Viver sem Tempos Mortos

“Quanto a mim, não mais me deitar cansada no feno perfumado. Ou deslizar na neve deserta, onde exatamente eu me encontro. O que me surpreende é a impressão de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice.

O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente.

Não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.

Sim. É isso. Reconheço que ao meu passado eu devo o meu saber, a minha ignorância, os meus interesses, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Hoje, que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade? Não sou escrava dele. Não sou escrava do meu passado.

O que eu sempre quis foi somente comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, da minha própria vida. Acredito que consegui fazê-lo.

Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.”

Simone de Beauvoir in “Viver sem Tempos Mortos” (monólogo)

Esse texto também foi lido lindamente pela Fernanda Montenegro, e você pode conferi-lo aqui.

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