Adeus, Sofia!

Soube hoje do falecimento de um querido professor, de Filosofia e Política.
Eu, que vinha de exatas, não podia imaginar o quanto são transformadoras essas matérias, juntamente com Sociologia. São elas que nos preparam para entender o ser humano, e em consequência, aplicar o direito.
As aulas desse professor eram muito lúdicas. As vezes ele sentava no parapeito da janela ou sentava-se na mesa como quem senta no chão, com as pernas cruzadas. E de um salto, ele descia ao chão. Era um susto e uma gargalhada!
Tinha o péssimo hábito de fumar e de lembrar da ditadura militar, quando ele estudava na USP. Então já sabem né…
Também tinha um jeito meio maluquinho de encontrar a gente no corredor e conversar como se soubesse quem a gente era. As vezes eu acho que ele sabia, as vezes tenho certeza que não. Era seu jeito gentil de não dispensar uma conversa.
Suas aulas foram transformadoras para mim.
Toda semana eu entrava na aula uma pessoa, e saía outra totalmente diferente. Porque também suas aulas já não eram a mesma da semana anterior.
Saímos da caverna, desmontamos e remontamos uma cadeira.
Descobri que os filósofos ainda existem, que não é “coisa de antigamente”.
Li o livro “O mundo de Sofia” por causa dele. Não que ele tenha recomendado, mas me inspirou. E achei divertido quando fui, toda contente, contar que o havia lido e ele apenas assentiu. Não houve discussão, nem descobertas. Ninguém citou frase alguma. Era como se fosse um segredo de uma sociedade secreta. Não a sociedade dos que não leram o livro, mas a dos que leram, se decepcionaram e não querem mitigar o sonho.
Não podia deixar essa data passar em branco.
Porque eu sou grata, imensamente grata.
Do lado de fora da caverna é até mais assustador, mas é bem mais bonito também.

 

Filosofia

Segundo um filósofo grego que viveu há mais de dois mil anos, a filosofia surgiu da capacidade que os homens têm de se surpreender. O homem acha tão estranho viver, que as perguntas filosóficas surgem por si mesmas.

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

O mundo torna-se sonho

O poeta “Novalis”, um dos jovens gênios da Alemanha, afirmou: “O mundo torna-se sonho, o sonho mundo”. Ele escreveu um romance medieval com o título “Heinrich von Ofterdingen”, que ainda estava incompleto quando o autor morreu em 1801, mas que teve grande importância para o Romantismo.
Nele lemos que o jovem Heinrich procurava a “flor azul”, que vira uma vez em sonhos e da qual se finava de saudades desde então. O poeta romântico inglês Coleridge exprimiu a mesma idéia do seguinte modo:

“What if you slept?
And what if, in your sleep, you dreamed?
And what if, in your dream, you went to heaven
and there plucked a strange and beautiful flower?
And what if, when you awoke,
you had the flower in your hand?
Ah, what then?

(E se adormecesses?
E se, no teu sono, sonhasses?
E se, no teu sonho, subisses aos céus
e ali colhesses uma estranha e bela flor?
E ainda se, ao acordares,
tivesses a flor na tua mão.
Ah, como seria, então?)”:

Jostein Gaarder in “O mundo de Sofia”

Determinado no nascimento

Mas seria possível o nascimento determinar, de fato, a figura de cada um?
Não era estranho que ela não soubesse quem era? Não era absurdo não poder decidir nada quanto à sua figura?
Tinha simplesmente nascido consigo. Podia escolher os seus amigos, mas não se escolhera a si mesma. Nunca tinha decidido que queria ser um ser humano…

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

O que todos os homens precisam

Será que resta alguma coisa de que todos os homens precisam? Os filósofos acham que sim.
Segundo eles, o homem não vive apenas do pão. É evidente que todos os homens precisam comer. Todos precisam de amor e de atenção, mas há algo mais de que todos os homens precisam. Precisamos descobrir quem somos e porque é que vivemos.

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

Contigo mesma

Mas é possível que tu encontres contigo mesma. Pode acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio pelo bosque.

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

Tudo flui

“Tudo flui”, segundo Heráclito. Tudo está em movimento, e nada dura eternamente. Por isso, não podemos “entrar duas vezes no mesmo rio”. Porque quando entro no rio pela segunda vez, tanto eu como o rio estamos mudados.

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

Faculdade de distinguir

Achava que a faculdade de distinguir o justo do injusto residia na razão e não na sociedade.
Talvez não consigas engolir facilmente a última frase, Sofia. Vou tentar mais uma vez: Sócrates achava impossível que alguém fosse feliz se agisse contra as suas próprias convicções. E aquele que sabe como atingir a felicidade vai, certamente, fazê-lo. Por isso, quem sabe o que está certo, fará o que está certo.
(…)
Podes viver feliz se estiveres sempre a fazer coisas que, no fundo do coração, não aches corretas? Há muitas pessoas que mentem e roubam constantemente, outras que lançam calúnias. Pois bem!
Sabem que isso não é correto – ou justo, se preferires. Mas acreditas que isso as faz felizes? Sócrates não acreditava.

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

Nós também?

– Nós também?
– Sim, nós também somos poeira de estrelas.

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”

Como é possível?

Livro

Tanto fazia: como era possível encontrar num livro sobre si mesma?

Jostein Gaarder in “O Mundo de Sofia”