Poetriz

Sou um pouco de poeta e de atriz na frente do meu compoetador

Charlotte Outubro 22, 2009

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 7:27 pm

Estava sentada no centro daquela sala escura. Ouvia o gotejar insistente de algum cano. A umidade e o cheiro também revelavam que ela estava num andar inferior de algum lugar. Mantinha a cabeça baixa, o longo cabelo despenteado caído pelo rosto, grudado no sangue que escorria de seus lábios. Ela sorria apesar de tudo. As cordas que atavam suas mãos às suas costas, feriam seus pulsos.

Dizem que quando estamos para morrer, a nossa vida passa como um filme em nossa mente. Talvez isso explicasse porque as lembranças vinham aleatóriamente em sua cabeça.

Não sabia explicar como e nem por que chegou até aqui, mas não se arrependia de nada, pelo contrário, aproveitou cada momento de sua vida.

O pai, russo, abandonou a família quando ela ainda era bebê. A mãe, italiana, casou-se novamente alguns anos depois com um americano e logo mudaram para Nova Iorque.
Foi nesse país que ela cresceu e onde conheceu Smith.

Ele que a introduziu no mundo da máfia. Seu primeiro assalto a banco, seu primeiro tiro, sua primeira fuga alucinada, tudo estava relacionado a Smith.
Smith não era boa companhia dizia a mãe e o padrasto. Mas ele atirava tão bem, dirigia tão bem e namorava tão bem que ela não ouviu os conselhos e se apaixonou. Só não sabia que ele também traía tão bem.
Depois veio Raol, um cubano caliente que dançava salsa e merengue. Raol também não foi aprovado pela família, mas aí já era tarde demais. Ela fugiu com ele pra Cuba assim que teve uma oportunidade. Ele atirava melhor, dirigia melhor e namorava melhor que Smith. E também traia melhor.

Um dia ela arrumou as malas e foi pra Rússia, a trabalho. E foi nesse país que Dimitri apareceu em sua vida. Dimitri era exímio atirador, exímio motorista e o melhor amante que teve em sua vida. Nunca descobriu traições dele, não até aquele momento…

 

A verdade dela Julho 30, 2008

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 9:15 am

- Eu te amo!

Ela pensou tanto nessa cena ao escrever. Foi cuidadosa em tudo. Queria que fosse num lugar qualquer, porque afinal, não é o cenário que deve estimular as palavras. Teria que ser algo espontâneo, dito assim, como se as palavras não coubessem mais dentro do coração. Mas não em tom de desabafo, queria algo casual. Talvez viesse assim, quando ela fazia bico quando ele roubava uma batatinha do prato dela. Talvez, dentro do cinema, quando eles assistissem um filme de terror e ele tremendo de medo, sem saber se por causa do filme ou da ansiedade em dizer as palavras para aquela que fazia seu estomago revirar de nervoso. A cena podia ser comum, um sorvete que manchou a ponta do nariz. O importante é que não fosse dito na impulsividade. Ou talvez até sim, mas apenas o ato de falar. O sentimento, teria que estar já dentro de dele, latejando, atormentando, fragilizando.

- Não suporto mais ficar longe de você!

Eram as palavras dela, mas era a cena dele. Antológica. Ele de joelhos, voz tremida, olhos marejados, segurando firmemente as mãos da mocinha. Tocou com as pontas do dedo a face dela. Todos suspiraram. Mãos frias, entrelaçadas, nervosas, curiosas pelo que estava por vir. O ápice, o clímax e a ovação. Todos de pé, batendo palmas. Ele merecia um prêmio. Definitivamente, seu nome sairia nos jornais. Reconhecimento.
Mas era mentira. E era isso que ela não suportava. Não podia suportar a mentira em suas palavras. Palavras dela. Palavras que ela escolheu com tanto cuidado, que ela sonhou e imaginou tantas vezes.
Quando todos ficaram de pé, aplaudindo emocionados, ela levantou-se também com lágrimas nos olhos. Saiu correndo, a autora da peça.
A verdade dela era a mentira dele. E isso, ela não podia suportar.

