Coração congelado

Um dia a gente se pergunta se isso que carrega no peito terá algum outro sentido além de bombear sangue.

Culpa do Antônio, hipoteticamente, que um dia pisou nos nossos sentimentos. Tá, no meu, confesso.

Antônio, de olhos castanhos e cabelos claros, pele levemente pintada de sol. Descrevo para ajuda-los a imaginá-lo melhor, caso Antônio existisse em carne, osso, puro músculo definido em quase dois metros de altura.

E você entrega tudo pra esse indivíduo. Entrega sonhos, expectativas, compartilha seu dia-a-dia e começa a fazer uma poupança conjunta pra comprar um apartamento. E então se casam de véu, grinalda, sobrenome trocado, buquê de rosas vermelhas e toda a família  e amigos de Antônio presentes, te apoiando e dizendo o quanto ele mudou e amadureceu. E te agradecem, te abraçam e você, que sempre teve uma família pequena: pai, mãe, dois primos distantes de uma tia que você nunca mais viu, se sente bem vinda, integrada. Acha que encontrou seu lugar no mundo e chama de destino essa felicidade louca que te inunda.

Meses depois seus amigos te encontram pela rua e ainda te felicitam pelas fotos lindas que você publica no facebook de tantos momentos românticos com Antônio, o marido perfeito.

Antônio não é perfeito, que fique aqui registrado.

Não vou entrar em detalhes sobre a lista de defeitos e desprazeres vividos ao lado de Antônio, porque confesso, houve bons momentos. Tem que ter havido pra justificar toda a confiança depositada nessa convivência.

Mas o fato é que Antônio jogou tudo pra cima e foi embora com a secretária de seu trabalho viver na Nova Zelândia.

Desde então, não acreditei mais em amor, casamento, homens e toda essa tralha que minha vó insiste que é imprescindível pra nossa felicidade.

E eu digo, vó, hoje em dia as mulheres não precisam mais se casar, podem sustentar sozinhas uma casa, trabalhar fora. E quem precisa de filhos quando pode curtir os filhos das amigas e quando eles ficarem chatos, devolver para elas? E há estudos que dizem que pets substituem a falta da maternidade nas mulheres modernas. Vou comprar um cachorro amanhã.

Você, depois de tanto tempo sozinha, começa a se perguntar se Antônio realmente existiu. Se não foi uma história que você leu num livro de ficção, um sonho pesadelo que seu subconsciente te fez passar ou algum lapso do cérebro chamado dejá-vu.

E hoje, alguém do seu passado remoto de quando você era jovem, linda e menos amargurada, ressurge das cinzas e diz que nunca te esqueceu.

Algo dentro de você quebra. Você sente.

Mas é um quebrar diferente, é mais um derretimento, como se seu coração estivesse congelado e de repente voltasse a bater sob essa casca grossa de gelo que você mesma criou para não sofrer mais.

E dói. E dá medo. E te surpreende.

Surpreende porque você não esperava ainda poder sentir alguma coisa. Claro que o você está sentindo agora não é amor ainda, mas pode se tornar, mas é essa estranha esperança que te devolve a fé de que as coisas podem mudar, melhorar. Não digo nem agora, nem dessa vez, mas um dia.

“Um dia”. E eu repito como um mantra, pra guardar, pra memorizar, pra digerir.

É pra isso que serve essa batida compassada no meu peito. Não só pra bombear sangue, mas pra lembrar que a vida é um dia de cada vez. Como um relógio tiquetaqueando: um dia de cada vez. Um dia de cada vez. Um dia de cada vez.

Poetriz

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