A máscara

Levantava o corpo caído baleado na perna quando um facão atravessou-lhe o peito. No instante em que perdia a consciência, o rosto do outro se gravou na pupila do soldado como que marcado a fogo. O sangue vertido no peito se esparramou sobre a terra. Era uma encosta de montanha parecida com a que havia perto da vila natal, embora estivesse longe de sua terra.

O sangue permeou a terra e se tornou terra. No começo era de uma cor um pouco mais escura do que a da terra ao seu redor, mas, aos poucos, foi se tornando uma cor só. A terra era a própria vida para este soldado que no passado arara a terra. A raiz de uma eulália, quase que furtivamente, foi sugando pouco a pouco a seiva do soldado. O soldado se tornou eulália.

Confusas botas militares pisotearam a eulália de cima a baixo da montanha.

No inverno, botas ainda mais pesadas pisaram-na por cima da neve que a cobria. Pisaram-na várias vezes e muitas vezes mais. No entanto, a eulália não morreu. Depois que as botas se foram, a eulália foi sacudida pelo vento de primavera, aquecida ao sol de verão, lavada pela chuva e orvalho, coberta pela neve, e novamente agitada ao vento de primavera. Numa primavera tardia, um camponês ceifou a eulália e a levou para um estábulo.

Tornou-se boi. O camponês dono do estábulo cuidava do boi como o membro mais precioso de sua família, assim como fizera o soldado quando camponês. O soldado trabalhou arduamente junto ao seu novo dono camponês.

Trabalhou até criar calos no couro. Mas a vida dificilmente melhorava. Entrava ano e saía ano, mas era tudo igual. Numa noite, depois de uma enchente que devastou a plantação, o camponês acariciou o pescoço do soldado e chorou em silêncio. Depois, o soldado passou pela feira, trem de carga, abatedouro e, finalmente, foi pendurado no açougue de uma cidade. Foi feito em pedaços para ser vendido. Foi quando encontrou alguém que parecia conhecer. Era o homem que lhe atravessara o peito com um facão na encosta da montanha. Arrastava-se pelas ruas mendigando. No resto de comida que havia mendigado de um restaurante, comeu a carne do soldado. O soldado entrou no homem.

O homem recuperou as forças repentinamente, jogou no chão a lata que segurava e saiu andando. No macacão de trabalhador que vestia, todo gasto, pendia mole uma das mangas sem braço. Foi andando até uma fundição e parou em frente. Trabalhara lá como torneiro antes de perder o braço no campo de batalha. Sem titubear, entrou decidido na fábrica. Estava lá o mesmo supervisor de antigamente.

– Como vai o senhor?

O desagrado era claro na expressão do supervisor. Tirou o cigarro da boca e o esmagou com a ponta do sapato.

– Senhor supervisor! Não precisa ficar aborrecido. Hoje não vim para aporrinhar, sabe? Vim trabalhar, como eu fazia antes.

O supervisor lançou um olhar apreensivo para a manga que pendia mole sem braço.

– O que está olhando? Olhando direto nos olhos do supervisor, o homem continuou:

– Tá certo que tenho uma perna inutilizada porque fui baleado, mas isso não quer dizer que eu não possa fazer o trabalho de torno, não é?

Enquanto falava com todo o corpo, a manga sem braço balançava mole, mole.

Huang Sun-Won(1915-2000), in “Contos Contemporâneos Coreanos”.
Tem sete romances, mais de uma centena de contos e poemas publicados.
Após a divisão das duas Coreias, teve que fugir para a do Sul por ser de família abastada.

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