Poetriz

Sou um pouco de poeta e de atriz na frente do meu compoetador

Colcha Amarela Novembro 24, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 8:00 pm

Cada vez mais encolhida sobre a colcha amarela, foi ficando quieta, e eu também, porque era tão difícil, eu sabia, voltar para ser aqui e começar finalmente a crescer ou morrer, tanto faz, dá no mesmo.

- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”

 

Nome de paz Novembro 3, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:42 am

— Alfa é meu nome — disse.

E ele perguntou:

— Esse é teu nome de guerra?

E ele respondeu:

— Não. Esse é meu nome de paz.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
- O Afogado (IV)

 

Uma motivação Novembro 1, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:30 am

Debrucei a cabeça sobre a mesa limpa como se chorasse. Apenas como. Não havia porquê, e eu sempre pensava que devia haver uma motivação a orientar qualquer gesto meu.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
- Sarau

 

Lembranças Outubro 30, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 8:04 am

E o poema, o poema ainda estava lá, manchado de café. A única mancha do apartamento, parecia proposital. Tive um impulso de guardá-lo imediatamente, junto com todas as outras lembranças de Pedro, que recolhera e escondera de mim mesmo.

- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”

 

Pedaços de cada um Outubro 17, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 4:18 pm

Estava ficando velho, sentia saudade e remorsos por não tê-la assumido, mandou buscá-la para que ficasse junto dele enquanto envelhecia e pudessem assim reunir os pedaços de cada um.

- Caio F. Abreu in “Onde andará dulce veiga”

 

Não havia tempo Outubro 4, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:38 pm

Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia.

- Caio F. Abreu in “Os Dragões não Conhecem o paraíso”.

 

Agora vou ser feliz! Outubro 2, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 7:22 am

Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica.

- Caio F. Abreu in “Os Dragões não Conhecem o paraíso”.

 

Remar Setembro 25, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu, Poetriz — poetriz @ 7:59 am

“Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim.”

- Caio F. Abreu

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma.
Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também!
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade!
Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também.
Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças!
Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

 

Insuportável Setembro 14, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 1:05 am

Quando o sol estava se tornando insuportável — porque sempre chega um momento em que até o bom se torna insuportável

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
– O ovo apunhalado

 

No fundo do poço Setembro 12, 2009

Arquivado em: Caio Fernando Abreu — poetriz @ 11:35 pm

Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

Caio Fernando Abreu in “O ovo apunhalado”
– Nos Poços