Sal da terra

“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois sal da terra porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa dessa corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar.

– Trecho do sermão de Santo Antônio aos Peixes,
proferido pelo padre Antônio Vieira em São Luis do Maranhão,
em 13 de junho de 1654 , dia de Santo Antônio.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Minha Cidade

Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Cora Coralina in “Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa in “Poemas Completos de Ricardo Reis”

Cartas sem selo – I

Caro autor,

Soube do fim do seu relacionamento. Todo fim nos abre um leque de novas oportunidades. As vezes, é um tapa na cara que a vida nos dá, pra gente sair da zona de conforto e ir atrás de algo que nos lembre que nosso coração palpita de verdade.
Mas guarde esse amor em seu coração com carinho. Todo amor é válido e nos ensina algo sobre amar, a gente e ao outro.
Vejo que a superação veio na forma de estudo. É bom, fico contente. Sonhos existem pra isso mesmo, para serem realizados.
Espero que realize todos. Das duas graduações, de um grande amor.
Eu fiz duas graduações. Não ao mesmo tempo, deus me livre! Consome a gente, desgasta. Deixa a gente preguiçoso de viver e ao mesmo tempo com uma ânsia muito grande de realizar coisas grandes.
Estou agora nesse “hiatus”. Da vida, do sonho, das realizações. Dá um pouco de esperança ver que outras pessoas ainda vivem, sonham, realizam.

Com carinho,

P.

Eu decido

Certo dia um escritor acompanhou seu amigo até a banca de jornal onde ele costumava comprar diariamente o seu exemplar.
Ao se aproximarem do balcão seu amigo cumprimentou amavelmente o jornaleiro, e em resposta recebeu um tratamento rude e grosseiro.
O amigo então pegou o jornal, que foi jogado em sua direção, pagou, sorriu, agradeceu e desejou um ótimo dia ao jornaleiro.
Quando ambos caminhavam de volta, o escritor intrigado perguntou ao seu amigo:
– Você compra jornal aqui todos os dias?
– Sim – respondeu o amigo.
– E ele sempre o trata assim, com tanta grosseria?
– Sim – respondeu o rapaz – Infelizmente é sempre assim…
– E você é sempre tão educado e amigável com ele?
– Sim, sempre.
– E por que você é tão educado com ele, se ele é tão grosso com você?
– Bem, é porque eu não quero que ele decida como eu devo ser.

Desconheço o Autor


Eu acho esse texto super parecido com o publicado ontem, do Caminhão de Lixo. Não acham? Quando encontrei o de ontem, tive que buscar esse também e publicar aqui no blog.

A lei do caminhão de lixo

Um dia, peguei um táxi para ir ao aeroporto.
Estávamos rodando na faixa certa,quando de repente um carro preto saiu inesperadamente de um estacionamento á nossa frente.
O taxista, pisando no freio bruscamente, deslizou e escapou de bater em outro carro, foi por um triz !
O motorista do carro preto sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós, nervosamente.
Mas, o motorista do táxi , apenas sorriu e acenou para o cara, fazendo um sinal com o polegar, de positivo, e ele o fez de maneira bastante amigável.
Indignado lhe perguntei: – Porque você fez isto? Esse cara quase arruína o seu carro, a nós, e quase nos manda para um hospital !
Foi quando o motorista do táxi me ensinou o que agora eu chamo de “ A Lei do Caminhão de Lixo”.
Ele explicou que muitas pessoas são como Caminhão de Lixo
Andam por ai carregadas de lixo, cheias de frustrações , cheias de raiva, traumas e desapontamentos.
A medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de um lugar para descarregar e as vezes descarregam sobre a gente.
Nunca tome isso como pessoal.
Isto não é problema seu. É dele !
Apenas sorria, acene, deseje-lhes sempre o bem e vá em frente.
Não pegue o lixo de tais pessoas e nem o espalhe sobre outras pessoas, no trabalho, EM CASA, ou nas ruas.
Fique tranqüilo…respire , e DEIXE O LIXEIRO PASSAR !
O principio disso é que as pessoas felizes não deixam os caminhões de lixo estragarem o seu dia.
A vida é curta ! não leve lixo com você !
Limpe os sentimentos ruins, aborrecimentos do trabalho,picuinhas pessoais, ódios ou frustrações.
Ame as pessoas que lhe tratam bem, e trate bem as que não o fazem.
A vida, é dez por cento do que você faz dela, e noventa por cento da maneira como você a recebe !
Tenha um bom dia…e lembre-se…LIVRE-SE DOS LIXOS

David J. Pollay in “The Law of the Garbage Truck”

No campo coberto de neve

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem aos montes,
Abraçando até o som dos faisões e codornizes
Retornando a seus ninhos.

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem como algodão fofo,
Abraçando até mesmo o som das garotas com faces rosadas
Retornando a seus ninhos.

Abraça até o som de todas as fortunas voltando para casa,
O choro,
O riso,
Os sobrecarregados
Agora se tornando fortes.

Para os grandes, grandes traços de lágrimas,
Para os pequenos, pequenas linhas de riso;
O som de grandes histórias e pequenas histórias
Voltando para casa, sussurrando suavemente.

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem constantemente,
Abraçando até o som de muitas montanhas –
As Montanhas Azuis* voltando para casa.

Seo Jeong-ju (1915 – 2000)

* Montanhas Azuis: montanhas míticas situadas em algum lugar em China.

PS: A tradução foi feita por mim, livremente. Encontrei um blog só de poemas coreanos. Não constam as obras, infelizmente.

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Monólogo das Mãos

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever……
As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;
Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;
foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;
com as mãos David agitou a funda que matou Golias;
as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;
Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.
A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;
o operário construir e o burguês destruir;
o bom amparar e o justo punir;
o amante acariciar e o ladrão roubar;
o honesto trabalhar e o viciado jogar.
Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!
Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;
os remédios e os venenos;
os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.
Os olhos dos cegos são as mãos.
As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;
no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
O autor do “Homo Rebus” lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;
a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.
Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.
A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;
fechada e levantada mostra a força e o poder;
empunha a espada a pena e a cruz!
Modela os mármores e os bronzes;
dá cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.
Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza;
doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.
O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.
O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;
Jesus abençoava com as mãos;
as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.
Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.
E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.

(E a imagem consoladora do Nazareno pregado à Cruz, vai conosco para debaixo da terra em nossas mãos cruzadas sobre o peito.)

E as mãos dos amigos nos conduzem…
E as mãos dos coveiros nos enterram!

Oduvaldo Vianna in “O Vendedor de Ilusões”,
escrita para Procópio Ferreira em 1931