deixando muitos clientes no prejuízo.

Esses são sinais de que devemos nos abster de arriscar? Não, é claro. São avisos de que riscos devem ser assumidos, desde que minimizados pela prudência. Essa é uma dobradinha poderosa. Em “Mar Português”, um de seus poemas mais repetidos, Fernando Pessoa recomenda o risco calculado quando lembra que, “ao mar, Deus deu perigos e abismos, mas nele é que espelhou o céu”. Navegue, sim, mas com precisão.

 

Paz Julho 15, 2006

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 9:53 pm

O mundo não vai parar para você ter tranqüilidade. A tão sonhada paz é você que produz e espalha por aí

por Priscilla Santos

Imagine-se numa quietude inabalável, sem problemas e decisões difíceis a serem tomadas. Imagine que o mundo não tem mais injustiças de nenhum tipo e nada para abalar sua tranqüilidade. Enfim, imagine uma harmonia estável, constante e ininterrupta. Parece impossível? E é. A paz, que é o assunto deste texto, não tem nada a ver com um mundo perfeito, sem conflitos. Ainda bem, aliás, porque os conflitos são a matéria-prima da realidade, são a trama da vida. Paz, dizem as pessoas que a estudam e a conhecem, é o que se ganha quando se aprende a lidar com eles. E é sobre isso que trata este texto: sobre como construir sua paz e transmiti-la ao redor de si, nas suas relações. Convenhamos, o mundo anda carente disso.

Quando se fala em conflito, é comum a gente pensar em um confronto com outra pessoa. Mas os conflitos, dizem os especialistas, moram dentro da gente. Já ouviu falar que “quando um não quer, dois não brigam”? É isso. Em geral, entramos em conflito quando nossas necessidades não estão sendo atendidas. Sim, necessidades, aquelas coisas essenciais à vida, como comer, dormir e ser amado. Acontece que dificilmente dizemos claramente nossas necessidades, porque mesmo as mais básicas vêm ricamente embaladas em desejos e gostos pessoais. Necessitamos, por exemplo, de nutrição e saúde, por isso queremos comida. Sentimos necessidade de diversão, por isso queremos ver TV. Precisamos de segurança e intimidade, por isso queremos companhia. Quando a gestante decide que “precisa” comer cuscuz com queijo coalho, na verdade ela está com fome. Mas, em meio àquela tempestade hormonal típica da gravidez, o cuscuz é a única coisa em que ela consegue pensar sem sentir que vai virar do avesso. Pronto. Está armada a confusão entre necessidade e desejo. E tome conflito para convencer o marido a sair à caça de um cuscuz.Moral da história: o primeiro passo para quem quer viver numa boa é conhecer os próprios desejos e necessidades. E não confundi-los.

O primeiro passo é observar as próprias emoções.Costumamos achar que nos conhecemos bastante e podemos agir só com o raciocínio. Mas a verdade é que os acontecimentos cotidianos afetam nossas emoções, e isso faz toda a diferença. Partindo dos mesmos fatos, mas montado em emoções diferentes, nosso raciocínio é capaz de chegar a conclusões (e atitudes) completamente distintas. E às vezes dignas de arrependimento. Isso porque o pensamento não dá conta de todas as variáveis da realidade.“Toda razão, por melhor e mais tempo pensada, é incompleta, o que obriga que não haja decisão sem risco, sem afeto”, escreveu o psicanalista Jorge Forbes em seu livro Você Quer o Que Deseja?.

A dica é velha, e por isso mesmo preciosa: em uma situação de confronto, pare e observe a si mesmo – se não deu para parar, analise depois. Você está nervoso? Por quê? Pode ser uma dor de cabeça que tirou o humor, um mal-entendido com alguém, uma ansiedade pela notícia de algum parente, uma noite mal dormida. Não, não é fácil descobrir. Facilita se tem alguém para ajudar, como um terapeuta. Mas dá para fazer sozinho, também. E com a prática fica mais rápido.

