Aquilo que perdi

eu sou aquilo que perdi“. 
Fernando Pessoa.


Querido E.

Encontrei tua carta ao acaso. Creio que foi assim também que me encontraste. Não seria o acaso a única certeza da vida? Ou seria o destino? Pra mim, destino não existe. Ou existe de certa forma, diferente do que se fala por aí: “uma história pronta, com final previsível”. Essa certeza não existe. Porque hoje eu sou uma pessoa, e amanhã outra diferente. E como seria possível adivinhar que aquele amor de infância estaria conectado num sentido lógico a compra de um pastel de queijo no sábado passado?
Meu blog, ou meus pensamentos e sentimentos, como você pode perceber, anda meio abandonado. Ando em crise de fé, de existência, de amor, de literatura. Ainda não sei o que vou ser quando crescer em plena crise dos 30.
A verdade que constato agora é que tudo aqui não é um mantra ou uma previsão do futuro. Tudo isso é um grande lamento!
Que lamentável a vida dos amantes separados e dos que nunca se encontrarão.
Que lamentável perder a fé antes de realmente precisar dela.
Que lamentável acreditar que o sentido da vida se resume em amar um homem/mulher.
Que lamentável haver tantos livros maravilhosos e o tempo ser tão escasso.
Oh, lamentável sina que carrego! Destino? Acaso?
Olho para trás, pras linhas escritas nessas páginas. Encaro as linhas mal traçadas na palma da minha mão. E reconheço: Sou aquilo que perdi!
Perdi a fé, uns dois ou três amores, uma dúzia de amizades, infinitas possibilidades. E transformei tudo em palavra.
Levantei minha mão e enroscaram entre meus dedos umas frases soltas. Na ponta de meus dedos ficaram presas frases inteiras de romances que devorei. Recolhi tudo e guardei como um tesouro incalculável.
Troquei tudo o que me fez sonhar, chorar, suspirar e desistir, por poesia.
Queria lhe falar mais, escrever mais. Mas não posso.
Calo-me frente a essa dura constatação da perda.
Todo dia perco algo. Novo, de novo, novamente. Num círculo vicioso infinito.
Perder sim, é destino calculado, previsível.
Por isso, encontrar tua carta me causou tanto espanto!
Porque você também está condenado: perderás toda tua vida em tuas palavras.
Engatinhadas, talvez, mas não mais caladas como suspeitavas.

Poetriz.

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