Contrariando-nos a vontade

O amor nem sempre chega quando queremos. Às vezes, ele simplesmente acontece, contrariando-nos a vontade.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

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Sentir-se forte

“Os únicos presentes do mar são golpes duros e, as vezes, a chance de sentir-se forte.
Eu não entendo muito sobre o mar, mas sei que as coisas são assim por aqui.
E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte.”

– Na Natureza Selvagem (filme)

Motivo para reeguer-se

“Pois bem, sabe o que eu espero, uma vez que recomeço a ter esperanças? É que a família seja para você o que para mim é a natureza, os torrões de terra, a relva, o trigo amarelo, o camponês, ou seja, que você encontre em seu amor pelas pessoas motivo não só para trabalhar mas com que se consolar e reerguer-se, quando necessário.”

Van Gogh in “Cartas a Théo”
Tradução de Pierre Ruprecht

Feita de água

Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Na Fundação Casa…

– Quem gosta de poesia?
– Ninguém, senhor.

Aí recitei “Negro drama” dos Racionais.

– Senhor, isso é poesia?
– É.
– Então “nóis” gosta.

É isso. Todo mundo gosta de poesia.
Só não sabe que gosta.

Sérgio Vaz in “Flores de alvenaria”

Ainda me levanto

Podes inscrever-me na História
Em mentiras amargas e retorcidas.
Podes espezinhar-me no chão sujo
Mas ainda assim, como a poeira, vou-me levantar.

Minha impertinência incomoda?
Por que ficas soturno
Ao me ver andar como se tivesse em casa
Poços de petróleo jorrando?

Como as luas e como os sóis,
Como a constância das marés,
Como a esperança alçando voo,
Assim me levanto.

Querias ver-me alquebrada?
Cabeça pensa e olhos baixos?
Ombros caídos como lágrimas,
Enfraquecida de tanto pranto?

Minha altivez o ofende?
Não leve tão a peito assim:
Eu rio como quem minera ouro
Em seu próprio quintal

Podes fuzilar-me com palavras
Podes lanhar-me com os olhos
Podes matar-me com malevolência
Mas ainda assim, como o ar, eu me levanto

Minha sensualidade perturba?
Por acaso te surpreende
Que eu dance como quem tem diamantes
Ali onde as coxas se encontram?

Do fundo das cabanas da humilhação
Me levanto
Do fundo de um pretérito enraizado na dor
Me levanto
Sou um oceano negro, marulhando e infinito,
Sou maré em preamar

Para além de atrozes noites de terror
Me levanto
Rumo a uma aurora deslumbrante
Me levanto
Trazendo as oferendas de meus ancestrais
Portando o sonho e a esperança do escravo
Ainda me levanto
Me levanto
Me levanto

Maya Angelou in “Academia Americana de Letras
Tradução de Walnice Nogueira Galvão

Muito mais que uma ativista do feminismo, Maya foi um dos principais nomes na luta pelos direitos civis dos negros, lutando ao lado de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, uma grande poeta e escritora, historiadora, dançarina, atriz, produtora de TV entre várias outras profissões. Como a maioria das mulheres ao redor do planeta, Maya precisou se desdobrar e enfrentar a opressão masculina para se estabelecer na vida e promover uma boa qualidade de vida aos seus filhos.

Maya faleceu em 2014, aos 86 anos, mas deixou um legado de inspiração a todas às mulheres e, por que não, aos homens, sobre igualdade, respeito e amor ao próximo, independentemente de raça, gênero, condição social ou o que quer que seja.

Via Papelpop

A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam logo ali
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana In “A cor do invisível”

Cartas a Théo

Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.
Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.
Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.
Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.
Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”
Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…
E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.
Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?
Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte. Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

Van Gogh in “Cartas a Théo”
Tradução de Pierre Ruprecht

Desbrilhou

Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara.
Sem mais nada, nem outra mulher havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia.
Eu insisti, louca de tristeza.
Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

O jardim das palavras

“Como um vago trovão.
No céu nublado, trazendo a chuva…
Se for, faz-me companhia?

O som leve do trovão.
Mesmo que a chuva não venha…
Ficarei aqui… Junto com você”

– O jardim das palavras (filme)