Feita de água

Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

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Na Fundação Casa…

– Quem gosta de poesia?
– Ninguém, senhor.

Aí recitei “Negro drama” dos Racionais.

– Senhor, isso é poesia?
– É.
– Então “nóis” gosta.

É isso. Todo mundo gosta de poesia.
Só não sabe que gosta.

Sérgio Vaz in “Flores de alvenaria”

A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam logo ali
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana In “A cor do invisível”

Cartas a Théo

Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.
Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.
Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.
Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.
Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”
Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…
E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.
Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?
Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte. Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

Van Gogh in “Cartas a Théo”
Tradução de Pierre Ruprecht

Desbrilhou

Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara.
Sem mais nada, nem outra mulher havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia.
Eu insisti, louca de tristeza.
Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Necessitados de alguém

Talvez ele estivesse no ponto para apaixonar-se, como eu estava, ou talvez fosse por estarmos ambos necessitados de alguém que nos desse carinho e afeto.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Para não morrer

Alimentando-se de palavras para não morrer, matando as palavras para não chorar.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Resenha: A Forma da Água

Uma história de amor num mundo mágico e misterioso na América em 1963. Elisa (Sally Hawkins) é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório onde um homem anfíbio está sendo mantido em cativeiro.
Elisa começa a se interessar pela criatura e passa a tentar comunicar-ser com ela através de comida, música e gestos próprios da linguagem de sinais.
Entretanto, o plano militar é dessecar a criatura para estudá-la. E dos espiões é impedir esse estudo.
Em meio a esse conflito, Elisa elabora um plano com seu vizinho para resgatar a criatura.

O filme tem 13 indicações ao oscar, incluindo melhor filme, atriz e atriz coadjuvante, melhor diretor, figurino, direção de arte e roteiro original. Acredito que uns 5 ele deve levar, principalmente os técnicos e roteiro original. Não assisti aos demais indicados, por isso não posso apostar nas atrizes e diretor.

Entretanto, Sally Hawkins teve uma belíssima atuação sem emitir quase som algum durante toda a trama. Como sua personagem era muda, ficou por conta dos gestos e fisionomia toda a emoção transmitida.

Outro deleite da trama é a paixão da Elisa por filmes antigos, o que nos rendem cenas de sapateado e solo em preto e branco, uma verdadeira homenagem ao cinema. Acredito que isso influenciará muito na premiação, já que La La Land que arrebatou diversos prêmios ano passado, seguia essa mesma linha.
Mas o filme não é só uma homenagem ao cinema clássico, ainda nos traz um mundo de fantasia como a cena do banheiro inundado ou até mesmo o romance entre a criatura e Elisa.

A trilha sonora conta com Carmem Miranda (a criatura é brasileira, da Amazônia) e canções francesas, que para mim, me remeteram a Amelie Polain e outros filmes franceses que usam a mesma fórmula da mocinha inocente e um mundo mágico à sua volta.

Apesar de tanta coisa pra se reparar, como o desejo de Elisa de se apaixonar simbolizado pelo desejo pelo sapato vermelho e a realização de seu desejo, quando ela se veste completamente de vermelho ou a maquiagem perfeita da criatura, o filme traz uma lição muito forte sobre solidão, pertencimento, compreensão e aceitação das diferenças.

“Quando ele olha para mim, o modo como ele me olha. Ele não sabe o que falta em mim, ou quanto sou incompleta. Ele vê o que eu sou, como sou.”

“Tudo o que vem a minha mente é um poema sussurrado por alguém apaixonado, há centenas de anos atrás: ‘Incapaz de definir a Tua forma, eu o vejo ao meu redor. Tua presença preenche meus olhos com teu amor, acalanta meu coração, pois Tu está em todos os lugares”

Desejados pelo desejo

-Resmungas que é difícil conseguir estar sozinho comigo. Desiste, amigo. Não me queiras de um querer tão estreito. Para solidão, basta-me o negrume constante em que vivo. E o meu riso, o riso apavorado em que choro as lágrimas que nunca mais poderei ver.
-Porque estou eu aqui contigo, Clara, com esta enferrujada esperança de que talvez venhas ainda a estar comigo? Não pergunto por que te desejo tanto — não é que o desejo não tenha as suas razões, mas só poderiam cartografar-se no espaço inviável de um antes que nunca se detecta. Desejamos antes de desejarmos; somos desejados pelo desejo.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Ódio comparável

Não existe ódio comparável ao gerado pelo amor traído.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”