 

Palco Março 2, 2008

Arquivado em: Contos — poetriz @ 8:09 pm
[ Pierrot - Pablo Picasso ]

Quando criança ele não gostava de estudar, odiava a lousa cheia de lição, tinha a letra feia e os cadernos em branco, isso quando tinha caderno. Tinha problema de concentração, preguiça, motivação, distração e 10 anos. Foi nessa época que aconteceu uma revolução no ensino fundamental onde a escola que ele frequentava começou a ter aulas extra-curriculares durante o período normal. Ali estava a grande oportunidade de fugir das aulas convencionais e foi se matricular na aula de teatro.
Não esperava que ainda numa aula tão alternativa tivésse que ler ou fazer aqueles exercícios onde se sentia na rua brincando mas que não combinava em nada com a escola. As vezes ficava cansado também, irritado, enfadado e odiava decorar.
A sala treinou uma peça simples, a própria professora primária transformou o texto em algo apropriadamente simples. As interpretações, roupas, falas, tudo era simples. E antes da apresentação, foram no anfiteatro da própria escola para treinar pela primeira vez num palco.
Ele ficou sentado na platéia, entendiado, maquinando em ocmo fugir daquela situação até chegar sua vez. Então subiu degrau a degrau e tomou seu lugar, no palco. E de lá ele viu o mundo. E o mundo era feito de cadeiras, luzes e sonho. Ele se tornou grande no seu um metro e trinta. Ele foi o melhor ajudante do ajudante que tivéram aquele dia. Papel pequeno, é verdade, mas pra ele era na medida certa. Ao final do ensaio, deram as mãos e seguiram até a frente onde agradeceram o público de uma única professora que aplaudia vigorosamente. Ele sorriu pois aquele som era compassado com o seu coração. Descobriu que nesse mundo ele podia ser quem ele quisésse: pirata, menino, rei, escudeiro, piloto de carros, astronauta, professor, ator. Parecia que tinha descoberto um bom motivo para ir à escola, que aquela escapulida da aula tinha sido bem mais vantajosa do que apenas não ir à aula convencional.
Estava pronto, preparado, ensaiado, tudo arrumado pra apresentação. Mas no dia da estréia, não foi. Inventou uma dor de barriga, com medo do fracasso. Coisa de iniciantes…

 

A de amor Janeiro 28, 2008

Arquivado em: Contos — poetriz @ 10:51 pm

Quando criança conheceu as letras. E lhe ensinaram que com elas podia-se formar qualquer palavra do mundo. Palavras que podiam representar qualquer coisa. Qualquer um que lesse a palavra, entenderia a mensagem. E foi então que ela se apaixonou.
Como podiam simples letrinhas organizadas representar qualquer coisa? Borboleta no céu. Flor aberta. Fruta docinha que escorre caldinho pelo canto da boca. Poderiam representar aquela dorzinha na barriga no final da tarde quando a mãe chamava pra jantar ou o peso nos olhos a noitinha quando terminava a novela e era hora de ir pra cama.
Naquele dia ela sonhou com letras felizes e saltitantes, brincando de roda, de mãos dadas e formando palavras. Riso. Sonho. Chuva. Calor. Escola. E sorria movendo-se na cama como se dançasse junto com as letrinhas.
E anos mais tarde foi para a escola pela primeira vez. O caderno impecável e os lápis cuidadosamente apontados. Ela já sabia ler e escrever tamanha a paixão que tinha pelas letras. E foi na escola que ela conheceu algo novo: que as palavras podiam cantar sem serem músicas. Aprendeu a rimar. Sol com girassol. Flor com beija-flor. Pomar com cantar. E nesse dia ela começou um jogo secreto onde ela via algo pelo caminho e pensava na palavra escrita com letra de mão bem desenhada e em seguida numa rima.
E desde essa época ela mantinha essa paixão pelas palavras. Plantou-as como se fossem sementes. Cultivava com literatura e gramáticas. Regava com pinceladas de língua estrangeira. Quis conhecer a origem de tudo, o radical e o prefixo. Fez frases complexas e completas, abusou de verbos, adjetivos e advérbios.
Numa tarde nublada, que as nuvens começavam a derramar pingos d’água que mais lembravam lágrimas, as palavras se multiplicaram e deram um lindo fruto: o primeiro poema dela.

