Ainda me levanto

Podes inscrever-me na História
Em mentiras amargas e retorcidas.
Podes espezinhar-me no chão sujo
Mas ainda assim, como a poeira, vou-me levantar.

Minha impertinência incomoda?
Por que ficas soturno
Ao me ver andar como se tivesse em casa
Poços de petróleo jorrando?

Como as luas e como os sóis,
Como a constância das marés,
Como a esperança alçando voo,
Assim me levanto.

Querias ver-me alquebrada?
Cabeça pensa e olhos baixos?
Ombros caídos como lágrimas,
Enfraquecida de tanto pranto?

Minha altivez o ofende?
Não leve tão a peito assim:
Eu rio como quem minera ouro
Em seu próprio quintal

Podes fuzilar-me com palavras
Podes lanhar-me com os olhos
Podes matar-me com malevolência
Mas ainda assim, como o ar, eu me levanto

Minha sensualidade perturba?
Por acaso te surpreende
Que eu dance como quem tem diamantes
Ali onde as coxas se encontram?

Do fundo das cabanas da humilhação
Me levanto
Do fundo de um pretérito enraizado na dor
Me levanto
Sou um oceano negro, marulhando e infinito,
Sou maré em preamar

Para além de atrozes noites de terror
Me levanto
Rumo a uma aurora deslumbrante
Me levanto
Trazendo as oferendas de meus ancestrais
Portando o sonho e a esperança do escravo
Ainda me levanto
Me levanto
Me levanto

Maya Angelou in “Academia Americana de Letras
Tradução de Walnice Nogueira Galvão

Muito mais que uma ativista do feminismo, Maya foi um dos principais nomes na luta pelos direitos civis dos negros, lutando ao lado de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, uma grande poeta e escritora, historiadora, dançarina, atriz, produtora de TV entre várias outras profissões. Como a maioria das mulheres ao redor do planeta, Maya precisou se desdobrar e enfrentar a opressão masculina para se estabelecer na vida e promover uma boa qualidade de vida aos seus filhos.

Maya faleceu em 2014, aos 86 anos, mas deixou um legado de inspiração a todas às mulheres e, por que não, aos homens, sobre igualdade, respeito e amor ao próximo, independentemente de raça, gênero, condição social ou o que quer que seja.

Via Papelpop

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Ofertas de Aninha (aos moços)

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Hoje seria o 128º aniversário de Cora Coralina

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem

Manuel Bandeira in”Poesia completa e prosa.”

 

Primeiro vem o tempo de achar

Primeiro vem o tempo de achar, depois o de seguir.
Depois desses, outros tempos,
até que venha um tempo só,
e é o logo e solitário tempo do perdido.

Mas para isto é que a memória vale:
aí, nessa distância
esta paisagem não parecerá mais uma visão desconhecida,
terá apenas um ar familiar e antigo,
que nos lembra aquilo que existiu,
e foi nosso sem que soubéssemos que era nosso.
Será então o tempo de entender.

Lúcio Cardoso in “Poemas Inéditos”

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Minha Cidade

Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Cora Coralina in “Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa in “Poemas Completos de Ricardo Reis”

No campo coberto de neve

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem aos montes,
Abraçando até o som dos faisões e codornizes
Retornando a seus ninhos.

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem como algodão fofo,
Abraçando até mesmo o som das garotas com faces rosadas
Retornando a seus ninhos.

Abraça até o som de todas as fortunas voltando para casa,
O choro,
O riso,
Os sobrecarregados
Agora se tornando fortes.

Para os grandes, grandes traços de lágrimas,
Para os pequenos, pequenas linhas de riso;
O som de grandes histórias e pequenas histórias
Voltando para casa, sussurrando suavemente.

Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem,
Está tudo bem-
Os flocos de neve caem constantemente,
Abraçando até o som de muitas montanhas –
As Montanhas Azuis* voltando para casa.

Seo Jeong-ju (1915 – 2000)

* Montanhas Azuis: montanhas míticas situadas em algum lugar em China.

PS: A tradução foi feita por mim, livremente. Encontrei um blog só de poemas coreanos. Não constam as obras, infelizmente.

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

Cora Coralina in “Melhores Poemas”

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Fernando Pessoa in “Poemas Completos de Ricardo Reis”