Cartas para Outros Ninguém – III

N.

Te esperei tanto e você não apareceu.
Imaginei que foi minha ansiedade que te encheu de receios. Querido, jamais eu voltaria pra tua vida para estragá-la. Não tiraria nada de ti: família, filhos, emprego, sonhos, futuro. Ao contrário, ficaria ao longe, espectadora do teu sucesso.
E confesso, no fundo ficaria com um pouco de inveja, imaginando se eu tivesse, naquele dia, tido coragem.
Mas seria tamanha a minha felicidade de saber que estás bem.
Imaginei tudo menos o que ao final descobri.
Estás mal. Muito mal.
E me pergunto, em que momento que deixaste de ser aquele menino tímido, de pele corada e ombros largos, que fazia sucesso entre as meninas. Pelo menos comigo, ah, como eu me lembro! Tua chegada fazia meu coração acelerar e quando abria teu sorriso, eu prendia o fôlego e rezava baixinho para que a batida do meu coração não fosse tão alta quanto eu escutava. Achava que era de bem, esconder o que eu sentia por você.
Eu sentia medo, já te disse? Um misto de medo de amar e da minha mãe. Sim, da minha mãe! Não rias. Naquele tempo eu tinha medo e aceitava as imposições dela. Como a mãe do livro “Orgulho e Preconceito”, ela achava que todo passo dado era pra construir um futuro (leia breve e certo) casamento.
Hoje eu vejo, devia ter tampado os ouvidos para toda aquela baboseira. Afinal, quem planta o futuro aos 14 anos? Quem conhece o seu marido aos 15? Que vida está decidida aos 16?
Então me ocorre agora, o que você não passou ou ouviu em casa também?
Teus pais eram daqueles que achavam que o homem tinha que ser garanhão? Que devias herdar o bar do teu pai?
Quais os caminhos que você escolheu pra se perder tanto?
Da vida, de mim?
Fui eu que tomei outro caminho ou você?
A gente ainda vai se reencontrar algum dia? Espero que sim.
E não sei por que, sinto-me um pouco culpada apesar de saber que sou inocente. Por que?
Se eu tivesse tido mais coragem naquela época, teria sido diferente?
Hoje, eu sei, não tenho coragem de te encontrar. Eu não posso te salvar e me sinto culpada.
Porque antes eu tinha a quem culpar e agora, sei bem, o preconceito é meu.
Sinto-me triste e com lágrimas nos olhos.
Fica bem, melhora. Nem sei o que te desejar. Sei lá, talvez que você acorde, que supere, que se erga.
Ainda espero. Sim, porque esperanças é o que me resta.
Do presente, do futuro.
Dessa merda que a gente chama de vida.

F.

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2 comentários sobre “Cartas para Outros Ninguém – III

  1. Achei triste, mas… como você mesma diz em seu texto: Afinal, quem planta o futuro aos 14 anos? Quem conhece o seu marido aos 15? Que vida está decidida aos 16?
    E não é que é, mesmo?!
    Por isso, está tudo bem e vai ficar cada vez melhor… pode crer!
    🙂

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