É claro que, ao espiar o próprio umbigo, periga você achar o que não queria ver: raiva do pai ou da mãe, culpa por uma atitude muito errada do passado, aquela invejazinha do sucesso do irmão. Não adianta fingir que não viu. Segundo os especialistas, esconder os sentimentos ruins não vai fazê-los ir embora, só vai deixá-los lá, criando conflito e tirando sua paz. A raiva, o egoísmo e a inveja fazem parte da natureza humana. Todo mundo sente, você também. E não vá sair por aí culpando as outras pessoas por isso.

Quando nos atemos demais ao passado, corremos o risco de alimentar sentimentos como o arrependimento e a mágoa por algo que se fez ou se deixou de fazer ou por experiências ruins. Já quando nos preocupamos demais com o futuro, abrimos espaço para a ansiedade e o medo do que está por vir. Isso não quer dizer que não devamos ter boas memórias ou fazer planos, mas que não podemos viver, exclusivamente, do que já foi ou do que ainda será.

Meditar é uma técnica para aumentar a concentração no momento presente.Você aí, nesse momento, está apenas lendo este texto ou também está assistindo TV, comendo ou ouvindo música? Se estiver, saiba que isso não é bom. Experimente parar o que mais estiver fazendo e saboreie, nem que seja por um minutinho, a tranqüilidade de estar concentrado em apenas uma tarefa. Bom, né?

Aceitar que nem sempre as coisas se resolvem como a gente gostaria é a cartada final na busca da paz.Você fez tudo certinho: compreendeu o que você e o outro sentiam, tomou consciência antes de agir, conversou para tentar achar uma solução que atendesse às necessidades comuns.Mas não resolveu o conflito. Que fazer? Aceitar. E ficar em paz, pois fez tudo o que podia. Como lidar com a frustração? Nesse caso, adianta sim chorar o leite derramado ou tirar as calças e pisar em cima. Se for impossível evitar a raiva e a mágoa, melhor vivê-las agora, já. Macerar a mágoa é essencial para que ela fique bem resolvida e, dessa forma, possamos seguir adiante, centrados no que realmente somos e queremos.

Não existe paz absoluta, isso é fato. Para haver equilíbrio é preciso haver desequilíbrio, são opostos complementares. A paz é um movimento cíclico constante, é uma escolha que se faz a cada dia. Ter paz é saber que tudo é transitório, as coisas boas e as ruins.As paixões, assim como as tristezas, vêm e vão, a calmaria também. E, mesmo num momento de alteração, o simples fato de você saber disso o acalma. Estar em paz é ter a certeza de que se está no caminho.

 

Encontrar um livro na rua pode não ser mero acaso Julho 5, 2006

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 8:45 pm

por Luciana Stein

Lembra do fascínio de escrever uma mensagem, colocá-la numa garrafa e atirá-la ao mar? A matéria-prima desse sentimento é o acaso, ou serendipity – palavra com origem na história Os Três Príncipes de Serendip (antigo Sri Lanka), em que os personagens faziam descobertas por acidente. Há quem colecione situações desse tipo. Em 1991, o escritor americano Paul Auster publicou The Red Notebook, um livro de fragmentos e anotações sobre eventos cotidianos – todos singelos e misteriosos, como o de encontrar um pedaço de papel num quarto de hotel em Paris e descobrir que o hóspede anterior era amigo dele. É esse também o princípio do movimento Book Crossing, nova versão das mensagens na garrafa. Você deixa livros em bancos de praça e lugares públicos esperando alguém os encontrar, ler e gentilmente os abandonar de novo, num elo invisível e meio mágico entre pessoas que não se conhecem (ou se conhecem, vai saber…). “Adoro a idéia de compartilhar literatura, me sinto parte de uma comunidade”, diz Spiegel, codinome de uma gaúcha que agora compra livros só para libertá-los ao vento do acaso. Em www.bookcrossing.com é possível registrar onde e quando “esquecemos” um livro e rastrear dezenas de outros que circulam no mundo, inclusive no Brasil.

