Dores diferentes

Uma vez, conversando com uma amiga, ficamos nessa discussão por horas: o que é mais dolorido, ter o braço quebrado ou o coração? Uma pessoa que foi rejeitada pelo seu amor sofre menos ou mais do que quem levou 20 pontos no supercílio? Dores absolutamente diferentes. Eu acho que dói mais a dor emocional, aquela que sangra por dentro.

Martha Medeiros in “Dor Física x Dor Emocional”

Anúncios

Adoçam o sono

A única memória que me resta: a migalha de um tempo, o único tempo que me deu sonhos. Sob vigilância de minha velha mãe, eu cuidava de não sonhar tudo, nem depressa. Ainda que fossem metades de sonhos, esses pedaços ainda me adoçam o sono, deitada no frio da cela.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Meia culpa, meia própria culpa)

Música favorita

Ris-te sempre que dizes a palavra invisuais. O teu riso é a minha música favorita, Clara, mas não posso dizer-te isto, deixavas logo de rir.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Sem ser chamado

O amor surge sem ser chamado.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Sossega

A solidão às vezes é tão nítida como uma companhia. Vou me adequando, vou me amoldando. Nem sempre é horrível. As vezes é até bem mansinha. Mas sinto tão estranhamente que amor acabou. [.. .] Repito sempre: sossega, sossega — o amor não é para o teu bico.

Caio Fernando Abreu in “Carta a Jacqueline Cantore”

Você é

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos à flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra.

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora.

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pêlo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.

Você é aquilo que reivindica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.

Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.

– Martha Medeiros in “Non-Stop: crônicas do cotidiano”

Não amei, mas sonhei

É só meu sonho dar um passo e eu já vou sentando minha privada tristeza no passeio público.
Volto onde eu não amei, mas sonhei ser amada.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Meia culpa, meia própria culpa)

Graças pequenas

— Não sabes a Graça que há nas graças pequenas. Não sonhas como preciso dela.
— Dá-me a tua mão, e guarda nela agora o meu silêncio.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Bola da sabão

Aprendemos que o amor era exatamente como uma bola de sabão, tão brilhante e colorida num dia, desfazendo-se em pleno ar no dia seguinte. (…)Todavia, mal um amor terminava, logo surgia outro para lançar no ar aquela brilhante bola de sabão.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Paranóias

Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento estorinhas para mim mesmo, o tempo todo, me conformo, me dou força. Mas a sensação de estar sozinho não me larga. Algumas paranóias, mas nada de grave. O que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada. Estou todo sensível, as coisas me comovem.

Caio Fernando Abreu in “Cartas”