A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

No começo, fiquei nervosa. Mas, conforme eu ia lendo, fui prestando atenção e entendendo.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
— Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Minha voz deve ter saído trêmula, porque o poema era um terremoto em mim. Quando terminei, a sala estava em completo silêncio.

Ava Dellaria in “Carta de Amor aos Mortos”

Esse mesmo poema, eu já tinha lido alguma vez em algum lugar e coloquei aqui em outra tradução.
Pena que na época eu não me importava com as fontes e não anotei de onde retirei a citação.

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