 

O novo homem Novembro 9, 2005

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 9:23 pm

Antes que as pessoas se acostumassem com o metrossexual, surge o novo “homem do futuro”: o übersexual

Roberta Salomone

Desde que o sexo masculino deixou de ser encaixado como um todo na categoria de machão incurável e conquistou o direito de se emocionar e usar cosméticos, um batalhão de autores mundo afora dedica-se a definir o que
seria “o novo homem”. A mais recente e ambiciosa tentativa nessa direção é o livro The Future of Man (O Futuro do Homem), que será lançado no mês que vem nos Estados Unidos. Nele, um trio de publicitários – Marian Salzman, Amy O’Reilly e Ira Matathia – discorre sobre as mais do que exploradas diferenças biológicas entre homens e mulheres, fala pela enésima vez sobre as regras do jogo da sedução em tempos de internet e divaga sobre o que seria uma eventual “era feminina”, quando “homens podem ser substituídos por brinquedos, por outras mulheres, abstinência e até vibradores”. Como não poderia faltar em obra do gênero, o trio apresenta no livro um “novo” tipo de homem – o übersexual, rótulo com o qual batizam, publicitários que são, a versão mais avançada do já batido metrossexual. Avançada em termos: o übersexual é a ressurreição do exemplar do sexo masculino mais cobiçado pelas mulheres – o homem sensível, mas não muito, vaidoso, mas na medida certa, e inequivocamente heterossexual. “É a volta das características masculinas mais positivas, como força, decisão e imparcialidade, sem a insegurança comum aos dias de hoje”, detalhou Marian a VEJA.

Além da apresentação do übersexual (do alemão über, “acima”, “além de”), o livro de pouco mais do que 200 páginas, que ainda não tem data de lançamento no Brasil, lista outros rótulos menos cotados criados para caracterizar os tipos de homem dos novos tempos. São eles:

• novo machão: tem todas as características típicas do machão, mas não vê
problemas em chorar na frente dos outros;

• metrogay: gay que tem traços masculinos;

• metrogay: gay que tem traços masculinos;

• metro-hétero: heterossexual com atitudes gays;

• snag (neologismo formado a partir das iniciais de sensitive new-age guy):
tem sensibilidade apurada e entende perfeitamente as mulheres;

• homem verdadeiro: aquele que reúne o melhor do homem atual, é
participativo em casa, mas só faz o que quer e quando quer;

• emo (de emotivo) boy: extremamente sensível e vulnerável;

• new bloke: liberalíssimo, acha que homens e mulheres são absolutamente
iguais.

