Arquivo da categoria: Rubem Alves

Engolir sapos

Engolir sapos

Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro jeito. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A pessoa que nos obriga a engolir o sapo, a gente nunca mais esquece.
Diz a Adélia que “aquilo que a memória amou fica eterno”. Aí eu acrescento algo que aprendi no Grande sertão. Conversa de jagunços matadores. Diz um: “Mato mas nunca fico com raiva.” Retruca o outro, espantado: “Mas como?” Explica o primeiro: “Quem fica com raiva leva o outro para a cama.” É isso. A gente leva para a cama a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em perdão. A gente fica esperando o dia em que ela também terá de engolir um sapo.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
- A arte de engolir sapos”

Casinha

Casinha

As casas estão ligadas ao amor. “Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado que – coitado! – de saudade já morreu”. O amor por uma pessoa começa do mesmo jeito como começa o amor por uma casa.
Vem primeiro o visível: a gente vê a casa, a gente vê um rosto, um corpo. E aquele sentimento de querer morar naquela casa, de querer morar naquele corpo … O que se imagina não pode se comparar ao que se vê. O que se vê é apenas um ponto em torno do qual a imaginação pinta a cena de felicidade. Sim, quero morar na casa, essa casa que vejo, de paredes brancas e janelas azuis porque estou amando tudo aquilo que acontecerá nela. Amo a casa de paredes brancas e janelas azuis pelos sonhos que a envolvem.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Por que a rosa não mais floresce?”

Dor da paixão

Dor da paixão

Começo minha inútil meditação com um verso terrível de T.S. Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder para lidar com a loucura da paixão. Ele reza assim: “… e livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita”.
Todo mundo sabe que paixão não satisfeita dói.
Mas poucos sabem que a paixão só existe se não for satisfeita. A paixão é um desejo de posse que, para existir, não pode se realizar. Como a fome: depois do almoço a fome acaba.
Paixão é fome. Ela só floresce na ausência do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do objeto amado. Não se trata de ausência física, o objeto amado distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de saudade. Saudade tem cura. A saudade é curada quando o objeto volta. A dor da paixão é diferente. Não tem cura. A saudade do objeto amado, mesmo quando ele está presente, é o perfume característico da paixão.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

Amo seu retrato

Amo seu retrato

O padre disse que foi a falta de desejo honesto de ser feliz. O padre estava errado. A rosa que amamos pode deixar de florescer a despeito dos nossos mais sinceros esforços.
Há algo trágico no poema de Cassiano Ricardo.
Por que tenho saudade de você, no retrato, ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato, mais que você, me comove, se você mesma está presente?
Quando li esse poema pela primeira vez tive a impressão de que ele estava brincando. Agora eu o leio como um lamento. Como eu amo você! Quem ama quer estar junto, segurar as mãos, ficar olhando para o rosto.
Mas eu não sinto isso quando estou com você – eu não o encontro em você. Encontro no seu retrato. Olho para você, do outro lado da mesa. E me lembro do seu retrato. O retrato! Olho o seu retrato e sinto saudades. O retrato é o lugar da ausência. Barthes diz que aquilo que todos os retratos retratam é a morte: o que deixou de ser, o que não é mais. O tempo do retrato é um passado irrecuperável. Amo um objeto que não tem mais existência: a sua imagem no retrato, morta, embora você mesma esteja presente. Meu amor mora num passado sem volta. Sendo esse o caso, não amo você, presente, diante de mim, do outro lado da mesa.
A rosa florescia. Por que deixou de florescer?
Talvez o amor não passe de uma deliciosa ilusão que se realiza em momentos sagrados, raros. Quando ele acontece é aquela felicidade imensa, aquela certeza de eternidade.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Por que a rosa não mais floresce?”

Assim é o amor

Assim é o amor

Assim é o amor. A tristeza amorosa é o vazio desejando o pleno. Sócrates inventou um mito para explicar o amor. Disse que Eros nasceu do casamento entre a “Pobreza” e a “Plenitude”. O amor é um buraco na alma. Quem ama é pobre. Falta alguma coisa. Peça desencaixada do quebra-cabeça. O sentimento amoroso é a nostalgia pelo pedaço que me falta, “pedaço arrancado de mim”. Assim são o masculino e o feminino.
O masculino é o pleno que ora pelo vazio que o abraçará.
O feminino é o vazio que ora pelo pleno que nele se encaixará. Quando os amantes se abraçam e as peças se interpenetram, os corpos se encaixam, como no quebra-cabeça. Todo ato de amor é uma realização efêmera de uma unidade original perdida.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Se eu fosse você”

Herança

Herança

Do meu pai, eu acho, herdei o gosto pela palavra, o prazer em criar mundos pela escrita e pela fala. O mundo do meu pai se abre para fora, para uma comunhão fácil.
Da minha mãe recebi as chaves que abrem as portas que levam ao mundo da música clássica. O mundo de minha mãe se abre para dentro, onde se encontram a alegria e uma comunhão difícil que beira à solidão.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Que bom que eles se casaram”

O tempo se mede em batidas

O tempo se mede em batidas

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”.
O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo?
Que posso viver num centésimo de segundo? Diz Ricardo Reis, no seu poema “Mestre, são plácidas” (que todo dia rezo): “Não há tristezas nem alegrias na nossa vida”. Estranho que ele diga isso. Mas diz certo: o tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.
Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça.
Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós – para o qual não temos correspondente: nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios: a ciência. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração.
Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Um caso de amor com a vida”

Como lagartixas

Como lagartixas

Mas nós somos como as lagartixas que perdem o rabo: logo um rabo novo cresce no lugar do velho. Assim é com a gente: logo a vida volta à normalidade e estamos prontos a amar de novo.
A saudade doída passa a ser só uma dorzinha gostosa.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– O Cemitério”

Esquecimento é uma graça

Esquecimento é uma graça

O esquecimento, freqüentemente, é uma graça. Muito mais difícil que lembrar é esquecer! Fala-se de “boa memória”. Não se fala de “bom esquecimento”, como se esquecimento fosse apenas memória fraca. Não é não.
Esquecimento é perdão, o alisamento do passado, igual ao que as ondas do mar fazem com a areia da praia durante a noite.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– O Cemitério”