Ofertas de Aninha (aos moços)

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Hoje seria o 128º aniversário de Cora Coralina

A Proteção Pungente

Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava a ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietá, a mãe do homem.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Caleidoscópios

As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor — por isso permanecem quando as cores desmaiam.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Doces palavras

“Por favor, fique comigo essa noite.”
Ah, que doces palavras ele tem. Ele sabe o que dizer, as palavras certas.
Então não suporto, quero calá-lo e meus lábios tocam os dele. Suaves, mornos, perdendo a timidez aos poucos. Invado, misturo, tornado. Dentro de mim cresce a chama, quero-o. Quero dizer-lhe que o amo, que ficarei para sempre, mas não há tempo, não há espaço. Beijo-lhe a ponta da orelha, seu pescoço e clavícula. Qual o peso do fardo que ele carrega?
Seu peito em ondas onde emergem duas pérolas. Quero saboreá-las de tão preciosas que são para mim.
Suas costelas escondem seu coração, a verdade é que quero abri-las, rasgando-lhe a carne e com mãos sangrentas abrir-lhe o coração. Quero morar nele, sozinho, senhor supremo de todo sentimento que existe nessa alma.
Dobro seu corpo, enrolo, alfineto. Somos um em erupção.
Então ele me abandona, exausto, na serenidade do sono satisfeito. Me deixa só, novamente, a velá-lo, idolatrá-lo.
Ouço-o murmurar meu nome.
Ah, que doces palavras ele tem. Pena que o momento certo já não está mais entre nós.

Poetriz

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

Amor medieval

Deitei-me na única cama desocupada e comecei a ler a respeito do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. E, por incrível que pareça, naquele dia abriu-se para mim uma porta de cuja existência eu nem suspeitava; um mundo maravilhoso, onde florescia a cavalaria, existia amor romântico, e lindas donzelas eram colocadas em pedestais e adoradas a distância.
Naquele dia, iniciou-se para mim um caso de amor com a Era Medieval – um amor que nunca mais teve fim.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Sonhei tanto

Não sonhava ser feliz, que isso era demasiado em mim. Sonhava para me sentir longínqua, distante até do meu cheiro. Ali, frente ao Cinema Olympia, sonhei tanto até o sonho me sujar.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Meia culpa, meia própria culpa)

Penso em desistir

Às vezes eu penso em desistir, eu acho que não agüento essa aprendizagem toda outra vez — fico tentado a desistir. Não sei bem por que insisto, posso dizer apenas frases feitas sobre isso, mas na verdade não sei.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”

A missanga

A missanga, todas a vêem.
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.

Mia Couto in “O Fio da Missangas”

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem

Manuel Bandeira in”Poesia completa e prosa.”

 

Primeiro vem o tempo de achar

Primeiro vem o tempo de achar, depois o de seguir.
Depois desses, outros tempos,
até que venha um tempo só,
e é o logo e solitário tempo do perdido.

Mas para isto é que a memória vale:
aí, nessa distância
esta paisagem não parecerá mais uma visão desconhecida,
terá apenas um ar familiar e antigo,
que nos lembra aquilo que existiu,
e foi nosso sem que soubéssemos que era nosso.
Será então o tempo de entender.

Lúcio Cardoso in “Poemas Inéditos”