Por enquanto, nenhum deles é tão conhecido quanto o metrossexual. O termo, que passou despercebido em artigo no jornal inglês The Independent há onze anos, foi retomado depois pelo jornal The New York Times e, de tão popular
desde então, ganhou até nome e sobrenome: David Beckham. Bonito, casado e cobiçado, o jogador do Real Madrid é o metrossexual por excelência: não tem vergonha nenhuma de exibir o seu lado feminino (a ponto de pintar as unhas e tirar a sobrancelha, exageros a que poucos colegas se dão), sem que nada disso comprometa sua masculinidade. O übersexual é diferente – vaidoso, sim, mas nada que chegue perto de Beckham (há quem diga que ele disputa jóias, cremes e esmaltes com a mulher, a ex-spice girl Victoria Adams). Também não é do tipo que faz qualquer negócio pela aparência, como mudar freqüentemente a cor e o corte do cabelo e submeter-se a depilação. Tem estilo, é atraente, bem informado e não é consumidor voraz – faz as próprias compras, mas só quando forem necessárias. Resumindo: um homem com H maiúsculo.
Antes mesmo de o novo rótulo ser disseminado, o ator George Clooney já foi eleito o seu ícone. Atrás dele, o livro coloca na fila de candidatos o marido de Madonna, o cineasta Guy Ritchie, e – pasmem – o governador da
Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que todo mundo achava que era metrossexual até a raiz dos tingidos cabelos. “São todos fortes, sedutores, sempre acompanhados de mulheres fortes e 100% homens”, defende Marian. Dois outros termos estão devidamente associados a representantes famosos: os bonitinhos Orlando Bloom e Jude Law são típicos emo boys; Ewan McGregor e Hugh Grant, por sua vez, identificam-se com os new blokes. Dirigido a homens e mulheres, o livro, segundo seus autores, baseia-se em pesquisas e impressões pessoais para mostrar e debater o “homem do novo século”, suas características, os problemas e as questões que o afligem. Alerta para as leitoras movidas pelo propósito de escolher o tipo que mais lhe agrada e depois tentar achar um de verdade para chamar de seu: nem todos os homens se encaixam nas categorias listadas. Um estudo citado no livro, por exemplo, conduzido por um psiquiatra chileno, afirma que latinos são extremamente machistas e costumam sofrer com a pressão para manifestar continuamente sua virilidade. “Por esses, não gaste nem metade de um dia em um spa”, ensinam os autores.

 

Pequeno Sonho em Vermelho Novembro 6, 2005

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 8:39 pm

O cotidiano nos ares
A Companhia Linhas Aéreas estréia nesta sexta seu novo espetáculo, Pequeno Sonho em Vermelho, com texto de Fernando Bonassi e direção de Francisco Medeiros. Trata da vida diária, dos encontros e desencontros, da espera e da angústia, da falta de dinheiro
CLAUDIA COSTA

A hora que não pára, o jornal e as notícias diárias, indagações sobre corpo e alma, preocupações com regime, cabelo, rosto, obsessão por limpeza, um amor que assalta um homem que não consegue pensar em mais nada a não ser em sua amada, a vida de um casal. Tudo faz parte do cotidiano, que é interpretado por sete atores, ao mesmo tempo, em cenas simultâneas que dialogam entre si. Uma peça dinâmica. Até aí um espetáculo convencional, não fosse a maneira de ser apresentado, a alguns metros do chão. Há também cenas no plano baixo (piso do palco) e plano médio em que três passarelas de alturas diferentes são sustentadas por colunas. E ambientado em vermelho, assim como o quadro Pequeno Sonho em Vermelho, do artista plástico Wassily Kandinsky, que dá título ao novo espetáculo da Cia. Linhas Aéreas.

A ocupação do espaço aéreo, a arte abstrata e geométrica de Kandinsky e o tema do cotidiano deram origem à peça, que foi construída em um processo colaborativo entre os atores (as duas atrizes, Érica Stoppel e Ziza Brisola, que dirigem a Cia. e atores convidados), o dramaturgo Fernando Bonassi e o diretor Francisco Medeiros, que assina a direção ao lado de Lucienne Guedes, uma das fundadoras do Teatro da Vertigem. O resultado, um espetáculo que traz muito mais expressão corporal do que texto. São esquetes sobre o amor em uma sucessão de cenas verossímeis do dia-a-dia, sem um roteiro linear. Tudo permeado pela arte circense, em que o trapézio dá lugar a sofás, camas e cadeiras, objetos suspensos por fios de aço, exigindo uma alta performance do elenco, que além da força, precisa de concentração para interpretar o texto.

Impossível não olhar em várias direções. Em uma das cenas, enquanto um casal fala sobre o amor, outro sobe na armação de ferro que remete a uma cama, e no ar, conforme se movem, se expressam corporalmente. Em outra, o sofá traz o marido junto com um grupo de amigos, enquanto a mulher, na passarela mais alta, continua limpando a casa. Há também cenas típicas de circo, em que uma das atrizes sobe em uma corda e fica rodando no ar. Assim, o cenário de Daniela Garcia interage com os atores. Outros objetos do cotidiano, como geladeira, aspirador e telefone, servem de referência para as situações. Especialmente composta para o espetáculo, a trilha sonora de Gustavo Kurlat, com arranjos de Binho Feffer, traz vários ritmos, entre eles uma valsa e um hip hop, este último como fundo para um desvario urbano.

