Poetriz

Sou um pouco de poeta e de atriz na frente do meu compoetador

Um leitor Novembro 14, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 8:17 pm

Que outros se jactem das páginas que escreveram;
a mim me orgulham as que li.
Não fui um filólogo,
não pesquisei as declinações, os modos, a laboriosa
mutação das letras,
o de que se endurece em te,
a equivalência do ge e do ka,
mas ao longo de meus anos tenho professado
a paixão da linguagem.
Minhas noites estão cheias de Virgílio;
ter sabido e ter esquecido o latim
é uma possessão, porque o esquecimento
é uma das formas da memória, seu impreciso porão,
o outro lado secreto da moeda.
Quando em meus olhos se apagaram
as vãs aparências amadas,
os rostos e a página,
entreguei-me ao estudo da linguagem de ferro
que usaram meus antepassados para cantar
espadas e solidões,
e agora, através de sete séculos,
desde a Última Tule,
tua voz me alcança, Snorri Sturluson.
O jovem, ante o livro, impõe-se uma disciplina precisa
e o faz em busca de um conhecimento preciso;
em minha idade, toda tarefa é uma aventura
que limita com a noite.
Não acabarei de decifrar as antigas línguas do Norte,
não afundarei as mãos ávidas no ouro de Sigurd;
a tarefa que empreendo é ilimitada
e há de acompanhar-me até o fim,
não menos misteriosa que o universo
e que eu, o aprendiz.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Tempo Novembro 13, 2009

Arquivado em: Verso & Prosa — poetriz @ 11:17 pm

“A viagem para a casa de praia levou uma hora de tempo real e vinte anos de memórias.”

– Sidney Sheldon in “Lembranças da Meia Noite”

 

Pedir Novembro 12, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 7:15 am

É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Fragmentos de um evangelho Apócrifo Novembro 11, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 8:14 pm

Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar…

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Invocação a Joyce Novembro 10, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 8:12 pm

(…)

Que importa nossa covardia se há na terra
um único homem valente,
que importa a tristeza se houve no tempo
alguém que se disse feliz,
que importa minha perdida geração,
esse indefinido espelho,
se teus livros a justificam.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Acevedo Novembro 7, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 8:11 pm

(…)

Não os perdi. São meus. Eu os detenho
No esquecimento, num casual empenho.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Os gaúchos Novembro 6, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 8:09 pm

(…)

Viveram seu destino como em um sonho, sem saber quem eram
ou o que eram.
O mesmo acontece, talvez, conosco.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Elogio da sombra Novembro 5, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 7:08 am

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)

pode ser o tempo de nossa felicidade.

O animal morreu ou quase morreu.

Restam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que não são ainda a escuridão.

Buenos Aires,

que antes se espalhava em subúrbios

em direção à planície incessante,

voltou a ser La Recoleta, o Retiro,

as imprecisas ruas do Once

e as precárias casas velhas

que ainda chamamos o Sul.

Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;

Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;

o tempo foi meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;

flui por um manso declive

e se parece à eternidade.

Meus amigos não têm rosto,

as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,

as esquinas podem ser outras,

não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isso deveria atemorizar-me,

mas é um deleite, um retorno.

Das gerações dos textos que há na terra

só terei lido uns poucos,

os que continuo lendo na memória,

lendo e transformando.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte

convergem os caminhos que me trouxeram

a meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, agonias, ressurreições,

dias e noites,

entressonhos e sonhos,

cada ínfimo instante do ontem

e dos ontens do mundo,

a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os atos dos mortos,

o compartilhado amor, as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,

a minha álgebra e minha chave,

a meu espelho.

Breve saberei quem sou.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Nome de paz Novembro 3, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:42 am

— Alfa é meu nome — disse.

E ele perguntou:

— Esse é teu nome de guerra?

E ele respondeu:

— Não. Esse é meu nome de paz.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
- O Afogado (IV)

 

Uma motivação Novembro 1, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:30 am

Debrucei a cabeça sobre a mesa limpa como se chorasse. Apenas como. Não havia porquê, e eu sempre pensava que devia haver uma motivação a orientar qualquer gesto meu.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
- Sarau