Resolvi ter um Planner!

Dia desses o instagram me sugeriu um vídeo do tal caderno inteligente. Fiquei impressionada por ele permitir trocar as folhas de lugar, já que a furação e os arcos que seguram as folhas são projetados exatamente para isso.

Depois desse vídeo, meus dias não foram os mesmos!

Pesquisando, descobri que existe um mundo secreto maravilhoso dos planners. E quando entramos nele, somos Alice caindo pela toca do coelho!

O planner nada mais é que aquela agenda preta com ferragens de fichário que eu ganhei da minha madrinha quando tinha 18 anos. Era meu primeiro emprego, carregava a agenda pra cima e pra baixo. Perdi os inserts, já que as datas estava impressas e os dias em branco. Mas só no papel! Porque a vida, era toda novidade.

Depois de um tempo, dei um uso pra agendinha preta. Virou extrato bancário, pra eu organizar minhas dívidas. Tinha que ser tudo contadinho na ponta do lápis, afinal, não era fácil administrar os duzentos reais que eu ganhava na época. Lembro como se fosse hoje, que com o meu primeiro pagamento comprei um perfume da Boticário. Custou-me quase metade do salário, mas foi o primeiro item que comprei com o meu suor.

Mas nunca me esqueço da facilidade da agenda, de criar minhas folhas coloridas: todas numa cor só. Não dava pra exigir muito das papelarias e muito menos do meu salário. Porém, me foi útil por muito tempo, até que a capa desgastou, assim como vieram os computadores e as planilhas de excel – minha vocação verdadeira.

O fantasma da agendinha invocado pelo caderno inteligente me assombrou até que decidi: vou ter um planner no próximo  nesse ano!

Mas essa decisão, foi só o princípio do fim. Comprei argolas soltas, como os de uma colega que usava no fichário da faculdade. Mas achei muito desestruturada. Depois achei uma pasta com espiral A5, na Daiso – aquela perdição de coisas lindas e fofas que custam 7,99 cada. E por fim, comprei um fichário tamanho A6 na cor lilás.

Meu sonho mesmo era uma agenda de couro, no estilo fichário, dessas marcas chiques no mundo dos planners. Mas ainda não estou podendo querendo investir 300 dólares numa dessas.

Com a nova agendinha na mão, tenho um novo desafio: e as folhas?

Fica pra uma próxima conversa. 😉

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Morrer completamente

Mas morrer de algum modo não é igual a morrer completamente — deixar de respirar, perder todas as delícias da existência, incluindo a de sofrer. Nesse dia em que não morri viciei-me no sofrimento, eu sei. Sei tudo o que há para saber e nem assim desisto. Um dia contar-te-ei — quando conseguir que tu me ames ou quando conseguir aceitar em definitivo o teu desamor.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Há quem tenha medo que o medo acabe

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.

Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.

Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.

Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.

Essa arma chama-se fome.

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi — ou será — vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.

Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.

Mia Couto,
na conferência de Estoril em 2011.

 

Sobre as eleições e meninas que vivem em galinheiros

Nessa eleição, perdemos todos. Foi o texto que recebi pelo facebook. Achei interessante, mas tenho muito a complementar.
A verdade é que estamos perdidos.
Não sabemos o que fazer com tanta liberdade de expressão, com tanta informação disfarçada de opinião, apenas repetindo e compartilhando, sem refletir o quanto pode ser verdade ou possível.
Ainda somos ingênuos, na maioria, cheio de esperanças e de memória curta.
Os dois candidatos são terríveis.
Um traz resquícios da opinião dos nossos avós: machista, preconceituosa, do último a falar, do sair por cima, do “comigo não morreu”.
O outro, com o discurso assistencialista, tem passado recente machado pela corrupção. Ao invés de ajudar os mais pobres, enriqueceu os mais próximos.
A verdade é que estamos perdidos, pois apesar dos discursos conseguirem angariar muitos fanáticos, não vemos as idéias práticas, aquelas propostas viáveis que vão diminuir as diferenças sociais.
Pois somente sem corrupção, com a melhor distribuição de renda, com educação, saúde e trabalho, diminui-se a violência. É esse o caminho para a justiça social.
Aí, não teremos que ler sentenças de meninas de onze anos, abandonadas pelos pais, vivendo em galinheiros na beira da estrada, cuja única renda é a do marido que arrumou pra não viver sozinha, carroceiro que ganha R$ 100,00 reais por mês pra sustentar a família.
Gente que não tem registro de nascimento, muito menos título de eleitor, que nunca na vida vai ir numa biblioteca. Que tem mais irmãos que dedos na mão.
Pra essas pessoas, não chega discurso, não chega notícia falsa, não chega aquela ajuda que tem gente por aí que tem tanto orgulho de anunciar, não chega nem essa nossa guerra opinião de quem vai vencer essa eleição.
E também não chega ajuda, porque não importa quem vai ser eleito, ele também não se importa com garotas de onze anos que vivem sozinhas em galinheiros à beira da estrada.

Em tempo, sobre a menina citada, trata-se de uma decisão judicial que anda circulando nas redes sociais, de uma menina que pediu a emancipação, no interior da Bahia, para poder adquirir uma casa no programa de habitação popular.

Mas minha querida, e se você voar?

“There is freedom waiting for you,
On the breezes of the sky,
And you ask “What if I fall?”
Oh but my darling,
What if you fly?”

“Há liberdade esperando por você,
Na brisa do céu
E você pergunta “E se eu cair?”
Mas minha querida,
E se você voar?

– Erin Hanson in Reverie”
Tradução livre, minha.

 

Jornada

“A vida é uma jornada. Quantos ciclos de vida temos esperado pela oportunidade de aproveitar essa jornada?
A vida é curta, e todos nós temos que ir um dia. Nós poderíamos ser um pouco mais ousados.
Apaixonar- se, escalar uma montanha, perseguir um sonho. Sim, não faz mal ser um pouco mais ousado.
Há muitas perguntas que eu não entendo, há muitas perguntas que eu não posso responder, mas eu acredito que o céu nos deu a vida para nós criarmos milagres.”

– Peixe Grande e Begônia (filme)

Um simples olhar

“O brilho que viu nos olhos de Seyit não era diferente do que havia nos seus próprios. Talvez nunca voltassem a se encontrar, mas ela havia se tornado sua prisioneira, uma prisioneira para toda a vida e tudo por causa de um simples olhar. Shura estremeceu. Alguma coisa lhe dizia que estava perdidamente apaixonada e que essa paixão lhe traria muito sofrimento.”

Nermin Bezmen in “Kurt Seyit & Shura”

Tristeza necessária

Mas a tristeza é necessária à vida, acudiu D. Tomásia, que abrira os olhos logo à entrada do marido. As dores alheias fazem lembrar as próprias, e são um corretivo da alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.”

Machado de Assis in “Helena”

Eles tinham

Piet adormeceu com a Bíblia no rosto.
Africanos disseram:
“Quando os europeus vieram, eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra.
Agora, nós temos a Bíblia e eles possuem nossa terra.”

No museu do Apartheid, África do Sul.
(tradução livre, minha)

Longevidade

“-Vocês, jovens tratam a vida como se houvesse pedras no caminho. Enquanto nós velhos tentamos de tudo para viver mais um dia.
-Sem felicidade, qual o sentido da longevidade?”

– Peixe Grande e Begônia (filme)