Para não morrer

Alimentando-se de palavras para não morrer, matando as palavras para não chorar.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

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Resenha: A Forma da Água

Uma história de amor num mundo mágico e misterioso na América em 1963. Elisa (Sally Hawkins) é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório onde um homem anfíbio está sendo mantido em cativeiro.
Elisa começa a se interessar pela criatura e passa a tentar comunicar-ser com ela através de comida, música e gestos próprios da linguagem de sinais.
Entretanto, o plano militar é dessecar a criatura para estudá-la. E dos espiões é impedir esse estudo.
Em meio a esse conflito, Elisa elabora um plano com seu vizinho para resgatar a criatura.

O filme tem 13 indicações ao oscar, incluindo melhor filme, atriz e atriz coadjuvante, melhor diretor, figurino, direção de arte e roteiro original. Acredito que uns 5 ele deve levar, principalmente os técnicos e roteiro original. Não assisti aos demais indicados, por isso não posso apostar nas atrizes e diretor.

Entretanto, Sally Hawkins teve uma belíssima atuação sem emitir quase som algum durante toda a trama. Como sua personagem era muda, ficou por conta dos gestos e fisionomia toda a emoção transmitida.

Outro deleite da trama é a paixão da Elisa por filmes antigos, o que nos rendem cenas de sapateado e solo em preto e branco, uma verdadeira homenagem ao cinema. Acredito que isso influenciará muito na premiação, já que La La Land que arrebatou diversos prêmios ano passado, seguia essa mesma linha.
Mas o filme não é só uma homenagem ao cinema clássico, ainda nos traz um mundo de fantasia como a cena do banheiro inundado ou até mesmo o romance entre a criatura e Elisa.

A trilha sonora conta com Carmem Miranda (a criatura é brasileira, da Amazônia) e canções francesas, que para mim, me remeteram a Amelie Polain e outros filmes franceses que usam a mesma fórmula da mocinha inocente e um mundo mágico à sua volta.

Apesar de tanta coisa pra se reparar, como o desejo de Elisa de se apaixonar simbolizado pelo desejo pelo sapato vermelho e a realização de seu desejo, quando ela se veste completamente de vermelho ou a maquiagem perfeita da criatura, o filme traz uma lição muito forte sobre solidão, pertencimento, compreensão e aceitação das diferenças.

“Quando ele olha para mim, o modo como ele me olha. Ele não sabe o que falta em mim, ou quanto sou incompleta. Ele vê o que eu sou, como sou.”

“Tudo o que vem a minha mente é um poema sussurrado por alguém apaixonado, há centenas de anos atrás: ‘Incapaz de definir a Tua forma, eu o vejo ao meu redor. Tua presença preenche meus olhos com teu amor, acalanta meu coração, pois Tu está em todos os lugares”

Desejados pelo desejo

-Resmungas que é difícil conseguir estar sozinho comigo. Desiste, amigo. Não me queiras de um querer tão estreito. Para solidão, basta-me o negrume constante em que vivo. E o meu riso, o riso apavorado em que choro as lágrimas que nunca mais poderei ver.
-Porque estou eu aqui contigo, Clara, com esta enferrujada esperança de que talvez venhas ainda a estar comigo? Não pergunto por que te desejo tanto — não é que o desejo não tenha as suas razões, mas só poderiam cartografar-se no espaço inviável de um antes que nunca se detecta. Desejamos antes de desejarmos; somos desejados pelo desejo.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Ódio comparável

Não existe ódio comparável ao gerado pelo amor traído.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Não quero muito

Essa semana rolou na internet uma publicação da Bruna Marquezine se declarando, novamente, para o Neymar. Na postagem, ela usou uma citação que atribuiu ao Caio Fernando Abreu.
Eu, que amo de paixão o Caio Fernando Abreu e li praticamente todos os seus livros, achei a frase muito diferente do seu estilo.
Assim, não sosseguei até encontrar o verdadeiro autor. E encontrei! Portanto, segue o texto correto com os devidos créditos. 😉

Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde.Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

Eu quero e preciso.
Querer mais é pedir muito?

Te espero.

Você cozinha. Eu escrevo.
A ins-piração é por conta da casa.

– Fernanda Mello no blog dela.

Bichos do tempo

Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai.
por um cansaço de luz, um suicídio da sombra.
Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite.
A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada.
A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras.
A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa.
E tomba, no desamparo do meio-dia.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Mal do Mundo

Mas não julgues que foi o amor que me cegou. É verdade que o amor cega, paralisa, entorpece — mas apenas para tudo o que não é o amor. E tudo o que não é o amor é o mal do mundo. Não vale nada. Amei o bastante para já não temer nada.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

O guardador de rebanhos – VIII (trecho)

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

Alberto Caeiro in “O guardador de rebanhos e outros poemas”

Feita de ilusão

Neste Natal, mais uma vez, muda o carro e toca mesmo. O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias?

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (Na tal noite)

Saltar no abismo

Creio que é mesmo esse desejo inconfessado de saltar para fora da fila o que te atrai em mim, precisas da minha mão de cega para isso, sozinho não tens coragem, olhas para o lado e vês o abismo.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”