Leia essa canção: Camaro Amarelo

E agora eu fiquei doce igual caramelo…
Munhoz & Mariano in “Camaro Amarelo”

Algumas pessoas acham que apelidos são stigmas, porém para Camaro era uma grande história. Ele, um moreno alto de pele bronzeada e olhos dourados, tinha a pele comparada com caramelo. Aliás, não só a cor da pele tinha a fama de caramelizada, como também seus lábios e beijos. As moças da cidade suspiravam quando Camaro passava e cada suspiro parecia um chamado que Camaro prontamente atendida. Se caminhava pela calçada e ouvia o suspiro, parava e olhava para trás. Se a visão lhe agradasse, sorria. E seu sorriso luminoso de dentes brancos e bem alinhados era fatal. Se a moça já suspirava, o que indicava problemas respiratórios, o sorriso arrebatador trazia problemas no coração que palpitava incoerentemente de antecipação.
A antecipação era outro trunfo de Camaro. Nunca ia direto ao ponto. Antes encurralava a vítima, se assim podemos chamar, numa parede. Aproximava-se ao ponto de que a jovem sentisse seu hálito sempre fresco de folhas de hortelã. Ajeitava o cabelo da jovem, sussurrava-lhe ao ouvido e elas sempre, invariavelmente, sorriam desconcertadas.
Então partia deixando uma promessa. Nunca levava nada consigo da dama. Nem um lenço, pingente, cacho de cabelo ou mesmo um beijo casto nos lábios. O seu prazer estava na conquista.
Seu apelido vinha desde sua concepção. A mãe, uma jovem desmiolada como dona Esperança a chamava, ainda com 17 anos apaixonou-se perdidamente por um Camaro amarelo que chegou na cidade.
O dono, um rapaz no auge de seus 18 anos, ganhou o carro do pai rico. Desfilava pelas ruas da cidade em seu carro amarelo.
Muitos apontavam o mal gosto da cor berrante. Uma cidade acostumada com cores neutras ficou em choque. Mas para a menina de 17 anos que nunca havia andado de carro, o Camaro amarelo foi a realização de um sonho que ela nem sabia que tinha.
Foi no estacionamento do rodeio, as 4 e 15 da manhã, quando só havia o pessoal da limpeza e alguns bêbados, que a desmiolada entregou sua virtude no banco traseiro do Camaro ficando grávida na mesma ocasião, já que confessadamente não voltou a encontrar-se com o dono do Camaro.
O dono do Camaro não era da cidade, ele havia vindo exclusivamente para o rodeio. E portanto, não ficou sabendo do filho. E a desmiolada, nem tinha intenção de ficar grávida também.
Quando a barriga começou a apontar, não sabia do que se tratava. Foi necessário que Dona Esperança lhe explicasse. A gravidez foi tranqüila, mas a jovem mãe não resistiu ao parto, ficando Dona Esperança que já ia ser a madrinha de consideração da criança, responsável pelo menino.
Aos olhos e coração de Dona Esperança, o menino foi criado como qualquer filho legítimo: com responsabilidades, carinhos e também corretivos quando necessários.
Camaro saiu uma mistura do pai, da mãe e do carro amarelo. A pele bronzeada, os lábios carnudos, o corpo forte e firme, o cabelo cacheado, tudo era fácil de identificar nos genes dos pais. Porém, o olho dourado era sem explicação. Claro que ninguém conhecia os avós de Camaro, o que justificaria aqueles olhos de tigre.
Mas quando toda a cidade viu aqueles olhos dourados não puderam deixar de correlacionar com o Camaro amarelo. E desde esse dia, tornou-se mais que um stigma, tornou-se nome próprio.

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