 

O começo da história Dezembro 24, 2007

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 11:00 am

[La Promenade - Renoir]

Essa história não começa com um “era uma vez”. Seria irreal dizer que histórias de amor começam com “era uma vez”. As histórias de amor nunca são únicas, toda vez que algo dá errado ela nos persegue como um círculo vicioso. Começa assim, você que até certo dia era alguém equilibrado, segura de si, se dá conta que um idiota aí que parecia estar a fim de você está se engraçando com uma vagabunda qualquer. Pronto, lá se foi a sanidade e lá vem o ciúme. E aí, estará tudo perdido. Porque desse dia em diante sempre haverá idiotas e vagabundas à sua volta. E mesmo quando eles estão disfarçados, sim, porque eles se disfarçam de “homem diferente” e de “melhor amiga”, você chega até a pensar positivo e quando se dá conta, lá está o homem-diferente-idiota dando em cima da sua melhor-amiga-vagabunda.
E como toda história de amor, essa não podia ser diferente. Ela não começou bem, nem sei se terminou. Mas ela está aí pra quem quiser saber (ou ler).
E também não sei dizer ao certo quando eles se conheceram, porque nunca se sabe se ela ou ele não estavam no mesmo metrô lotado numa quarta feira de manhã chuvosa indo para o trabalho, que até então, nem trabalhavam juntos. E quem poderia afirmar se naquele domingo ensolarado, os dois não se cruzaram na escada rolante de um shopping no centro da cidade fazendo compras ou por vaidade ou por necessidade?
O fato é que eles se conheceram, sem muita pompa. Esse é fulando. Essa é fulana. Prazer. Prazer. E seguiram a vida. Conheceram-se como se conhece qualquer pessoa por aí. E quantas “pessoas por aí” já não te apresentaram na vida que você não lembra nem o nome e nem quem te apresentou? Talvez você possa pensar que essa é uma história de amor fajuta, afinal, como duas pessoas numa história de amor não se conhecem de uma forma encantanda? Simples, porque a vida não é assim nem as histórias de amor. Bom, pelo menos essa história de amor aqui não é assim. Não tem nada de especial ou mágico.
É apenas a história de uma poetisa e um ator, que se conheceram num dia qualquer, num lugar qualquer e nem recordam-se quem os apresentou.
Mas apesar de tanto descaso e tanta simplicidade, creia, isso é uma história de amor.

 

Paciência tem Limites – um conto Julho 20, 2006

Arquivado em: Contos — poetriz @ 8:44 pm

Vizinhos plantavam, cada um, seu pomar. Um deles cuidava muito de suas mudas, enquanto o outro sequer regava as suas. O primeiro, indignado, chamou sua atenção:

– Não quero me meter, vizinho. Mas, sem água, suas árvores não crescerão, e poderão morrer.

O homem, então, explicou:

– Estou provocando o aprofundamento das raízes. Se eu regar muito, as raízes ficarão superficiais, pois haverá água em abundância.Como não há, as raízes buscam beber da própria terra, e assim ficarão mais longas, profundas e firmes, o que é ótimo para a árvore.

– Pode ser – retrucou o primeiro – Mas, assim, demorará para que as árvores cresçam e formem seu pomar.

– Eu sei – respondeu o vizinho. – Eu tenho paciência.

Anos depois os dois pomares estavam formados.Aquele que levou mais tempo para ficar pronto dava mais frutos, pois as árvores sorviam mais nutrientes por meio de suas longas raízes. Além disso, quando um vendaval passou pela região, o único pomar que não teve nenhuma árvore arrancada do solo foi o do homem paciente.

 

Sofrer pelo fim Fevereiro 18, 2006

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 11:12 pm

De vestido branco, tecido fino, ela abriu a janela e viu a tarde cinzenta. Era bom dia para o fim! Então sem pensar duas vezes, pegou uns trocados na gaveta apressadamente e desceu as escadas sorrateiramente para que nínguem a visse saindo do andar superior. A porta da saída fechou-se à suas costas silenciosamente antes que o empregado púdesse perceber sua saída. Seguiu pelo gramado do jardim, rápida e escondeu-se nas plantas. Saiu pelo portão num momento que ele estava por fechar com a chegada de um carro, um investidor londrino que diariamente vinha procurar pelos serviços do clube nas tardes de quinta feira. Ninguém viu ela ir-se, ninguém sentiria a sua falta até que precisassem dela e isso tardaria a acontecer.
Tomou um táxi duas quadras abaixo do clube.

- Newquay.

