Não sei a data certa porque não sou uma pessoa de guardar datas. A explicação disso é simples: o tempo que passamos com alguém não se mede em frações de segundos mas mede-se em frações de eternidade. Na ocasião, devo ter vivido uma eternidade e meia na companhia dele. A lembrança dele não me é constante, juro, mas alguns cheiros, algumas conversas sempre me remetem aquele tempo.
Ele não foi meu primeiro amor, nem classifico ele nessa categoria. Mas de amores, foi com ele que vivi por completo até o inacabado.
Eu não via beleza nele, antes disso, eu via a idade. Jovem, extremamente jovem comparado a mim. Eternos dois anos de diferença. E hão de concordar, quando se tem 12 e 14 anos, a diferença de idade é gigantescamente maior do que quando se tem 20 e 22. A estatura acompanhou os anos sempre crescentes, sempre crescendo. A criança tornou-se homem, assim a olhos vistos, a dias corridos a passos de eternidade. Mas meus olhos também mudaram com o tempo, mas tanta coisa mudou junto e não era mais possível voltar atrás.
Lembro do calor dos corpos juntos, inocentemente num abraço, caminhando lado a lado em muitas madrugadas quentes. Não sei se eram quentes de fato, mas por onde seguíamos tornavam-se sempre verões. Perdi as contas de quantas vezes, quantos passeios, de quantas desculpas pra caminhar juntos. Talvez algo entre uma eternidade ou metade. Todos tinham certeza, todos sabiam dos interesses mútuos, mas o único beijo demorou muito a vir.
Levou algumas danças, uma viagem no mesmo banco, uma confissão dele pra uma amiga, um porre pra enganar a mente que gritava: “olha a idade, olha a idade”. Teve um beijo tímido, molhado, descoberto porque foi público. Seguimos pra minha casa, ele guiando a bicicleta numa das mãos e a outra mão na minha. Patético, infantil, verdadeiro como nenhum outro haveria de ser. E o dia seguinte? E todos os dias que seguiriam depois daquele? E a eternidade? Como seriam? Não foram.
Todo mundo sabia, todo mundo tinha certeza, só eu que sufoquei a verdade. Era tanto amor, era tão bom e eu sufoquei. Falta de ar, o banheiro girando, banho, vômito. E o dia seguinte? Dor de cabeça, culpa, consciência. E a eternidade? Passando…
E aqueles olhos? Cheguei a falar daqueles olhos? Meu deus, aqueles olhos! Era negros como jaboticabas maduras, os cílios tão negros e volumosos que davam a impressão de estarem pintados e me olhavam como ninguém nunca me olhou. Normalmente a gente se vê refletida no olhar do outro, mas não era eu ali. Ou provavelmente somente ali, naqueles olhos, eu fui refletida de verdade.
Eu não sabia o que fazer com aquele olhar, com aquele amor entregue assim sem exigências, sem cobranças, sem prazos. Eu nunca soube o que fazer quando me vinham coisas boas, nunca me permiti aproveitar da felicidade. Então sufoquei. Mas todo mundo sabia que isso era errado, que não era pra ser assim, sufocado.
Ainda nos encontramos dezenas de vezes. O mesmo perfume, a blusa dele tão quente quantos os abraços, mas as noites era mais frias. Não houveram mais passeios. A diferença de idade foi diminuindo encontro a encontro, até que ele se tornou muito mais adulto que eu. Mais alto também. Mais belo. E o olhos, meu deus, aqueles olhos eram os únicos a continuar iguais. A me vigiar, denunciados por um sorriso tímido. Procuravam-me e disfarçavam. E se nossos olhos se encontravam, eu começava a ouvir um zumbido, um batuque tão grande no peito que ia chegando na garganta que por sua vez ia fechando, o ar tornando escasso, e o olhar entrando pelos meus olhos, invadindo a alma, aquecendo a face e eu era obrigada a desviar o olhar ou não sobreviveria.
Todo mundo sabia, insistia, mas não tinha como voltar no tempo, voltar atrás na eternidade. Foi quase meia eternidade ou uma inteira que passamos assim, mudos, calados, sufocados. Pra todo sempre, eternamente, amém.
Até que nunca mais nos vimos ou sequer tive notícias. Deve ter se casado, mudado, criado barriga e ficado careca. Deve ter engordado, envelhecido muitos anos e seguido a sina do pai, tornando-se dono e freguês de um botequim. Talvez até barbudo! Começo a esboçar um sorriso, lembrando daqueles 12 anos quando os pêlos teimavam em não aparecer na cara e cada um que surgia era comemorado.
Se passar por mim na rua talvez eu nem o reconheça tanto tempo que passou.A verdade é que eu prefiro não encontra-lo. Tenho medo de reencontrar aqueles olhos e não encontrar mais o mesmo olhar.