Poetriz

Sou um pouco de poeta e de atriz na frente do meu compoetador

Elogio da sombra Novembro 5, 2009

Arquivado em: Jorge Luis Borges — poetriz @ 7:08 am

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)

pode ser o tempo de nossa felicidade.

O animal morreu ou quase morreu.

Restam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que não são ainda a escuridão.

Buenos Aires,

que antes se espalhava em subúrbios

em direção à planície incessante,

voltou a ser La Recoleta, o Retiro,

as imprecisas ruas do Once

e as precárias casas velhas

que ainda chamamos o Sul.

Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;

Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;

o tempo foi meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;

flui por um manso declive

e se parece à eternidade.

Meus amigos não têm rosto,

as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,

as esquinas podem ser outras,

não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isso deveria atemorizar-me,

mas é um deleite, um retorno.

Das gerações dos textos que há na terra

só terei lido uns poucos,

os que continuo lendo na memória,

lendo e transformando.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte

convergem os caminhos que me trouxeram

a meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, agonias, ressurreições,

dias e noites,

entressonhos e sonhos,

cada ínfimo instante do ontem

e dos ontens do mundo,

a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os atos dos mortos,

o compartilhado amor, as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,

a minha álgebra e minha chave,

a meu espelho.

Breve saberei quem sou.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

 

Nome de paz Novembro 3, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:42 am

— Alfa é meu nome — disse.

E ele perguntou:

— Esse é teu nome de guerra?

E ele respondeu:

— Não. Esse é meu nome de paz.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
- O Afogado (IV)

 

Uma motivação Novembro 1, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:30 am

Debrucei a cabeça sobre a mesa limpa como se chorasse. Apenas como. Não havia porquê, e eu sempre pensava que devia haver uma motivação a orientar qualquer gesto meu.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
- Sarau

 

Lembranças Outubro 30, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 8:04 am

E o poema, o poema ainda estava lá, manchado de café. A única mancha do apartamento, parecia proposital. Tive um impulso de guardá-lo imediatamente, junto com todas as outras lembranças de Pedro, que recolhera e escondera de mim mesmo.

- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”

 

Olhar Outubro 29, 2009

Arquivado em: Rubem Alves — poetriz @ 7:58 am

Estão os dois, à mesa do restaurante. Olham-se.
Seus olhos não são os olhos ingênuos que contemplam as cenas de felicidade das telas de Larsson. A cena, refletida nos olhos do outro, não é uma cena de felicidade. Seus olhos procuram a felicidade que se perdeu. Mas como se perdeu? O rosto não é o mesmo, aquele mesmo rosto que, jurei para mim mesmo, haveria de amar para sempre? Olham um para o outro (tantas vezes fizeram isso!) – e fica não dita a pergunta que nenhum tem coragem de fazer: “Que é que fez com que a rosa que florescia deixasse de florescer? Que é que fez com que a rosa que s6 florescia rosas, agora floresça espinhos?”
O jantar termina. E cada um vai para a sua solidão. Lá, longe do outro, é finalmente possível amá-Ia. Na distância o outro não perturba a sua bela imagem. Ela está no retrato, como sempre esteve, imperturbada, sempre a mesma, congelada eternamente. E cada um sorri.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– A Rosa não mais Floresce”

 

Eterna criança Outubro 28, 2009

Arquivado em: Alberto Caeiro — poetriz @ 7:49 am

No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha de estar sempre sério (…)
Fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas
orelhas. (…)
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente.
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é.

- Alberto Caeiro

 

Acaso Outubro 27, 2009

Arquivado em: Clarice Lispector — poetriz @ 8:01 am

Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.

Clarice Lispector in “A hora da estrela”

 

Anonimamente Outubro 26, 2009

Arquivado em: Fernando Sabino — poetriz @ 8:47 am

Mas tenho em mim uma coisa que você se esqueceu de dizer: a capacidade de amar anonimamente, sem pedir nada em troca, sem reconhecimento, sem perdão.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

 

Nostalgia Outubro 25, 2009

Arquivado em: Martha Medeiros — poetriz @ 5:46 pm

você não acredita como eu me importei com você
como eu reparava nos teus cacoetes, ouvia tua voz
e pelo tom eu percebia como andava o teu humor,
como eu sabia bem dos teus horários, teus macetes
eu poderia ter escrito teu diário, tanto eu te conhecia
dava para sentir de longe o teu cheiro,
entender tuas manias
eu já estava louca de tanta nostalgia de você,
um rapaz que eu nunca vi, nunca falei,
nunca toquei,
nunca soube se existia

- Martha Medeiros in “Poesia Reunida”

 

Surreal Outubro 24, 2009

Arquivado em: Verso & Prosa — poetriz @ 5:46 pm

A gratuidade da ficção está repleta de alusões realistas que tornam mais saborosa a sua dimensão surrealista.

- Armindo Trevisan in “Sapato Florido – Introdução”