Sonhos, delírios, pesadelos, o vermelho e o que a cor sugere, o conceito da arte não convencional. Tudo isso é a peça Pequeno Sonho em Vermelho.

 

Conjura e liberação: Os 50 anos de A história de O Outubro 23, 2005

Arquivado em: Artigos — poetriz @ 1:36 pm

Um incontrolável estranhamento nos assalta ao nos depararmos com o nome de uma personagem que se resume a uma insignificante letra “O”. E a primeira reação que temos, ao empreender a leitura, é de que esse signo vazio, esse círculo vazado e tão inexpressivo, esse antinome é a designação correta para uma mulher sem passado, sem história, suspensa em meio a um universo de prazeres que nos perturbam e incomodam, escrava – por sua livre escolha – dos desejos de outrem.
No entanto, a verdade é que não há equivalência entre o nome “O” e o zero – ou qualquer outro conceito que expresse passividade -, ainda que a autora não nos conceda, em momento algum, a descrição física de sua personagem; e ainda que a palavra “não” inexista no vocabulário de O.

De fato, não se pode confundir submissão com passividade. E, nesse sentido, a beleza e a sensualidade de O residem exatamente em suas seguidas ações, exercitando uma crescente submissão por sua própria vontade, buscando um amor cujo fulcro ela descobriu na obediência – uma descoberta que a faz despertar para o fato de que “as correntes e o silêncio, que deveriam amarrá-la no fundo de si mesma, estrangulá-la, sufocá-la, ao contrário, libertavam-na de si mesma.”

Há uma sugestiva semelhança entre essa personagem – que se oferece como uma dádiva irrestrita e permanente – e sua criadora, Pauline Réage. Não se trata, como tentaram alguns, de estabelecermos um paralelo entre a vida sexual da escritora e o universo sadomasoquista que ela desenha em A história de O. Mas trata-se de perceber como a senda percorrida por O – na qual, gradativamente, ela arranca de si as amarras que lhe foram impostas pela sociedade, até alcançar o âmago da sua libido, prostituindo-se a ponto de se sentir “consagrada” – é semelhante a de Réage. Nascida Anne Desclos, no seio de uma família conservadora e católica, ela assumiu, na maturidade, o pseudônimo de Dominique Aury, com o qual se tornaria a respeitada tradutora e editora da casa Gallimard, transformando-se, finalmente, por devoção a seu amante, Jean Paulhan, na escritora Pauline Réage. O périplo dessa instigante mulher, empreendido sob o silêncio e o quase anonimato, é a jornada dos que ousam explorar, sem limites, o seu interior, o que lhe permitiu subjugar os valores artificiais que Anne Desclos aprendera e, dissecando sua libido, dar vida não somente a O, mas também a si mesma, transmutando-se em Réage.

A história de O é, assim, o romance da depuração, no qual autora e personagem se encontram para responder a uma questão essencialmente humana e, portanto, essencialmente erótica: “Por que tanta doçura misturava-se nela ao terror ou por que o terror lhe era tão doce”? A submissa O encontrou sua resposta. E creio que Anne Desclos igualmente, pois, do contrário, o processo de auto-análise teria se interrompido na persona de Dominique Aury.

À parte a censura e as perseguições dos moralistas, A história de O se consagrou como o romance que trouxe à luz do século XX, em 1954, as pulsões sexuais que os preconceituosos repudiam como invenções doentias do marquês de Sade ou perigosas patologias. O livro tornou-se, com o passar dos anos, um símbolo da possibilidade de concretização de uma vasta parcela das nossas fantasias sexuais, corroborando e dando forma aos instintos que buscam na dor, no sofrimento e na humilhação – aplicando-os ou submetendo-se a eles – uma forma radical de prazer.

