Cor de cinza

“O céu está sombrio e escuro, cinzento-escuro. O que foi a vida em todos esses anos? Sacrifício e devotamento. É como ver numa tarde assim de chuva, pesada de tristezas.
Mas não sei lamentar; se fosse preciso recomeçar novamente, novamente faria minha vida a mesma que foi, de sacrifício e devotamento. Devo ser feliz porque cada filho seguiu o caminho escolhido.
Grossas gotas de chuva caem do céu sobre a terra, sobre as árvores e sobre os telhados. Cor de cinza. Solidão.”

Maria José Dupré in “Éramos seis”

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Imperatriz

De uma vez alguém lhe disse, como para lhe dar força: Toda alma livre é imperatriz.

Machado de Assis in “Esaú e Jacó”

Não deixará de tresvariar

O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. (…) Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem, que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama, porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Tão linda

Você é tão linda. É como se eu nunca a tivesse visto antes. Como se tornou tão bela, enquanto estive aqui esse tempo todo?

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

A primavera chegará

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.

– Cecília Meireles in “Obra em Prosa”

Isto é viver

O miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
– Não continuas a escrever?
– Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a meio.

Mia Couto in “O Fio da Missangas” (O menino que escrevia versos)

Dores Invisíveis

Parece absurdo que alguém possa sofrer num dia de céu azul, na beira do mar, numa festa, num bar. Parece exagero dizer que alguém que leve uma pancada na cabeça sofrerá menos do que alguém que for demitido. Onde está o hematoma causado pelo desemprego, onde está a cicatriz da fome, onde está o gesso imobilizando a dor de um preconceito? Custamos a respeitar as dores invisíveis, para as quais não existem prontos-socorros. Não adianta assoprar que não passa.

Martha Medeiros in “Dor Física x Dor emocional”

Resenha: O último poema

Uma mulher sozinha, na sombra de uma árvore, onde folhas – de correspondências – voam. Passam, dançam, vão embora. É assim que começa o filme “O último poema” que conta a história de Helena Maria Balbinot, uma professora do sul, e sua troca de correspondências com Carlos Drummond de Andrade.
Entre imagens poéticas, depoimentos e leitura de trechos da poesia de Drummond, vamos conhecendo essa história simples e bonita sobre uma amizade que durou muitos anos.
Tudo começou quando uma professora disse que a poesia de Drummond era passageira, que poetisa mesmo era Cecília Meireles. Inconformada, por ser fã, Helena pegou uma caneta e papel e mandou uma cartinha para Drummond. Desde então, passaram a corresponder-se.
O teor das correspondências pelos anos era um misto de cotidiano e poesia, nada além disso, como ela deixa bem claro.
Apesar da história, muito sucinta, o filme é um deleite. Imagens que parecem quadros, poesia em movimento, muitas cartas e palavras projetadas em lençóis esvoaçantes. Tudo muito lúdico.
O ator escolhido para representar Drummond, ficou idêntico.
De uma sensibilidade muito grande, uma das cenas finais mostra Helena sentada no banco onde está a estátua de Drummond. Não ficou muito claro, mas aparentemente, nunca se viram pessoalmente.

“Na volta da esperança
um princípio de vida:
ser outra vez criança
por toda, toda vida.”

Carlos Drummond de Andrade in “Poesia Errante”

“A irmã Justina disse certa vez: ‘poderá aqui, no futuro, ter uma escritora ou poetisa’. Envermelhei. Abaixei a cabeça por ter pensado: acho que eu sou poetisa”

Regresso

O meu entusiasmo magoa-te, leio-te a ofensa na voz enquanto me dizes coisas banais e sensatas, que não crie demasiadas expectativas, que ninguém consegue regressar ao lugar onde foi feliz. Conheço muito mais do Brasil do que a felicidade, Sebastião. Como se alguém pudesse regressar ao lugar onde foi infeliz. Não se é duas vezes infeliz da mesma maneira, e ninguém é feliz de maneira nenhuma. Inventamos aquilo de que nos queremos lembrar, isso sim.

Inês Pedrosa in “A Eternidade e o Desejo”

Nos rouba

Uma coisa eu aprendera: não é só a morte que nos rouba as pessoas que amamos e de quem necessitamos.

V. C. Andrews in “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”