Cartas para ninguém – VIII

M.

Você não deve ter percebido mas enquanto estávamos no metrô, aquele senhor meio bêbado, meio louco, meio profeta disse algo intrigante baseado na nossa conversa, no nosso comportamento.
Ele disse que “a mulher que se casa com o homem que ama ela, se torna milionária”. Achei engraçado porque estavamos ali, abraçados, você talvez enganando sua solidão, eu enganando um pouco meu coração, e o homem falava em amor.
Amamo-nos? Não sei o que há entre nós. Mas tem me feito bem apesar dos pesares.
Sabe, ultimamente tenho refletido sobre muitas coisas. Pra ser mais exata, coisas do meu passado. Tudo desencadeado por uma carta que alguém deixou pra si próprio jovem. E escrevendo mentalmente para mim, recordei de alguns amores que tive.
Decepcionei-me algumas vezes, mas tenho certo, decepcionei aos outros bem mais. Fui insegura em todas as ocasiões. E agora, décadas depois de alguns amores, chego a conclusão que todos me amaravam de verdade. A única que não amou, fui eu.
Amaram-me cada uma à sua maneira, oferecendo carinho, consolo, emoção, fé, esperança, experiências, futuro. Recusei tudo quando me senti envolvida demais, quando podia ficar sério. Nunca gostei dessas cobranças e expectativas. Isso explica porque não falo muito, não compartilho minha vida pessoal com ninguém.
Não podia chegar perto de um altar, não podia carregar anos de relacionamento, não podia correr o risco de chegar tão perto da felicidade. Abdiquei a tudo antes do fracasso.
Desisti do amor antes mesmo de conhecê-lo.
E é isso que ainda me liga a você. Parece que você também desistiu do amor e não pensa em buscá-lo.
Seguimos nossas vidas assim, alimentados de migalhas, satisfeitos, sem desejar um banquete.
Concordo com o “profeta”, encontrar um homem que ama uma mulher e que ela o ame também, é ser milionário. É quase como ganhar na mega sena!
Da minha parte, nasci pobre e aceitei esse destino.

Seus beijos são moedas lançadas aos mendigos.
Estendo a mão para alcançar alguns.

F.

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