Desmistificando as práticas sadomasoquistas – tão antigas quanto o animal humano -, Pauline Réage concedeu grandeza e respeitabilidade a todos os que buscam prazer sexual na submissão e na dor: “(…) As partes do corpo mais constantemente ofendidas e que tinham se tornado mais sensíveis pareciam-lhe ao mesmo tempo mais belas, e como que enobrecidas; a boca que se fechava sobre sexos anônimos, os bicos dos seios constantemente acariciados por muitas mãos e os caminhos do ventre entre as coxas abertas, estradas abertas pelo prazer. Admirava-se de que ao ser prostituída viesse a ganhar em dignidade, e no entanto tratava-se de dignidade. Sentiu-se como que iluminada por dentro e via, no seu modo de andar, a calma, e no rosto, a serenidade e o imperceptível sorriso interior que se advinha nos olhos das reclusas.” De fato, com a delicada O, Réage demonstrou que, apesar de nos parecer paradoxal, há uma insuperável auto-estima em atender às exigências da libido.

É a certeza e a coragem de O que nos comovem e nos seduzem. Em sua busca inflexível, sempre movida pelo amor e por um “orgulho insensato”, ela aceita tudo, erigindo um altar à superação de todos os medos, de todos os limites, agarrando-se ao suplício não como uma forma de sublimação de suas frustrações, mas como um dos possíveis caminhos à fruição plena do prazer: “Quando o sofria [o suplício], trairia o mundo inteiro para lhe escapar, e após terminá-lo sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.”

Prazer e dor, vida e morte confluem, dessa forma, em um mesmo corpo, em uma mesma vontade, não para dilacerar a consciência dessa apaixonante mulher, mas, ao contrário, para torná-la mais viva, mais resoluta, mais íntegra.

A própria autora nos concede a chave para entendermos o significado desse romance que é um rito de passagem à compreensão de nossas mais fundas pulsões sexuais. No prefácio de seu segundo livro -Retour à Roissy- ela nos alerta que “uma vez que se deslinda a zona fantástica daquela outra, mediante a qual se recuperam as obsessões (sendo a repetição infinita de prazeres e sevícias tão necessária como absurda e irrealizável), tudo se ajusta fielmente, o vivido e o sonhado, tudo se descobre comumente compartido no universo de uma mesma loucura”. É preciso, portanto, superar a ficção, cruzar esse território que é, ao mesmo tempo, sonho e realidade, limite e renascimento, medo e alegria – e investigar o nosso eu. E se tivermos coragem para fazê-lo, talvez possamos descobrir o que Réage concluiu: “Se nos atrevemos a olhá-lo de frente, horrores, maravilhas, sonhos, mentiras, tudo é conjura e liberação.”

Essa O que, ao final da narrativa, emerge indelevelmente marcada nas nádegas, com a cintura adelgaçada, os quadris mais redondos, os seios mais pesados e um anel a lhe perfurar os grandes lábios, essa O transformada pelas torturas, é ela mesma que sussurra para si: “Mas que repouso, que delícia o anel de ferro que fura a carne e que pesa para sempre, a marca que nunca se apagará, a mão de um senhor que sabe apropriar-se sem piedade daquilo que ama.”

Nada é simples quando se trata do amor. E nada é facilmente compreensível quando se trata da sexualidade humana. Em um patamar muito acima dos moralismos e dos preconceitos difundidos pelas religiões, pela mídia e pelos valores pequeno-burgueses, A história de O questiona e acusa todos os que ousam minimizar ou desprezar a riqueza e a complexidade da nossa libido.

Konstantin Gavros é escritor. Assina diariamente o blog A verdade é o sexo, o sexo a verdade. É, também, colunista de Novae.