Não quero sentir medo

❝Queria perguntar em voz alta, mas a voz não saía, por mais esforços que fizesse, por mais que seus braços furassem o vazio e seu corpo amarrotasse as cobertas sem encontrar posição. Febre, tenho febre, pensou. E as palavras eram algo sólido, uma certeza onde poderia segurar-se. Tenho febre, repetiu sem voz. Passou novamente a mão pela testa, sentiu-a estranha. Quente, seca, fria, úmida. Havia inúmeras gotinhas sobre ela, gotinhas minúsculas que sua mão ia destruindo aos poucos. Levou a ponta dos dedos até os lábios. Sentiu um gosto salgado. De suor, lágrima, medo. Levantou o corpo na cama— não, medo não. Sacudiu a cabeça, as gotas rolavam pelo rosto sem que ele soubesse se seriam de suor ou de lágrimas. Das faces desciam pelo pescoço, molhavam o peito, o ventre, as coxas, os pés, escorregavam para dentro e fora dele. Estavam nele, junto com ele— eram ele próprio. O medo. Medo não medo não medo não, resistiu. Pois se sentisse medo, pensou vagamente, não poderia contar sequer consigo próprio. E eu só tenho a mim, eu só tenho a mim, repetiu, voltando a cair sobre a cama. Não posso sentir medo, não devo sentir medo, não quero sentir medo.❞

– Caio F. Abreu in Limite Branco

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