Jorge Ruiz Zafón (1964-2020)

Enquanto nos recordam, continuamos vivos

O escritor espanhol #carlosruizzafon, faleceu aos 55 anos, conforme anúncio da editora Planeta, que publicou sua obra.

Nascido em Barcelona em 1964, Ruiz Zafón estudou em um colégio religioso e se formou em Ciências da Informação.

Apesar de sua paixão pela #literatura desde a infância, #carlosruizzafón publicou o primeiro livro somente aos 30 anos e depois de abandonar a carreira que tinha na publicidade.

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Adeus, Sofia!

Soube hoje do falecimento de um querido professor, de Filosofia e Política.
Eu, que vinha de exatas, não podia imaginar o quanto são transformadoras essas matérias, juntamente com Sociologia. São elas que nos preparam para entender o ser humano, e em consequência, aplicar o direito.
As aulas desse professor eram muito lúdicas. As vezes ele sentava no parapeito da janela ou sentava-se na mesa como quem senta no chão, com as pernas cruzadas. E de um salto, ele descia ao chão. Era um susto e uma gargalhada!
Tinha o péssimo hábito de fumar e de lembrar da ditadura militar, quando ele estudava na USP. Então já sabem né…
Também tinha um jeito meio maluquinho de encontrar a gente no corredor e conversar como se soubesse quem a gente era. As vezes eu acho que ele sabia, as vezes tenho certeza que não. Era seu jeito gentil de não dispensar uma conversa.
Suas aulas foram transformadoras para mim.
Toda semana eu entrava na aula uma pessoa, e saía outra totalmente diferente. Porque também suas aulas já não eram a mesma da semana anterior.
Saímos da caverna, desmontamos e remontamos uma cadeira.
Descobri que os filósofos ainda existem, que não é “coisa de antigamente”.
Li o livro “O mundo de Sofia” por causa dele. Não que ele tenha recomendado, mas me inspirou. E achei divertido quando fui, toda contente, contar que o havia lido e ele apenas assentiu. Não houve discussão, nem descobertas. Ninguém citou frase alguma. Era como se fosse um segredo de uma sociedade secreta. Não a sociedade dos que não leram o livro, mas a dos que leram, se decepcionaram e não querem mitigar o sonho.
Não podia deixar essa data passar em branco.
Porque eu sou grata, imensamente grata.
Do lado de fora da caverna é até mais assustador, mas é bem mais bonito também.

 

1º de Janeiro – Hoje

Hoje não é o primeiro dia do ano para os maias, os judeus, os árabes, os chineses e outros muitos habitantes deste mundo.

A data foi inventada por Roma, a Roma imperial, e abençoada pela Roma vaticana, e acaba sendo um exagero dizer que a humanidade inteira celebra esse cruzar da fronteira dos anos.

Mas uma coisa, sim, é preciso reconhecer: o tempo é bastante amável com a gente, seus passageiros fugazes, e nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para querer que seja alegre como as cores de uma quitanda.

Eduardo Galeano in “Os Filhos dos Dias”

Há um pai

Há um pai na lembrancinha
que o filho trouxe da escola
no carrinho, numa bola
que ele deu pelo natal
há um pai lendo um jornal
assistindo televisão
há um pai lá no sertão
alimentando a “criação”
que ficou, lá no curral

Há um pai puxando a orelha
há um pai embalando nos braços
pai que faz o tipo palhaço
pai severo, ditador
pai que chamamos de senhor
pai que chamamos de “velho”
há um pai que dá conselhos
pai que protege e ampara
um pai que grita na cara
há um pai que ensina com vara
um pai que ensina com amor

Há um pai que já nem lembra
o tamanho da sua prole
há um pai que gosta de uns goles
de um cigarrinho de páia
há um pai que corre na praia
e faz o estilo cinquentão
pai que banca o machão
há um pai de mãos calejadas
pai de face enrugada
pai que de pai não tem nada
há um pai que não foge da raia

Há um pai que deixou saudades
lembranças que nos marcaram
e há os pais que nos deixaram
e nem lembramos do nome
há um pai que passou fome
pra poder dar o estudo
e o filho depois de tudo
essa confiança trai
pai que do coraçâo não sai
e há uma mãe que foi pai
porque um pai não foi homem

( Desconheço a autoria)

Ofertas de Aninha (aos moços)

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Hoje seria o 128º aniversário de Cora Coralina

A Proteção Pungente

Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava a ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietá, a mãe do homem.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

De um jeito torto, mas bonito

Tô feliz com os 30: acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”


Por aqui, mais um inverno pra mim. 🙂

Basta ano novo

Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como uma realidade. Sonhei que aquele dia era Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!
Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.

Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira In “Lira dos cinquenta anos”, 1940

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar in “Dentro da Noite Veloz”

Ferreira Gullar morre aos 86 no rio.
Notícia completa aqui.