Cartas ao amor ausente – III

Pai,

Hoje faz doze anos ou mil anos, não sei exatamente. E sempre choro ao lembrar de você.
Também os sonhos mudaram, cada vez mais esparsos. Acho que o último foi no seu aniversário. A V. que reclama que nunca sonha com você. Mas sonhar é pouco, um abraço seria muito melhor.
Aqui tua ausência foi preenchida com muitos cachorros. Perdeu-se a conta. Era amor demais para dar e um vazio muito grande pra preencher.
Eles trazem alegria e barulho. Tem horas que até incomodam. Mas como não amar essas criaturas abandonadas pela vida?
Billy é o caçula, em ordem de chegada. Ele é o único menino entre elas, entre nós.
Ele também sofreu uma perda recente, esse é o único que não foi largado na rua. Billy tinha lar e amor. Alguém que cuidava de sua doença. Ele tem epilepsia.
Estamos em época de olimpíadas. E não tem mais graça assistir vôlei ou futebol sem seus comentários. Ou qualquer outro esporte. Eu digo para os outros que eu não ligo, não acompanho. Mas a verdade é outra.
Ontem resolvi ver um trecho de um jogo de volei, mas não suportei e fui dormir.
Acordei de madrugada, com os gritos da V., porque o Billy estava convulsionando.
Parece que ontem também, ele teve uma emoção muito forte ao rever uma amiga da ex-dona dele.
Ele ficou mais de uma hora convulsionando e eu fiquei ao lado dele, acariciando sua testa, esperando ele se acalmar.
Você se lembra?
Afinal, o que mais se pode fazer quando a saudade bate tão forte assim?
Fiquei ali, até que meu coração também se acalmou.

F.

#BEDA19

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