Seguiu silênciosa, aflita para que chegassem logo. Era um bom dia para o fim, ela não podia perder essa oportunidade! Chegaram, ela pagou e desceu descalça mesmo rumo ao mar agitado. O mar clamava pelo fim. E ela daria o que ele tanto pedia.
Já na beira, onde o mar insistia em molhar-lhe os pés e a barra do vestido longo, ela caminhava por uns instantes pensativa. Cambaleava quando a onda vinha mais forte, sedenta pelo fim. Até que a onda puxou-lhe os tornozê-los e roubou-lhe a areia que estavam debaixo dos pés e ela veio abaixo. Caiu ajoelhada, já em prantos, sonhando de uma vez todos os sonhos que poderiam ter acontecido.
Socou o chão e agarrou com os dedos trazendo um pouco de areia molhada em suas mãos. Abriu a palma já quase vazia, já que a areia vazou-lhe pelos vãos assim como seu amor que ela sabia ser impossível mas iludidamente chegou a acreditar que poderia vivê-lo. Mas agora era o fim.
Deitou no chão e como uma criança desenhou um anjo, movendo pernas e braços. A água vinha lhe chamar, apagar o desenho. Era o fim, não havia como desvencilhar-se dele. E num salto ela sentou-se. E ouviu o chamado. O vestido já transparente, molhado e sujo de areia. O cabelo sem o brilho de sempre. Maquiagem manchada. Olhos vermelhos. Coração aflito. Fim. Levantou-se com dificuldade e foi seguindo a linha do horizonte, caminhando entre soluços e lágrimas, entre trovões e relâmpagos. E uma chuva forte começou a cair misturando águas em seu rosto. Lavando-lhe os cabelos. E enfim um mergulho onde os pés mal alcançavam o chão. Seguiu nadando dentro d'água. Sua visão era turva, cinza, mas havia algo novo agora, havia silêncio. A mente parou de pensar, o coração parou de sofrer, as lágrimas deixaram de rolar, a luz se foi e o fôlego também. Subiu a tona jogando os cabelos molhados para trás. E a sua volta só havia mar. Mar e fim.
Um barco veio resgatá-la. Um barco surgido do nada, ao acaso, que passeava por lá e fora pego pela tempestade. Os passageiros preocupados ofereceram toalha, chá quente e tudo que era possível. Ela ficou apenas com a toalha e quis ficar só. Sofreu ali em silêncio o último sofrimento, sonhou o último sonho, esperou a última esperança, amou o último amor, chorou a última lágrima. Agora estava vazia. Porque era necessário chorar pelo fim, sofrer por ele, entristecer-se pelo fim já que todo fim é triste!
Então abriu os braços e a toalha estendeu-se como uma bandeira, o vento fazia seus cabelos e o vestido já seco dançarem, ela sorria. Agora vazia, estava pronta para um novo começo.

 

Cecile e Thirré – parte 3 Junho 16, 2005

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 11:21 pm

Era o dia do encontro do círculo literário, Cecile ficou de passar para apanhar Thirré no hotel. Parou em frente e buzinou. Para sua supresa, a porta de vidro do hotel se abriu revelando um casal sorridente e alegre, como que complices de um amor novo. O coração de Cecile gelou, sua garganta secou e seus olhos se incendiaram. Era nítida a infedelidade! Não bastava o telefonema, todos os segredos trocados no silêncio do quarto enquanto ela dormia?
Chegaram animados, abriram a porta e entraram. Ela fingiu um sorriso. Rochelle, no banco de trás bateu-lhe nos ombros, Thirré no da frente veio para beijá-la mas desviou. Não queria provar do batom de Rochelle nos lábios de Thirré. Ele percebeu a frigidez.
Seguiram em silêncio, quer dizer, Cecile maquinava vinganças em seu interior enquanto Rochelle e Thirré contavam peripécias do grupo. Eles mal perceberam o desconforto de Cecile que estava surda aos murmurinhos deles.
Chegaram ao encontro, num botequim onde já estavam reunidos os outros integrantes do círculo. Já estavam na terceira garrafa de vinho.
Todos contentes vieram felicitar Thirré. Rochelle relembrava os grandes escritos dele e suas opiniões tão criativas que em muito ajudaram ao círculo. Vendo a animação de Rochelle ao falar de Thirré, o ódio crescia dentro de Cecile. A cena merecia um poema fúnebre…
Cecile não se divertiu, não bebeu, não levou Thirré para o hotel e foi embora sem maiores explicações. Thirré ficou sentido e não entendia a postura dela, tampouco Rochelle percebeu que o olhar enciumado de Cecile.
Continuaram a madrugada inteira ainda brindando palavras poéticas e vinhos tintos.

 

Cecile e Thirré – parte 2 Junho 13, 2005

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 6:33 pm

Ela foi direto pra janela e a abriu. Raios de sol invadiram o quarto iluminado pela lampada amarelada.
-Pena que a vista não seja tão bela assim. Podia ter árvores, pássaros, um lago, montanhas…
-A vista que estou tendo é maravilhosa!
Ela sorriu e virou-se. Ele veio de encontro a ela e beijaram-se mais uma vez.
E os beijo foi tomando conta da mente deles e do corpo. E não puderam precisar como aconteceu, mas os dois já estavam nus sob o lençol branco do apartamento. As mãos se buscavam, se conheciam, se encontravam. A respiração marcava o ritmo até que os corpos já exaustos de se amarem se entregaram ao sono dos amantes.

