Um dia, da ponta daquela mesa comum de hóspedes, dona Glorinha me interpelou:
- Seu Mario, o senhor ainda não leu o CRUEL AMOR?
Não, eu nunca tinha lido o CRUEL AMOR!… Pois tudo o que falta à minha vida, toda a imperfeição em que ainda me debato, vem de eu nunca ter lido o CRUEL AMOR… de ter achado ridículo o título.., de ter achado ridícula a transcendental pergunta de dona Glorinha…Mário Quintana in “Sapato florido”
Cruel amor Outubro 16, 2009
Envelhecer Setembro 30, 2009
Antes, todos os caminhos iam,
Agora todos os caminhos vem.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.Mário Quintana in “Sapato florido”
Quien supiera escribir! Setembro 22, 2009
O menino de joelhos sujos que chega em casa correndo e mal pode falar…
A velha dama que é agora obrigada a fazer renda para vender.., de casa em casa, a coitada!… e que senta na ponta da cadeira, suspira discretamente e murmura: “A minha vida é um romance….
Aquela moça que diz: Não quero ouvir isto!” e tapa os olhos…
Ah, quanta coisa deliciosamente quotidiana, quanto efêmero instante, eu não gravaria para sempre na memória dos homens, se…Mário Quintana in “Sapato florido”
A companheira Setembro 11, 2009
A lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E, pacientemente consoladoramente, aguarda os suicidas no fundo do poço.
Mário Quintana in “Sapato florido”
Viração Agosto 29, 2009
Voa um par de andorinhas, Fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro… Vontade… pata que esse pudor de certas palavras? Vontade de amar, simplesmente.
Mário Quintana in “Sapato florido”
Pés de fora Agosto 21, 2009
A negrinha, essa, tem medo de fantasmas.
Cada vez que um rato corre mais depressa, ela tapa a cabeça.
Mas fica com os pés de fora.
É o medo ridículo, tocante, desamparado, o medo de pés de fora.
Se eu fosse fantasma, eu… Não, não lhe faria nada: o melhor do susto é esperar por ele.Mário Quintana in “Sapato florido”
RBTD Agosto 7, 2009
Ha ocasiões em que não consegues nada, nem um sorriso, outras em que consegues tudo, até cartas de recomendação. Não te queixes, nem te gabes. Era que os anjos estavam brincando de rapa-bota-tira-deixa…
E a tua história quotidiana é tecida ao acaso dos lances.
Até que sobrevenha o R do rapa-tudo.(Aí então os anjos te recolherão.)
Mário Quintana in “Sapato florido”
Feliz Agosto 1, 2009
Deitado no alto do carro de feno… com os braços e as pernas abertos em X… e as nuvens, os vôos passando por cima… Por que estradas de abril viajei assim um dia? De que tempos, de que terras guardei essa antiga lembrança, que talvez seja a mais feliz das minhas falsas recordações?
Mário Quintana in “Sapato florido”
Comunhão Julho 23, 2009
Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais.
Mário Quintana in “Sapato florido”









