Guilhermina e Ataulfo

Não sabia como iniciar essa carta. Apeguei-me às regras gramaticais e fiquei indecisa se devia usar o “não” no início da frase. Mas talvez vocês estejam perguntando por que estou explicando tal fato sem importância, mas o certo é que não sei por onde começar a explicar.
Numa manhã de sábado, eu não sabia se ia à academia ou se ficava e lia meu livro, estava indecisa. Fiquei parada entre um passo e outro, espiando pela janela. Queria um sinal do tempo, um trovão ou alguém passando na direção que eu devia seguir. Foi nesse inusitado momento, sem premeditação que encontrei as cartas.
Não foi roubo! Juro! Nem invasão de privacidade! Juro de novo! Chegaram-me à mão como chegam as borboletas em jardins floridos, chegaram-me como pingos de chuva em dia nublado, chegaram como folha seca em outono.
Mas tuas cartas trouxeram tantas coisas que nem imaginam. Nada de notícias ou lembranças de amigos próximos. Tuas palavras trouxeram-me dias do passado. A angústia do carteiro atrasado carregando minha carta colorida na sacola. Dias que não voltam, palavras que ficaram pra sempre numa caixa no meu armário. O remetente de tal época tão distante mudou-se e nem avisou. Mudou de vida, de amor, de correspondente. As cartas coloridas um dia ficaram escassas até que nunca mais chegaram.
Um dia tive o propósito de voltar a escrever, mandar cartas aos correios para que eles distribuíssem a quem precisasse de uma carta. Patético, eu diria,  afinal quem precisa de cartas hoje em dia? Porém, eu preciso.
E foi exatamente por isso que escrevi. Porque o carteiro já é conhecido meu, perdoe-o por favor. Ele sabia que aqui batia um coração saudoso de cartas. Foi cheio de boas intenções que ele deixou tuas cartas no meu portão. E foi cheia de esperança que as abri e li. E só agora devolvo-lhes os envelopes fechados novamente, porque não há dor maior do que não receber as cartas (e palavras) que nos são destinadas, que nos pertecem.

Com carinho,
Flávia.

PS: Inspirado no blog maravilhoso “Ataulfocomrainha“.

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6 comentários sobre “Guilhermina e Ataulfo

  1. Cartas. Não existe coisa mais atual. Outro dia escrevi uma, de mentirinha, para o blogue de uma amiga. Mas ficou a promessa (melhor, o compromisso) de nos correspondermos por cartas. É uma comunicação que não vai desaparecer.
    Lindo o texto. E a dica do Ataulfo, muito boa.

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  2. Penso que foi por orgulho que a comunicação e a amizade diminuiu na outra pessoa, aqui no texto. Mas alguém sempre mantém a chama do que é bom viva e nem tudo se perde.

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