Cecile acordou com os sussurros de Thirré, mas ele não dizia palavras doces em seu ouvido, palavras de amor ou de ternura. Ele estava ao telefone, e de sua boca saía outro nome de mulher: “Rochelle”. Ele contava animadamente da viagem, dos planos, dos textos literários. Cecile levantou-se embrulhada no lençol, tomou uma ducha rápida para esconder as lágrimas, vestiu-se em segundos e foi embora batendo a porta do quarto. Thirré sentiu-se tentado a ir atrás dela, mas conteve-se preso a uma linha telefônica.

 

Cecile e Thirré – parte 1 Junho 10, 2005

Arquivado em: Contos, Poetriz — poetriz @ 11:21 am

Cecile e Thirré participavam de um circulo literário de renome internacional. Nesse circulo eles trocavam cartas, poemas, romances, desgostos, sonhos. Essa partilha unia as almas dos autores e os transformam em notáveis amantes. Satisfazer o corpo é tarefa fácil, até mesmo um olhar pode levar um corpo às chamas, ao orgasmo. Mas atingir a alma… ah, a impenetrável alma. Essa que esconde desejos, oculta mistérios, forja sentimentos… A alma é traiçoeira! Engana os amantes, os amigos, a si própria.

Acontece que Cecile e Thirré achavam que se conheciam de alma, e por isso combinaram para que o corpo também fosse conhecido. Haveria um evento, na cidade de Cecile. Thirré viria não tão somente para a ocasião, pois seu intuito principal era conhecer a amada.
Ansiosa, na vespera da chegada de Thirré, Cecile não dormiu. Acordou ainda de madrugada e foi para a frente do espelho. A imagem não agradava em nada a ela, será que também não agradaria ao amado? Mas para que se preocupar, se a alma já esteve nua frente a ele. E maior intimidade que essa não havia no universo? Mesmo assim, ela se sentiu inferior, descuidada, feia. E mulher que se sente assim, se torna assim. Perde os encantos da auto-confiança. Ela pegou qualquer vestido, qualquer batom, qualquer sapato. Já sabia o resultado: seria repudiada, desprezada, esquecida. E a mente dela a atormentava e teve vontade de criar um poema. Um poema que quem lesse sentisse pena. Pena de um ser tão desprezível e abomínável, de um romance amaldiçoado.
Ela foi para o aeroporto, ficou em frente ao portão de desembarque por horas. A mente em turbilhão. Sabia que estava adiantada, mas ficou ali, ensaiando mentalmente como seria a recepção, como seria o primeiro contato físico. Talvez um aperto de mão. Não, um abraço. Melhor, um beijo no rosto ou talvez três. Foi quando ele apareceu, arrastando uma grande mala cinzenta cheia de roupas. Ele sorria e era encantador. Vestia a camisa listrada que ela lhe dera de presente numa data especial. E ficava perfeito. Ele caminhava envolto em nuvens perfumadas ao som de uma melodia operesca. Os olhos delas estava hipnotizados, só sairam do transe quando ele, já próximo a ela, passando por cima de toda a cena ensaiada na mente dela, a segurou pela cintura, largou a mala no chão e a beijou. O beijo era desesperado, quase engolindo-a, desajeitado. Ela o parou e sorriu.
- Não precisa ter pressa… – com um dedo na boca dele, calando-o. E voltou a beijá-lo, agora mais suavemente, conhecendo os lábios, a lingua, o hálito, o calor. Pressionava os lábios suavemente sobre os lábios dele. As línguas se enrolavam tal como serpentes encantadas. O beijo alcançou força tamanha que tocou a alma. Foi um beijo daqueles, que marcam a vida. Que se tornam marco de comemorações, lembranças na conversa entre os amantes que sorriem e tentam repetir o efeito. Mas em vão, porque o efeito do tão esperado primeiro beijo na pessoa amada é único. Ele marca nossa alma, nosso coração, nossa mente, nossa vida e se torna razão de nossa existência.
Seguiram para o hotel, onde ele ficaria hospedado. Ela o levou e conversaram durante todo o trajeto.
- Não quer subir? – ele sorriu.
- Acho que você precisa descansar da viagem… – ela sorriu.
- Então preciso de um colo, onde descansar!