O amor insiste

O amor trazido por aquele amigo ressurgido das cinzas não vingou.
Estava condenado antes mesmo de nascer.
Era amor demais pra mim, tive medo de me afogar e não corresponder em nada. Como aquela pessoa que nunca foi à praia, e indo pela primeira vez, mal toca o pés na água.
Não fazia sentido para mim que no passado não havia acontecido, porque agora seria diferente?

Mas o amor insiste.

E em meio a essas dúvidas, alguém de muito longe e portanto inacessível me trouxe esperança.
Regava meus dias com poesia e palavras doces.
Ele dizia que eu era a melhor coisa do dia dele, sem saber que ele era a melhor coisa do meu dia.
Nunca o disse. Não podia! Ele era inacessível, lembra?
Tão longe, tão comprometido. A geografia e o tempo não nos eram favoráveis.
Se tivéssemos nascido em outra era ou em outro país ou nos encontrado antes.
E apesar de tudo, me trouxe paz e esperança de novo.
Porém, ele se foi.

Eu devia estar distraída.
Ele sentou do meu lado e foi tão gentil, falou-me de sonhos e projetos. De passado e tristeza.
Eu devia estar distraída.
Ele chamou meu nome e olhei para trás. Sorria. Reparou no meu cabelo curto e me peguei sem graça, explicando o que tinha feito.
Disse adeus e levei um sorriso no rosto que não me abandona mais.
Eu devia estar distraída.
Aquelas palavras de agradecimento dizendo o quanto sou legal com ele.
Eu devia estar distraída.
Não o vi na fila do almoço com seus amigos, era o último. Cumprimentou-me com um beijo, deixou que eu passasse em sua frente, trocava palavras sobre comida. Tão descontraído, tão desinteressado!
Então quando sentei sozinha numa mesa, reservada por minha amiga, ele veio me fazer companhia. Havia apenas dois lugares! Eu, ele e então não havia mais ninguém no mundo. Nem no passado, nem no futuro, só a gente ali, sozinhos num restaurante lotado.
Eu devia estar distraída.
Puxei outra mesa para o terceiro lugar.
E antes dela chegar ele iniciou uma conversa pra quebrar o silencio. Eu silenciava? Logo eu, que falo tanto!
Eu devia estar distraída.
Falamos de trivialidades: de endereço e trajetos, de filho, de times e copa, de faculdade e pós.
Caminhamos lado a lado, tínhamos o mesmo destino.
Ele, do lado de fora da calçada! Quem ainda faz isso?
Eu devia estar distraída.
Não percebi a armadilha sendo construída.

O amor não desiste.

Poetriz

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