Cartas para Ninguém – O Fim

M.

Existem muitas maneiras de magoar alguém. Uma delas é sustentar ilusões. Não é qualquer pessoa que se ilude, somente as sozinhas, as frustradas, as feridas, as fragilizadas. E se agarrar a uma ilusão é a pior coisa que existe no mundo, pois não é palpável, não é algo nítido, escancarado.
Um corte do dedo dói por um tempo, sangra, infecciona. As vezes você está lavando a mão e arde o dedo, e só então lembra que cortou mas nem lembra quando ou como foi. E esquece antes mesmo de secar a mão.
Um corte no coração, na alma, lateja eternamente. Não sara porque é impossível conferir sua cicatrização, não cura porque não damos oportunidade de novas experiências, não forçamos o “sabão com água” em cima da ferida, entende?
Como o corte no dedo, um dia senti uma ardência no coração tão forte e tive a certeza, naquele instante, que eu não seria a mesma nunca mais.
Não haveriam novas oportunidades para a desilusão em minha vida.
E não houve, nunca houve. Eu mesma fiz questão de garantir que isso ocorresse.
Eu fui sincera quando disse que não te amava, e não amo mesmo.
Porém, é insuportável ver você usando as armas tão comuns, tão óbvias da conquista. Um elogio pra as frustrações como “você é linda!”, um carinho na despedida como um “se cuida”, a semente cuidada diariamente com um “bom dia, amor”. E a fatal cartada final “eu te amo”.
Não ama, M. Você não sabe o que é o amor.
Amor é cuidar do outro, é querer o bem do outro, é estar presente quando ele precisa, ausente quando necessário sem jamais “tirar o olho” de cima. É garantir a felicidade, contada centavo a centavo. É desistir de um filme, escolher outro sabor.
Amar é mais recusa que entrega. Recusa-se a si próprio em prol do outro. Amar é recusar entregar o amor que sente porque o outro não corresponde. Só para ele ser feliz, só pelo bem dele. Por isso só acredito no amor sincero das mães.
Essa carta parece desiludida com o amor, não parece? Mas é exatamente o contrário.
Eu acredito no amor sim, no amor sincero, puro, verdadeiro. E por acreditar num amor assim é que me recuso a ter qualquer coisa que seja menos do que isso.
Isso também não quer dizer que eu ache que vou encontrar um amor assim, prontinho, só esperando por mim. Que nada! Quem sabe eu dou uma baita sorte na vida e encontro alguém que acredite nas mesmas crenças que eu, que sonhe e tenha os mesmos objetivos: de construir um amor assim, lindo!
Eu quero a oportunidade da espera, quero a liberdade de poder me entregar a essa busca a qualquer momento.
De repente, quero tudo, quero o mundo, quero a mim mesma como nunca me quis tão bem.
É por isso que não posso aceitar o que me oferece: participar dessa patifaria.
Quero alguém que saiba o certo e o errado, e que tenha consciência que é errado brincar com os sentimentos dos outros.
Meu coração incurado não aceita novas ilusões.
Você não passa disso, de uma ilusão. Passageira ilusão. Então abro os olhos, acordo: você não é e nunca foi pra mim. O tempo todo, foi pra você.
É com alívio e pesar que digo adeus.
Nunca um fim teve um gosto tão doce em minha boca.

F.

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Um comentário sobre “Cartas para Ninguém – O Fim

  1. Perfeito. Preciso disso, preciso dessa “coragem”.
    Acho que ainda estou vivendo na ilusão.
    Não sei realmente quanto eu gosto/amo.
    Sei que está sendo muito difícil.
    Adoro seu blog.
    =)

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