Longas cartas pra ninguém

“Faço longas cartas pra ninguém…”
– Adriana Calcanhoto

A.

Te escrevi apenas uma vez, e me pergunto se algum dia você lerá isso. Quando aceitei aquele convite não passou pela minha cabeça o que poderia acontecer. Só então, dias mais tarde me ocorreu que era possível nosso encontro. Tanto possível quanto provável, e me animei. Cheguei a sonhar com você durante a semana e quanto mais perto da data, mais você invadia meu pensamento.
Ensaiei mil vezes o que iria lhe perguntar, como iria lhe dizer, estava tudo planejado e certo na minha cabeça.
Então encontrei você naquela escada e não pude disfarçar. Devo ter corado na hora. E aberto um sorriso gigante enquanto dizia “bom dia”. As cordialidades foram nossas primeiras palavras trocadas: “oi”, “bom dia”, “obrigada”. Não sei como cheguei no final do corredor, mas de repente eu estava lá e você passando por mim novamente, acenando com a cabeça, gesticulando um “oi”. Acho que não é só eu que fico confusa, porque tínhamos nos cumprimentado alguns minutos antes.
Fiquei preocupada se acabaria sentando-se ao seu lado, isso iria alterar todos os meus planos.
Eu estava tão certa que você se sentaria longe que quando me dei conta que você estava ao lado da minha cadeira reservada, meu coração saltou.
O dia estava tão quente, aquela roupa estava sufocando. Ou eu estava passando mal pela proximidade distante da gente. Minha perna que nem é de balançar, balançava sem parar, ansiosa pra sair correndo. Então veio um medo, um mal estar misturado com alegria, dúvidas e você ali, sua mão tão linda… Raramente eu comento, mas eu adoro mãos.
As mãos podem fazer tanta coisa! Um cafuné, um carinho, um abraço, uma massagem, um silêncio, um aplauso. Mãos com anéis são irresistíveis pra mim, exceto alianças porque isso me afasta. Unhas curtas, limpas, não eram roídas. Perdi um bom tempo analisando sua mão já que não podia exatamente te olhar no rosto, como sempre faço.
E teu riso largo, alto, gargalhado? Fiquei encantada com teu humor. Depois o abraço desajeitado que fiz questão de fazer um direito.
E perdi tudo o que ia lhe dizer, perdi tudo o que ia te perguntar. Perdi naquele sorriso, naquele abraço, no teu comentário largado no ar.
E eu estava feliz apesar de nada ter mudado.
Estava até ver você acompanhado. Era companhia mesmo ou ocasional? Estavam juntos ou se encontraram prestes a atravessar a rua e tiveram que aguardar juntos o carro passar. Eram plural ou singulares?
Minhas dúvidas continuam, mas algo mudou. É como se a barreira tivesse caído, agora você é alcançável. E também sei que não foi uma exceção, que agora há uma tendência de que esses nossos encontros sejam freqüentes.
Essa noite eu fiz uma prece. Mas não te contarei o que pedi, porque certos desejos demoram pra se realizar.

F.

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