Estava sentada no centro daquela sala escura. Ouvia o gotejar insistente de algum cano. A umidade e o cheiro também revelavam que ela estava num andar inferior de algum lugar. Mantinha a cabeça baixa, o longo cabelo despenteado caído pelo rosto, grudado no sangue que escorria de seus lábios. Ela sorria apesar de tudo. As cordas que atavam suas mãos às suas costas, feriam seus pulsos.
Dizem que quando estamos para morrer, a nossa vida passa como um filme em nossa mente. Talvez isso explicasse porque as lembranças vinham aleatóriamente em sua cabeça.
Não sabia explicar como e nem por que chegou até aqui, mas não se arrependia de nada, pelo contrário, aproveitou cada momento de sua vida.
O pai, russo, abandonou a família quando ela ainda era bebê. A mãe, italiana, casou-se novamente alguns anos depois com um americano e logo mudaram para Nova Iorque.
Foi nesse país que ela cresceu e onde conheceu Smith.
Ele que a introduziu no mundo da máfia. Seu primeiro assalto a banco, seu primeiro tiro, sua primeira fuga alucinada, tudo estava relacionado a Smith.
Smith não era boa companhia dizia a mãe e o padrasto. Mas ele atirava tão bem, dirigia tão bem e namorava tão bem que ela não ouviu os conselhos e se apaixonou. Só não sabia que ele também traía tão bem.
Depois veio Raol, um cubano caliente que dançava salsa e merengue. Raol também não foi aprovado pela família, mas aí já era tarde demais. Ela fugiu com ele pra Cuba assim que teve uma oportunidade. Ele atirava melhor, dirigia melhor e namorava melhor que Smith. E também traia melhor.
Um dia ela arrumou as malas e foi pra Rússia, a trabalho. E foi nesse país que Dimitri apareceu em sua vida. Dimitri era exímio atirador, exímio motorista e o melhor amante que teve em sua vida. Nunca descobriu traições dele, não até aquele momento…
[ Pierrot - Pablo Picasso ]
Seguiram em silêncio, quer dizer, Cecile maquinava vinganças em seu interior enquanto Rochelle e Thirré contavam peripécias do grupo. Eles mal perceberam o desconforto de Cecile que estava surda aos murmurinhos deles.
Ela foi direto pra janela e a abriu. Raios de sol invadiram o quarto iluminado pela lampada amarelada.
Mesmo assim, ela se sentiu inferior, descuidada, feia. E mulher que se sente assim, se torna assim. Perde os encantos da auto-confiança. Ela pegou qualquer vestido, qualquer batom, qualquer sapato. Já sabia o resultado: seria repudiada, desprezada, esquecida. E a mente dela a atormentava e teve vontade de criar um poema. Um poema que quem lesse sentisse pena. Pena de um ser tão desprezível e abomínável, de um romance amaldiçoado.









